Portuguese, Brazilian subtítols

← Por que é tão difícil falar sobre "a palavra com N"

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27 llengües

Showing Revision 10 created 08/02/2020 by Claudia Sander.

  1. Quando ela mencionou a palavra,
  2. o silêncio na sala de aula
    foi ensurdecedor.
  3. Normalmente meus alunos
    ficam supervidrados em mim,
  4. mas se viraram e olharam pro outro lado.
  5. Eu sou negra

  6. e dou aulas sobre o racismo
    e a escravidão nos EUA.
  7. Sei que minha identidade social
    está sempre em evidência.
  8. Meu alunos também são vulneráveis,
    então sou cautelosa.
  9. Tento prever que parte da minha aula
    pode acabar sendo problemática.
  10. Mas, sinceramente,
    essa eu não pude prever.
  11. Minha pós-graduação
    não me preparou pra saber o que fazer
  12. quando essa palavra surgisse
    em minha aula.
  13. Era meu primeiro ano dando aula

  14. quando a aluna disse
    essa palavra durante a aula.
  15. Ela não estava xingando ninguém.
  16. Estava empolgada e com brilho nos olhos.
  17. Ela vinha para as aulas
    com suas leituras feitas,
  18. sentava-se na primeira fileira
  19. e sempre estava no meu grupo.
  20. Quando disse a palavra,
  21. ela estava fazendo um comentário
    sobre minha aula,
  22. usando uma citação
    de um filme de comédia dos anos 1970
  23. que tinha dois xingamentos racistas:
  24. um sobre pessoas de descendência chinesa
  25. e outro com a palavra com N.
  26. Assim que ela disse aquilo,
    levantei as mãos e disse: "Epa, epa".
  27. Mas ela me garantiu:
    "É uma piada do filme 'Banzé no Oeste'",
  28. e repetiu a piada.
  29. Isso aconteceu dez anos atrás,

  30. e a forma como lidei com isso
    me incomodou por muito tempo.
  31. Não era a primeira vez
    que eu pensava sobre a palavra
  32. num ambiente acadêmico.
  33. Sou professora de história dos EUA.
  34. Ela está em muitos dos textos que ensino.
  35. Então, tive que fazer uma escolha.
  36. Depois de falar com alguém de confiança,
  37. decidi nunca repeti-la,
  38. nem mesmo em citações.
  39. Em vez disso, decidi usar
    o eufemismo "a palavra com N".
  40. Até mesmo essa decisão foi complicada.
  41. Eu ainda não tinha estabilidade
  42. e temia que colegas mais antigos pensassem
  43. que, por usar o eufemismo,
    eu não fosse uma professora séria.
  44. Mas dizer a palavra de fato
    me parecia ainda pior.
  45. O incidente em minha aula me forçou
    a publicamente lidar com a palavra,

  46. a história, a violência,
  47. mas também...
  48. a história, a violência, mas também
    sempre que a direcionaram a mim,
  49. ou a falaram na minha presença,
  50. ou sempre que ela parou
    na ponta da língua de alguém,
  51. eu voltava imediatamente àquele dia,
  52. bem diante dos meus alunos,
  53. e não sabia o que fazer.
  54. Então, passei a chamar histórias
    como a minha de "experiências".

  55. Uma experiência descreve o momento
  56. em que você teve que encarar
    a palavra com N.
  57. Se você já se sentiu perplexo
    ou provocado pela palavra,
  58. seja como resultado
    de uma situação social embaraçosa,
  59. uma conversa acadêmica desconfortável,
  60. algo que tenha ouvido na cultura popular,
  61. ou se você já foi chamado disso
  62. ou presenciou alguém ser chamado disso,
  63. você teve uma experiência.
  64. Dependendo de quem você seja
    e como esse momento acontece,
  65. você pode ter uma série
    de reações diferentes.
  66. Você pode ficar um pouco confuso,
  67. ou se sentir incrivelmente
    magoado e humilhado.
  68. Já tive várias dessas
    experiências em minha vida,
  69. mas uma coisa é verdade:
  70. não há muito espaço
    para se falar sobre eles.
  71. Aquele dia na minha aula
    foi bem parecido com todas as vezes

  72. em que tive uma discussão indesejada
    com a palavra com N:
  73. eu congelei.
  74. É difícil falar sobre a palavra com N.
  75. Uma das razões de ser tão difícil
    falar sobre a palavra com N
  76. é que normalmente só se fala
    sobre ela de uma forma,
  77. como figura de linguagem.
  78. Ouvimos isso o tempo todo, não?
    "É só uma palavra".
  79. A grande pergunta
    que circula pelas redes sociais
  80. é quem pode ou não pode dizê-la.
  81. O intelectual negro Ta-Nehisi Coates
    faz um trabalho inovador
  82. na defesa do uso da palavra
    pelos afro-estadunidenses.
  83. Por outro lado, Wendy Kaminer,
  84. defensor da liberdade
    de expressão dos brancos,
  85. afirma que, se todos
    simplesmente não a dissermos,
  86. estaremos dando poder à palavra.
  87. E muita gente acha o mesmo.
  88. O Pew Center recentemente
    entrou nesse debate.
  89. Numa pesquisa chamada
    "Racismo nos EUA 2019",
  90. os pesquisadores perguntaram
    a adultos estadunidenses se achavam normal
  91. uma pessoa branca dizer a palavra com N.
  92. Setenta por cento de todos
    os adultos disse: "Jamais".
  93. Esses debates são importantes,

  94. mas eles na verdade ofuscam outra coisa:
  95. eles nos impedem de chegarmos
    ao cerne da questão,
  96. que é o fato de que a palavra
    com N não é só uma palavra.
  97. Ela não deriva exatamente
    de um passado racista,
  98. como uma lembrança da escravidão.
  99. Na realidade, a palavra com N
    é uma ideia disfarçada de palavra:
  100. a de que os negros são intelectualmente,
  101. biologicamente
  102. e imutavelmente inferiores aos brancos.
  103. Eu acredito - e essa é
    a parte mais importante -
  104. que essa inferioridade significa dizer
    que a injustiça que sofremos
  105. e a desigualdade que vivemos
  106. seria basicamente culpa nossa.
  107. Então, pois é...
  108. Falar da palavra apenas
    como um xingamento racista

  109. ou como algo obsceno no hip hop
  110. faz parecer como se fosse uma doença
  111. nas cordas vocais estadunidenses
  112. que pode ser simplesmente arrancada.
  113. Não é, não pode ser.
  114. Aprendi isso falando com meus alunos.
  115. Então, na aula seguinte,

  116. pedi desculpas
  117. e fiz um pronunciamento.
  118. Eu adotaria uma nova postura.
  119. Os alunos veriam a palavra
    nos meus eslaides,
  120. nos filmes, nos textos que lessem,
  121. mas jamais diríamos
    a palavra na sala de aula.
  122. Ninguém jamais a pronunciou de novo,
  123. mas também não aprenderam muita coisa.
  124. Depois, o que mais me incomodava
  125. era que eu sequer
    havia explicado aos alunos
  126. por que, de todas as palavras vãs
    e problemáticas da língua inglesa,
  127. essa palavra em particular
    tinha tratamento especial,
  128. o termo substituto "a palavra com N".
  129. A maioria dos meus alunos,

  130. dos quais a maior parte nascera
    a partir do fim da década de 1990,
  131. sequer sabia que o termo "a palavra com N"
    é relativamente recente na língua inglesa.
  132. Na minha infância, ele não existia.
  133. Mas, no fim dos anos 1980,
  134. alunos universitários, escritores
    e intelectuais negros
  135. cada vez mais começaram a falar
    sobre os ataques racistas que sofriam.
  136. Conforme falavam dessas histórias,
  137. foram cada vez mais
    deixando de usar a palavra.
  138. Passaram a reduzi-la a apenas "N",
  139. e passaram a usar o termo
    "a palavra com N".
  140. Sentiam que, sempre
    que a palavra era pronunciada,
  141. abria velhas feridas
    e, portanto, se recusavam a dizê-la.
  142. Sabiam que quem os escutasse
    ouviria a palavra real em sua mente.
  143. Mas a questão não era essa.
  144. A questão é que não queriam
    a palavra em sua própria boca
  145. ou ressoando no ar.
  146. Fazendo isso,
  147. fizeram o país inteiro
    começar a hesitar em dizê-la.
  148. Foi uma decisão tão radical
  149. que as pessoas ainda se chateiam com isso.
  150. Críticos acusam aqueles que usam
    o termo "a palavra com N"
  151. ou pessoas que ficam indignadas
    só por a palavra ser dita
  152. de serem sistemáticos demais,
  153. politicamente corretos
  154. ou, como li há algumas semanas
    no The New York Times,
  155. "insuportavelmente conscientes".
  156. Pois é.
  157. Então, eu também acreditei
    um tanto nessa ideia,

  158. razão pela qual, quando dei
    aquela aula novamente,
  159. propus um debate
    sobre liberdade de expressão:
  160. "Você é a favor ou contra
    a palavra com N no meio acadêmico?"
  161. Eu tinha certeza de que os alunos
    se interessariam em debater
  162. sobre quem pode ou não pode dizê-la.
  163. Mas não foi assim.
  164. Na verdade,
  165. meus alunos começaram a confessar.
  166. Uma aluna branca de Nova Jersey
    falou sobre não ter feito nada
  167. enquanto um aluno negro em sua escola
    sofria bullying com essa palavra.
  168. Ela não fez nada e, anos depois,
    ainda carregava aquela culpa.
  169. Outro aluno de Connecticut
  170. falou sobre a dor de romper
    uma relação muito próxima com um familiar
  171. porque esse familiar se recusava
    a parar de usar essa palavra.
  172. Uma das históricas mais marcantes
    veio de uma aluna negra muito reservada

  173. da Carolina do Sul.
  174. Ela não entendia por que tanta polêmica.
  175. Ela contou que todos
    em sua escola diziam a palavra.
  176. Ela não se referia a alunos xingando
    uns aos outros nos corredores.
  177. Ela explicou que, em sua escola,
  178. quando professores e diretores
    se aborreciam com um aluno negro,
  179. eles chamavam esse aluno
    usando a palavra com N.
  180. Ele disse que isso
    não a incomodava nem um pouco.
  181. Mas, alguns dias depois,
  182. ela me procurou
    durante o intervalo e chorou.
  183. Ela achava que estava imune.
  184. Mas percebeu que não estava.
  185. Nos últimos dez anos,

  186. ouvi literalmente centenas
    de histórias como essas
  187. de todos os tipos de pessoas,
    de todas as idades;
  188. pessoas na casa dos 50 se lembrando
    de histórias da segunda série
  189. e, quando tinham 6 anos,
  190. ou chamavam ou eram chamados
    pela palavra com N,
  191. mas carregavam isso
    por todos esses anos, sabe.
  192. Enquanto eu ouvia pessoas
    falarem sobre suas experiências,
  193. o padrão que percebi como professora
    e que achei mais perturbador
  194. é que o lugar mais complicado
    para essas experiências
  195. é a sala de aula.
  196. A maioria dos jovens estadunidenses
    ouvir a palavra com N em sala.

  197. Um dos livros mais utilizados
    nas escolas secundárias nos EUA
  198. é o de Mark Twain,
    "As Aventuras de Huckleberry Finn",
  199. no qual a palavra aparece
    mais de 200 vezes.
  200. E isso não é uma denúncia
    contra "Huck Finn", especificamente.
  201. A palavra aparece em muito
    da literatura e da história estadunidense.
  202. Está em toda a literatura
    afro-estadunidense.
  203. Mas eu ouço alunos dizerem
  204. que, quando a palavra
    é dita durante uma aula
  205. sem um debate e sem contexto,
  206. ela envenena todo
    o ambiente da sala de aula,
  207. e a confiança entre professor
    e alunos se quebra.
  208. Mesmo assim,
  209. muitos professores,
    geralmente com a melhor das intenções,
  210. ainda dizem a palavra com N em sala.
  211. Eles querem mostrar e enfatizar
    os horrores do racismo nos EUA,
  212. e usam a palavra para causar impacto,
  213. pois mencioná-la escancara o horror
    do passado da nossa nação.
  214. Mas eles se esquecem
  215. de que as ideias continuam latentes
    em nosso tecido cultural.
  216. A palavra de seis letras
    é como uma cápsula de dor acumulada.

  217. Toda vez em que ela é dita, sempre,
  218. libera-se no ambiente a ideia odiosa
  219. de que os negros são inferiores.
  220. Meus alunos negros me dizem
  221. que, quando a palavra é citada
    ou dita em sala,
  222. eles sentem como se estivessem
    sob um enorme holofote.
  223. Um dos meus alunos me contou
  224. que seus colegas eram como
    ventiladores de pé,
  225. virando-se pra avaliar a reação dele.
  226. Um aluno branco me disse
    que, na oitava série,
  227. quando a turma estava estudando
    "O Sol é para Todos"
  228. e lendo-o em voz alta na aula,
  229. ele ficou tão estressado
    com o fato de ter que ler a palavra,
  230. já que o professor insistia
    que todos os alunos o fizessem,
  231. que ele acabou passando
    a maior parte da aula
  232. se escondendo no banheiro.
  233. Isso é grave.

  234. Alunos em todo o país
  235. pensam em mudar de curso
    ou abandonar disciplinas
  236. por causa de abordagens equivocadas
    em torno da palavra com N.
  237. O problema de professores
    falarem a palavra indiscriminadamente
  238. chegou a um ponto tão crítico
  239. que levou a protestos em Princeton, Emory,
  240. na The New School,
  241. na Smith College, onde leciono,
  242. e na Williams College,
  243. onde recentemente alunos boicotaram
    todo o Departamento de Língua Inglesa
  244. por causa desse e de outros problemas.
  245. E esses são apenas os exemplos
    que viraram notícia.
  246. Trata-se de uma crise.
  247. Embora a reação estudantil
    pareça um ataque à liberdade de expressão,
  248. garanto a vocês que se trata
    de um problema no ensino.
  249. Meus alunos não têm medo
    de materiais que contenham a palavra.

  250. Eles querem estudar James Baldwin,
  251. William Faulkner
  252. e sobre o movimento dos direitos civis.
  253. Na verdade, suas histórias mostram
  254. que essa palavra é um elemento central
    de suas vidas enquanto jovens nos EUA.
  255. Está na música que curtem,
  256. na cultura popular que reproduzem,
  257. na comédia a que assistem,
  258. na TV e nos filmes,
  259. eternizada nos museus.
  260. Eles a ouvem nos vestiários da escola,
  261. no Instagram,
  262. nos corredores da escola,
  263. nas salas de bate-papo de jogos online.
  264. Está em toda parte de suas vidas.
  265. Mas eles não sabem refletir sobre ela,
    nem sequer o que ela significa.
  266. Nem eu entendia o significado da palavra,
    até pesquisar sobre ela.

  267. Fiquei chocada ao descobrir
  268. que a palavra foi incorporada
    ao vocabulário pelos negros
  269. como forma de protesto político
  270. não na década de 1970 ou 1980,
  271. mas já nos anos 1770.
  272. E eu gostaria de ter mais tempo pra falar
  273. sobre a longa e subversiva história
    do uso da palavra por parte dos negros.
  274. Mas vou dizer o seguinte:
  275. muitas vezes, meus alunos
    me procuram e dizem:
  276. "Entendo a origem horrenda
    dessa palavra, e é a escravidão".
  277. Eles estão certos, em parte.
  278. Essa palavra já existia
    antes de ser usada como xingamento,
  279. mas se tornou xingamento num momento
    bem distinto da história dos EUA,
  280. quando muitos negros
    começaram a se tornar livres,
  281. começando pelo norte dos EUA,
    na década de 1820.
  282. Em outras palavras,
  283. essa palavra é basicamente
    uma agressão à liberdade negra,
  284. à mobilidade negra
  285. e à aspiração negra.
  286. Até hoje,

  287. nada desencadeia tão rapidamente
    o discurso da palavra com N
  288. quanto uma pessoa negra
    que afirma seus direitos,
  289. ou que tem liberdade de ir e vir
    ou de ser próspera.
  290. Pensem nos ataques contra
    Colin Kaepernick, quando ele se ajoelhou,
  291. ou contra Barack Obama,
    quando se tornou presidente.
  292. Meus alunos querem conhecer essa história.
  293. Mas, quando fazem perguntas,
    são repreendidos e aviltados.
  294. Ao evitarmos falar sobre a palavra com N
  295. tornamos essa palavra um grande tabu,
  296. transformando-a em algo tão atormentante
  297. que, para todos os jovens estadunidenses,
    seja qual for sua origem racial,
  298. parte de se tornarem adultos tem a ver
    com como lidar com essa palavra.
  299. Tratamos conversas sobre ela
    como o sexo antes da educação sexual.
  300. Somos melindrosos, nós os silenciamos.
  301. Então, eles aprendem sobre ela
    com amigos desinformados e boatos.
  302. Queria pode voltar àquela aula aquele dia,

  303. enfrentar meu medo
  304. e falar sobre o fato
    de que algo realmente aconteceu,
  305. não só comigo e meus alunos negros,
  306. mas com todos nós.
  307. Sabe, eu acho
  308. que estamos todos conectados por nossa
    incapacidade de falar sobre a palavra,
  309. mas e se explorássemos nossas experiências
  310. e realmente começássemos
    a falar sobre ela?
  311. Hoje, tento criar condições
    em minhas aulas

  312. para que ocorram debates
    abertos e francos sobre ela.
  313. Uma dessas condições
    é não mencionar a palavra.
  314. Conseguimos falar sobre ela justamente
    porque ela não é mencionada em sala.
  315. Outra condição importante
  316. é que não transfiro aos meus alunos negros
  317. a responsabilidade de ensinar
    a seus colegas sobre ela.
  318. Essa função é minha.
  319. Então, eu vou preparada para a aula,
  320. mantenho o debate sob rédeas curtas,
  321. e vou armada com
    o conhecimento da história.
  322. Sempre faço a mesma pergunta aos alunos:
  323. "Por que é difícil falar
    sobre a palavra com N?"
  324. As respostas são impressionantes.
  325. Impressionantes.
  326. Porém, mais do que qualquer outra coisa,
  327. passei a ser profundamente consciente
    das minhas próprias experiências,
  328. da minha história pessoal
    com essa palavra,
  329. porque, quando a palavra
    com N entra na escola,
  330. ou em qualquer outro lugar,
  331. ela traz consigo toda a complexidade
    da história do racismo nos EUA.
  332. A história da nação
  333. e a minha própria história,
  334. aqui, agora,
  335. não há como ignorá-las.
  336. (Aplausos)