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27 llengües

Showing Revision 16 created 06/16/2020 by Margarida Ferreira.

  1. No instante em que ela disse aquilo,
  2. a temperatura na minha sala de aula caiu.
  3. Os meus alunos normalmente
    concentram-se muito em mim,
  4. mas ficaram desconfortáveis
    e desviaram os olhares.
  5. Eu sou uma mulher negra

  6. que ensina as histórias do racismo
    e da escravatura nos EUA.
  7. Sei que a minha identidade social
    está sempre exposta.
  8. E os meus alunos também
    são vulneráveis,
  9. então tenho cuidado.
  10. Eu tento prever qual a parte
    da minha aula que pode correr mal.
  11. Mas sinceramente,
  12. não esperava que isto acontecesse.
  13. Nenhum dos meus anos de pós-graduação
    me preparara para reagir
  14. quando surgisse a palavra N...
    na minha classe.
  15. Eu estava no primeiro ano
    como professora

  16. quando a aluna disse
    a palavra N... na sala de aula.
  17. Ela não estava a ofender ninguém.
  18. Era entusiasmada e cheia de energia.
  19. Chegava à aula com a leitura preparada,
  20. sentava-se na fila da frente,
  21. estava sempre do meu lado.
  22. Quando ela disse aquilo,
  23. estava a comentar a minha lição,
  24. citando a fala de um filme
    dos anos 70, uma comédia,
  25. que tinha dois insultos racistas.
  26. Um sobre descendentes de chineses
  27. e o outro a palavra N...
  28. Assim que ela a disse, eu levantei as mãos
    e disse: "Uau, uau!".
  29. Mas ela tranquilizou-me:
  30. "É uma piada, do Banzé no Oeste"
  31. e depois repetiu-a.
  32. Tudo isto aconteceu há 10 anos,

  33. e o modo como eu lidei com isso
    assombrou-me durante muito tempo.
  34. Não foi a primeira vez
    que eu analisei aquela palavra
  35. num ambiente académico.
  36. Sou professora de História dos EUA.
  37. Ela aparece em muitos
    documentos que eu ensino.
  38. Então, tive de fazer uma escolha.
  39. Depois de consultar
    alguém em quem confio
  40. decidi nunca mais dizê-la.
  41. Nem mesmo como citação.
  42. em vez disso, usar o eufemismo
    "a palavra N...".
  43. Mesmo essa decisão foi complicada.
  44. Eu ainda não tinha estabilidade
  45. e preocupava-me
    que colegas experientes pensassem
  46. que, por usar este termo,
    eu não fosse uma académica séria.
  47. Mas dizer a palavra ainda era pior.
  48. O incidente na sala de aula forçou-me
    a lidar publicamente com a palavra.

  49. A história, a violência,
  50. mas também...
  51. A história, a violência, mas também
    sempre que me fora dirigida,
  52. dita casualmente na minha frente,
  53. todas as vezes que estava
    na ponta da língua de alguém,
  54. tudo veio à tona naquele momento,
  55. em frente dos meus alunos.
  56. E eu não fazia ideia do que fazer.
  57. Então comecei a chamar às histórias
    como a minha "pontos de encontro".

  58. Um ponto de encontro é o momento em que
    se está cara a cara com a palavra N...
  59. Se vocês já se se sentiram
    perturbados ou provocados pela palavra,
  60. seja numa situação social embaraçosa,
  61. numa conversa académica desconfortável,
  62. algo que ouviram na cultura pop,
  63. ou se foram insultados,
  64. ou testemunharam alguém a ser insultado,
  65. viveram um ponto de encontro.
  66. Consoante quem vocês são
    e como acontece esse momento,
  67. podem ter uma série de reações.
  68. Podem ficar um pouco confusos,
  69. ou ser incrivelmente
    doloroso e humilhante.
  70. Eu tive muitos desses pontos de encontro
    na minha vida,
  71. mas uma coisa é certa.
  72. Não há muito espaço para falar deles.
  73. Aquele dia na minha sala de aula
    foi praticamente como todas as vezes

  74. em que me deparei
    com a palavra N...
  75. Fiquei paralisada.
  76. Porque é difícil falar
    sobre a palavra N...
  77. Parte da razão por que é
    tão difícil falar sobre ela,
  78. é que normalmente
    só é discutida de uma forma,
  79. como figura de linguagem,
    ouvimos muito isso, não é?
  80. É só uma palavra.
  81. A grande questão que gira
    pelas redes sociais
  82. é quem pode dizê-la ou não.
  83. O intelectual negro Ta-Nehisi Coates
    faz um trabalho exemplar
  84. defendendo o uso da palavra
    pelos afro-americanos.
  85. Em contrapartida, Wendy Kaminer,
  86. defensora branca
    da liberdade de expressão,
  87. argumenta que,
    se todos nós não a dissermos,
  88. daremos poder à palavra.
  89. E muita gente concorda com ela.
  90. O Pew Center entrou
    recentemente no debate.
  91. Numa pesquisa chamada
    "Race in America 2019",
  92. investigadores perguntaram
    a adultos dos EUA se achavam bem
  93. uma pessoa branca
    dizer a palavra N...
  94. 70% de todos os adultos inquiridos
    disseram: "Nunca".
  95. Estes debates são importantes.

  96. Mas eles acabam
    ofuscando uma outra coisa.
  97. Impedem-nos de debater a questão real
  98. Que a palavra N...
    não é só uma palavra.
  99. Não está contida
    num passado racista,
  100. não é uma relíquia da escravatura.
  101. Basicamente, a palavra N... é uma ideia
  102. disfarçada de palavra:
  103. que os negros são intelectualmente,
  104. biologicamente
  105. e imutavelmente inferiores aos brancos.
  106. E acho que essa
    é a parte mais importante,
  107. que essa inferioridade significa
    que a injustiça que sofremos
  108. e a desigualdade que enfrentamos
  109. é essencialmente nossa culpa.
  110. Então, sim, é...
  111. Falar da palavra
    apenas como uma ofensa racista
  112. ou uma obscenidade na música hip hop,

  113. faz com que pareça um tumor
  114. nas cordas vocais americanas
  115. que pode ser facilmente removido.
  116. Não é. E não pode.
  117. E eu aprendi isso
    conversando com os meus alunos.
  118. Então, na aula seguinte,
  119. eu pedi desculpa,

  120. e fiz um anúncio.
  121. Eu ia estipular uma nova regra.
  122. Os alunos passavam a ver a palavra
    nos meus PowerPoints,
  123. em filmes, em estudos que lessem,
  124. mas nunca diríamos a palavra
    em voz alta na sala de aula.
  125. Nunca mais ninguém a disse.
  126. Mas também não aprenderam muito.
  127. No fim, o que mais me incomodou
  128. foi que eu nem sequer expliquei aos alunos
  129. porque é que, entre todas as palavras
    problemáticas no inglês americano,
  130. porque é que esta palavra em particular
    tinha o seu próprio escudo,
  131. a expressão alternativa
    "a palavra N...".
  132. A maioria dos meus alunos,
  133. muitos deles nasceram
    no final dos anos 90 ou depois,

  134. nem sabiam que a expressão,
    a palavra N...
  135. é uma invenção relativamente nova
    no inglês americano.
  136. Na minha juventude ela não existia.
  137. Mas no final dos anos 80,
  138. os estudantes universitários,
    os escritores e os intelectuais negros,
  139. começaram cada vez mais a falar
    dos ataques racistas que sofriam.
  140. Mas, gradualmente,
    ao contar estas histórias,
  141. deixaram de usar a palavra.
  142. Em vez dela, reduziram-na para a inicial N
  143. e chamaram-lhe "a palavra N...".
  144. Eles sentiam que,
    sempre que se dizia a palavra,
  145. abriam-se velhas feridas,
    e recusaram-se a dizê-la.
  146. Eles sabiam que o público
    ouviria a palavra na sua cabeça.
  147. O problema não era esse.
  148. A questão é que eles não queriam
    colocar a palavra na sua boca,
  149. nem no ar.
  150. Ao fazerem isso,
  151. fizeram com que toda uma nação
    começasse a autocriticar-se
  152. por dizer isso.
  153. Foi uma jogada tão radical
  154. que as pessoas ainda
    estão zangadas com isso.
  155. Os críticos acusam aqueles que usam
    o termo "a palavra N...",
  156. ou as pessoas ficam indignadas
  157. só por a palavra ser dita,
  158. de sermos radicais,
  159. politicamente corretos
  160. ou, como eu li há umas semanas
    no The New York Times,
  161. "insuportavelmente conscientes".
  162. Certo?
  163. Então eu também entrei nesta causa,
  164. por isso, na aula seguinte

  165. eu propus um debate
    sobre liberdade de expressão.
  166. A palavra N... em espaços académicos:
  167. A favor ou contra?
  168. Eu estava convencida
    de que os alunos estariam ávidos
  169. para discutir
    quem pode ou não usar a palavra.
  170. Mas não estavam.
  171. Pelo contrário,
  172. os meus alunos começaram a confessar-se.
  173. Uma aluna branca de Nova Jersey
    falou sobre ter presenciado
  174. uma criança negra da sua escola
    a ser insultada por essa palavra.
  175. Ela não fizera nada,
    e, anos depois, ainda carregava a culpa.
  176. Outra, de Connecticut,
  177. falou sobre a dor de romper
  178. uma relação muito próxima
    com um membro da família,
  179. porque ele se recusava
    a deixar de usar a palavra.
  180. Uma das histórias mais memoráveis
    veio de uma aluna negra muito sossegada
  181. da Carolina do Sul.

  182. Ela não entendia todo aquele alvoroço.
  183. Disse que todos na sua escola
    diziam a palavra.
  184. Ela não estava a falar de crianças
    a chamarem nomes no corredor.
  185. Explicou que, na sua escola,
  186. quando professores e funcionários
  187. ficavam aborrecidos com
    um aluno afro-americano,
  188. eles insultavam-no com a palavra N....
  189. Ela disse que isso
    não a incomodava nem um pouco.
  190. Mas uns dias depois,
  191. ela veio procurar-me durante o expediente
    e começou a chorar.
  192. Ela achava que estava imune
  193. mas percebeu que não estava.
  194. Nos últimos 10 anos,
  195. eu ouvi centenas destas histórias

  196. de todos os tipos de pessoas,
    de todas as idades.
  197. Pessoas nos seus 50 anos
    lembrando histórias do 2.º ano
  198. e de quando tinham seis anos,
  199. por ofenderem alguém com a palavra
    ou serem ofendidos com essa palavra,
  200. mas carregando o peso dessa palavra
    durante todos esses anos.
  201. Ao ouvir as pessoas falarem
    sobre os seus pontos de encontro,
  202. o padrão que vi surgir e que,
    como professora, achei o mais inquietante
  203. é que o lugar mais frágil
  204. para esses pontos de encontro
  205. é a sala de aula.
  206. A maioria das crianças americanas
    vai conhecer a palavra N... na aula.
  207. Um dos livros mais usados
    nas escolas dos EUA

  208. é "As Aventuras de Huckleberry Finn",
    de Mark Twain
  209. onde a palavra aparece mais de 200 vezes.
  210. E não é uma acusação a "Huck Finn".
  211. A palavra está em muita da literatura
    e da história dos EUA.
  212. Está em toda a literatura afro-americana.
  213. Contudo, eu ouço aos alunos
  214. que, quando a palavra é dita
    numa aula,
  215. sem diálogo e sem contexto,
  216. envenena todo o ambiente da classe.
  217. Quebra-se a confiança
    entre aluno e professor.
  218. Mesmo assim, muitos professores,
  219. geralmente com a melhor das intenções,
  220. ainda dizem a palavra N... na aula.
  221. Querem mostrar e realçar
    os horrores do racismo nos EUA,
  222. e, por isso, usam-na
    para provocar um choque.
  223. Evocá-la coloca em evidência
  224. a monstruosidade do passado
    da nossa nação.
  225. Mas eles esquecem.
  226. As ideias estão bem vivas
    no nosso tecido cultural.
  227. A palavra de seis letras é como
    uma cápsula de dor acumulada.
  228. Todas as vezes que é dita,
    todas as vezes,

  229. lança na atmosfera a odiosa noção
  230. de que as pessoas negras são inferiores.
  231. Os meus alunos negros dizem-me
  232. que, quando a palavra
    é citada ou dita na aula,
  233. eles sentem como se
    um holofote gigante incidisse neles.
  234. Um dos meus alunos disse-me
  235. que os seus colegas pareciam
    bonecos cabeçudos,
  236. virando-se para avaliar a reação dele.
  237. Um aluno branco disse-me
    que, no 8.º ano,
  238. quando estavam a estudar
    "Por Favor, Não Matem a Cotovia"
  239. e ao lê-lo em voz alta na aula,
  240. um aluno estava tão nervoso
  241. com a ideia de ter de ler a palavra,
  242. — que o professor insistiu
    que todos os alunos fizessem —
  243. que acabou por passar
    a maior pare do tempo
  244. a esconder-se na casa de banho.
  245. Isto é grave.
  246. Alunos por todo o país

  247. falam de trocar de mestrado
    e de desistir das aulas
  248. por causa de um ensino deficiente
    da palavra N....
  249. A questão de o corpo docente
    dizer negligentemente a palavra
  250. chegou a tal nível
  251. que gerou protestos em Princeton, Emory,
  252. A New School,
  253. o Smith College, onde eu leciono,
  254. e o Williams College,
  255. onde, recentemente, os alunos boicotaram
    todo o departamento de inglês
  256. por esta e outras questões.
  257. Estes foram só os casos
    que apareceram nas notícias.
  258. Isto é uma crise.
  259. Enquanto a reação dos alunos
  260. parecer um ataque
    à liberdade de expressão,
  261. eu garanto que isso
    é um problema de ensino.
  262. Os meus alunos não têm medo
    de materiais que contêm a palavra N....
  263. Eles querem conhecer James Baldwin

  264. e William Faulkner
  265. e o Movimento dos Direitos Civis.
  266. Na verdade, as histórias deles mostram
  267. que esta palavra é um elemento central
    da vida deles enquanto jovens, nos EUA.
  268. Está na música que adoram.
  269. E na cultura popular que imitam,
  270. na comédia a que assistem,
  271. na TV e nos filmes,
  272. está imortalizada nos museus.
  273. Eles ouvem-na nos vestiários,
  274. no Instagram,
  275. nos corredores da escola,
  276. nas salas de conversa
    dos videojogos que jogam.
  277. Está por todo o universo
    em que navegam.
  278. Mas não sabem como pensar nisso
  279. nem sequer o que a palavra significa.
  280. Eu nem sequer entendia o seu significado
  281. até fazer algumas pesquisas.

  282. E fiquei admirada ao saber
  283. que os negros incorporaram inicialmente
    a palavra N... no seu vocabulário
  284. como um protesto político,
  285. não nos anos 70 ou 80,
  286. mas por volta dos anos 70 do século XVIII.
  287. Gostava de ter mais tempo para falar
  288. na longa e subversiva história
    do uso pelos negros da palavra N....
  289. Mas vou dizer uma coisa:
  290. Muitas vezes os meus alunos
    vêm ter comigo e dizem:
  291. "Eu entendo as raízes virulentas
    desta palavra, é a escravatura."
  292. Eles estão certos apenas parcialmente.
  293. Essa palavra, que já existia
    antes de se tornar um insulto,
  294. torna-se ofensiva num momento
    muito distinto na história dos EUA,
  295. que é quando muitos negros
    começam a tornar-se livres,
  296. a começar pelo Norte, na década de 1820.
  297. Por outras palavras,
  298. esta palavra é fundamentalmente
    um ataque à liberdade negra,
  299. à mobilidade negra,
  300. e às aspirações dos negros.
  301. E mesmo agora,
  302. nada desencadeia tão depressa
    um discurso sobre a palavra N...

  303. como um negro que afirma os seus direitos
  304. ou que vai onde quer, ou prospera.
  305. Pensem nos ataques a Colin Kaepernick
    quando ele se ajoelhou,
  306. ou a Barack Obama
    quando ele se tornou presidente.
  307. Os meus alunos querem
    conhecer essa história.
  308. Mas quando fazem perguntas
    mandam-nos calar e humilham-nos.
  309. Ao fugirmos da discussão
    sobre a palavra N...,
  310. transformamo-la no derradeiro tabu,
  311. fazendo dela uma coisa
    tão atormentadora
  312. que, para todas as crianças americanas,
  313. seja qual for seu histórico étnico,
  314. parte do seu crescimento
    é tentar entender
  315. como contornar essa palavra.
  316. Tratamos as conversas sobre ela
    como o sexo antes da educação sexual.
  317. Somos reticentes, não os deixamos falar.
  318. Então, eles aprendem-na com os amigos
    mal informados e em segredinhos.
  319. Eu gostaria de poder voltar
    à sala de aula naquele dia
  320. e passar por cima do meu medo

  321. para falar sobre o facto de que
    algo realmente aconteceu.
  322. Não só a mim ou aos meus alunos negros.
  323. Mas a todos nós.
  324. Sabem,
  325. eu acho que estamos
    todos interligados
  326. pela nossa incapacidade
    de falar nessa palavra.
  327. Mas, e se explorássemos
    os nossos pontos de encontro
  328. e começássemos a falar sobre isso?
  329. Hoje eu tento criar condições
    na sala de aula
  330. para ter uma conversa
    aberta e honesta sobre isto.

  331. Uma dessas condições:
    não dizer a palavra.
  332. Podemos falar sobre ela,
  333. porque ela não aparece na sala de aula.
  334. Outra condição importante
  335. é que eu não torno responsáveis
    os meus alunos negros
  336. por a ensinarem aos seus colegas.
  337. Este é o meu trabalho.
  338. Então eu venho preparada.
  339. Eu levo a conversa com rigor,
  340. e estou munida
    de conhecimentos históricos.
  341. Eu faço sempre
    as mesmas perguntas aos alunos:
  342. Porque é que é difícil falar
    sobre a palavra N...?
  343. As respostas deles são incríveis.
  344. São incríveis.
  345. Mas, acima de tudo,
  346. eu assimilei profundamente
    os meus pontos de encontro,
  347. a minha história pessoal
    em torno desta palavra.
  348. Porque quando a palavra N...
    entra na escola
  349. ou em qualquer outro lugar,
  350. leva consigo toda a complicada
    história do racismo nos EUA.
  351. A história da nação
  352. e a minha história,
  353. aqui e agora.
  354. Não há como evitar isso.
  355. (Aplausos)