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Showing Revision 6 created 06/18/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Cheguei aos EUA no verão de 1968,
    vinda de Kingston, na Jamaica.
  2. A minha família apertou-se num pequeno
    apartamento de dois quartos,
  3. num prédio de três andares em Brooklyn.
  4. Havia muitas crianças no quarteirão
  5. umas falavam espanhol,
    outras falavam inglês.
  6. No começo, não me deixavam
    brincar com eles.
  7. Pois, como diziam os meus pais:
    eles eram muito indisciplinados.
  8. (Risos)

  9. Então, só conseguia olhá-los da janela.

  10. Patinar era uma
    das atividades favoritas deles.
  11. Adoravam viajar de boleia
    agarrados à traseira do autocarro,
  12. e só largavam o para-choques traseiro
  13. quando o autocarro chegava
    ao fim do quarteirão
  14. em frente do meu prédio.
  15. Um dia, apareceu
    uma rapariga nova com eles.
  16. Eu ouvia os habituais risinhos,
    intercalados com "Mira, mira!
  17. "Mira, mira!"
  18. "Olha, olha!" em espanhol.
  19. O grupo agarrou-se à traseira
    do autocarro, no início do quarteirão
  20. e, enquanto desciam e riam e gritavam:
    "Mira, mira, mira, mira"
  21. o autocarro parou bruscamente.
  22. Os patinadores experientes ajustaram-se
    rapidamente e continuaram
  23. mas a rapariga nova desequilibrou-se
    e caiu no chão.
  24. Não se mexeu.
  25. Os adultos na rua correram para a ajudar.

  26. O motorista do autocarro saiu
    para ver o que acontecera
  27. e para chamar uma ambulância.
  28. A cabeça dela estava a escorrer sangue.
  29. Ela não abria os olhos.
  30. Esperámos pela ambulância
  31. e esperámos
  32. e todos diziam: "Onde está a ambulância?
  33. "Onde está a ambulância?"
  34. Finalmente chegou a polícia.
  35. Um afro-americano mais velho disse:
    "Não vem ambulância nenhuma."
  36. Repetiu, bem alto, para o polícia:
  37. "Você sabe que não vem
    ambulância nenhuma.
  38. "Nunca mandam
    nenhuma ambulância para aqui."
  39. O polícia olhou para os meus vizinhos
    que estavam a ficar frustrados,
  40. meteu a rapariga no carro da polícia
  41. e foi-se embora.
  42. Eu tinha 10 anos nessa época.

  43. Eu sabia que aquilo não estava certo.
  44. Sabia que havia algo mais a fazer.
  45. O algo mais que pude fazer
    foi tornar-me médica.
  46. Formei-me em clínica geral
  47. e dediquei a minha carreira
    a cuidar dos mais carenciados,
  48. dos mais vulneráveis
  49. como aqueles vizinhos que tive
    quando imigrei para os EUA.
  50. Nos primeiros anos de formação
    em Harlem nos anos 80,

  51. vi um aumento chocante
    de rapazes com VIH.
  52. Depois, quando me mudei para Miami
  53. percebi que o VIH
    incluía mulheres e crianças
  54. Primeiro, eram só negros
    e mestiços pobres.
  55. Em poucos anos, uma infeção observada
    num grupo selecionado da população
  56. tornou-se uma epidemia mundial.
  57. Novamente, senti o desejo de fazer algo.
  58. Felizmente, com a ajuda de ativistas,
    defensores, educadores
  59. e médicos como eu
    que tratam a doença
  60. encontrámos um caminho.
  61. Houve um esforço educativo maciço
    para reduzir as transmissões por VIH
  62. e proporcionar proteção legal
    para quem tivesse a doença.
  63. Houve a vontade política de garantir
  64. que o maior número
    de pacientes possível, a nível mundial,
  65. independente da capacidade de pagar,
  66. pudesse ter acesso a medicação.
  67. Ao fim de umas décadas,
    apareceram novos tratamentos
  68. que transformaram essa infeção
    mortífera numa doença crónica
  69. como a diabetes.
  70. Agora, há uma vacina no horizonte.
  71. Nos últimos cinco a sete anos

  72. tenho observado uma epidemia diferente
    entre os pacientes na Flórida
  73. mais ou menos assim:
  74. A Sra. Anna Mae, escriturária aposentada,
    que vive duma renda fixa em Opa-locka
  75. veio reabastecer-se de medicamentos.
  76. Tinha problemas crónicos comuns
    de tensão alta e diabetes,
  77. doença cardíaca e asma,
  78. com doença pulmonar obstrutiva crónica
  79. DPOC
  80. A Sra. Mae era uma
    das minhas pacientes mais frequentes
  81. por isso, fiquei admirada por ela precisar
    de repor os remédios respiratórios
  82. mais cedo do que de costume.
  83. No fim da consulta
  84. pediu-me para eu assinar um formulário
    da companhia de eletricidade.
  85. Estava a dever a conta de eletricidade.
  86. Este formulário permite que o médico
    comprove os problemas de saúde graves
  87. dependentes de equipamentos
    que seriam afetados
  88. caso a eletricidade do paciente
    seja cortada.
  89. Eu disse: "Mas Sra. Anne Mae
  90. "a senhora não usa
    nenhum equipamento para respirar.

  91. "Acho que não se enquadra."
  92. Mais perguntas revelaram
    que ela usava o ar condicionado
  93. dia e noite, para conseguir
    respirar no meio do calor.
  94. Ter de comprar mais inaladores
    para a asma, deixara-a com pouco dinheiro
  95. e ela não conseguia pagar as faturas
    que se foram acumulando.
  96. Eu preenchi o formulário
  97. mesmo sabendo
    que ele poderia ser recusado.
  98. Também a enviei à assistente social.
  99. Depois, apareceu o Jorge,
  100. um homem muito amável e carinhoso

  101. que oferecia muitas vezes à clínica
  102. a fruta que vendia nas ruas de Miami.
  103. Apresentava pioras na função renal
  104. sempre que trabalhava um dia inteiro
    naquelas ruas quentes
  105. devido à desidratação
  106. — não chegava sangue suficiente aos rins.
  107. Os rins melhoravam muito
    sempre que ele parava uns dias.
  108. Mas, sem qualquer outro apoio,
    o que é que ele podia fazer?
  109. Como ele dizia: "Faça chuva ou faça sol,
    calor ou frio, tenho de trabalhar."
  110. Mas o caso mais terrível talvez tenha sido
    o da Sra. Sandra Faye Twiggs,
  111. de Fort Lauderdale com doença pulmonar.

  112. Foi presa depois de brigar
    com a filha por causa duma ventoinha.
  113. Quando saiu da prisão,

  114. voltou para o seu apartamento
  115. tossindo sem parar
  116. e morreu três dias depois.
  117. Também reparei no seguinte:
  118. o início da estação das alergias
    começa semanas mais cedo,

  119. as temperaturas noturnas estão a aumentar,
  120. as árvores crescem mais depressa
  121. e os mosquitos que transportam
    doenças perigosas,
  122. como a zika e o dengue
  123. estão a aparecer em áreas
    onde nunca existiram.
  124. Também vejo sinais
    de alteração climática iminente.
  125. É quando gente mais rica
    se muda para bairros mais pobres

  126. situados em áreas mais altas
  127. e menos sujeitos a inundações
    causadas pela alteração climática.
  128. Como ocorreu com a minha paciente
    Mme. Marie que chegou nervosa e ansiosa
  129. por ter sido despejada do seu apartamento
    em Little Haiti, Miami
  130. para dar lugar a um complexo
    de apartamentos de luxo
  131. cujos urbanistas perceberam
    que Little Haiti não inundaria
  132. por estar três metros
    acima do nível do mar.
  133. Está a caminho
    uma tendência de aquecimento
  134. inegável, clara e consistente.
  135. Parece estar em formação uma emergência
    sanitária maior que o VIH/SIDA

  136. e foram os meus pacientes
    de baixos rendimentos
  137. que me foram deixando pistas
    de como viria a ser.
  138. Esta nova epidemia é a alteração climática
  139. e tem vários efeitos sanitários.
  140. A alteração climática tem impacto
    de quatro formas principais.
  141. Diretamente, através do calor,
    do clima extremo e da poluição,
  142. através da difusão de doenças,
  143. através da interferência
    no abastecimento de água e comida
  144. e através da interferência
    no nosso bem estar emocional.
  145. Em medicina usamos
    técnicas de memorização
  146. A mnemónica "heatwave"
    — onda de calor —
  147. mostra os oito efeitos significativos
    da alteração climática na saúde.
  148. H — Há doenças do calor.
  149. E — Exacerbação de problemas
    cardíacos e pulmonares.

  150. A — Asma agravada.

  151. T — Lesões Traumáticas,

  152. devidas a eventos climáticos extremos.

  153. W — Intoxicação alimentar e pela água.
  154. A — Agravamento de alergias.

  155. V— Transmissão Vetorial de doenças
    como a zika, o dengue e a doença de Llyme.

  156. E — Aumento do "stress" Emocional.

  157. As pessoas pobres e vulneráveis já sentem
    os efeitos da alteração climática.

  158. São os canários proverbiais
    na mina de carvão.

  159. As suas experiências
    são como oráculos ou profecias.
  160. A luz que nos leva a prestar atenção
  161. para o facto de estarmos a fazer algo
    ao mundo que os prejudica primeiro.
  162. Mas pouco tempo depois,
    seremos os próximos.
  163. Se atuarmos juntos
  164. — médicos, pacientes
    e outros profissionais da saúde—

  165. encontraremos soluções.
  166. Fizemos isso na crise do VIH.
  167. Graças ao ativismo de pacientes com VIH
  168. que exigiram medicamentos
    e uma investigação melhor
  169. e à colaboração de médicos e cientistas
  170. para podermos controlar a epidemia.
  171. E graças às organizações
    mundiais de saúde,
  172. às ONG, aos políticos
    e às empresas farmacêuticas,
  173. os medicamentos para o VIH
  174. foram disponibilizados
    em países de baixos rendimentos.
  175. Não há razão para não podermos aplicar
    esse modelo de colaboração
  176. para lidar com os efeitos na saúde
    da alteraçã climática,
  177. antes que seja tarde demais.
  178. A alteração climática está entre nós.
  179. Já prejudica a saúde
    e as casas dos pobres.
  180. Como o meu paciente Jorge

  181. a maioria de nós terá de trabalhar,
  182. quer faça chuva ou faça sol,
    esteja frio ou calor.
  183. Mas juntos, esses pacientes
    e os seus médicos, de mãos dadas,
  184. com ferramentas básicas,
  185. podem fazer muito a fim de tornarem
    esta transição climática menos brutal
  186. para todos nós.
  187. Estes pacientes inspiraram-me
    a encontrar organizações médicas
  188. para lutarem contra a alteração climática.
  189. O nosso foco está em compreender
    os efeitos da alteração climática,

  190. aprender a defender os pacientes
    com doenças relacionadas com o clima
  191. e encorajar soluções reais
    a nível mundial.
  192. Um estudo recente da Gallup mostrou que
    três das mais respeitadas profissões
  193. são os enfermeiros, os médicos
    e os farmacêuticos.
  194. Portanto, enquanto membros
    respeitáveis da sociedade

  195. temos de ampliar as nossas vozes
    para influenciar os políticos
  196. e as políticas da mudança do clima.
  197. Há muita coisa que podemos fazer.
  198. Como médicos, os contatos
    com os pacientes
  199. permitem-nos ver as coisas
    antes dos outros.
  200. Isso coloca-nos numa posição ideal
    para estar na linha de frente da mudança.
  201. Podemos ensinar nas escolas médicas
    as doenças relacionadas com o clima.
  202. Podemos reunir dados dos nossos pacientes
    sobre doenças relacionadas com o clima
  203. garantindo a existência
    de protocolos para as identificar.

  204. Podemos fazer investigação sanitária
    relacionada com o clima.
  205. Podemos ensinar como adotar
    práticas ecológicas em casa,
  206. como defender as necessidades
    energéticas dos pacientes.
  207. Podemos ajudá-los a terem
    casas mais seguras,
  208. a obterem os equipamentos
    necessários em casa
  209. quando as condições piorarem.
  210. Podemos transmitir aos legisladores
    as nossas descobertas.
  211. e tratar medicamente os nossos pacientes
    das doenças relacionadas com o clima.
  212. Mais importante, podemos preparar
    os nossos pacientes, física e mentalmente,
  213. para os problemas de saúde
    que vão enfrentar,
  214. usando um modelo de medicina
  215. que incorpore justiça económica e social.
  216. Isto significaria que a Sra. Sandra Faye
    com doença pulmonar
  217. e que morreu depois
    de ser saído da prisão,
  218. após uma briga com a filha
    por causa duma ventoinha,

  219. teria sabido que o calor
    do seu apartamento
  220. a fizera ficar doente e zangada
  221. e procuraria um lugar
    mais seguro para se refrescar.
  222. Ou melhor, o apartamento dela
    nunca devia ser tão quente.
  223. Com os pobres, aprendi que as nossas vidas
    não são só vulneráveis
  224. são também histórias de resiliência,
    de inovação e de sobrevivência.
  225. Como aquele velhote sábio que disse
    alto e bom som a verdade ao polícia,

  226. naquela noite de verão:
  227. "Não vem ambulância nenhuma"
  228. obrigando-o a levar
    a rapariga para o hospital.
  229. Sabem uma coisa?
  230. Escutem.
  231. Se aparecer uma resposta médica
    à alteração climática,

  232. ela não ficará à espera
    duma ambulância.
  233. Vai acontecer, porque nós os médicos
    damos o primeiro passo.
  234. Fazemos tanto barulho
  235. que o assunto não pode ser ignorado
    nem mal entendido.
  236. Começará com as histórias
    que os nossos pacientes contam
  237. e as histórias que contamos
    em defesa deles.
  238. Vamos fazer o que é melhor
    para os nossos pacientes,
  239. como sempre fizemos
  240. mas também o que é melhor
    para o ambiente,
  241. para nós mesmos
  242. e para todas as pessoas neste planeta
  243. para todos eles.
  244. Obrigada.

  245. (Aplausos)