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Portuguese subtítols

← Na crise de opiáceos, isto é o que salva vidas

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19 llengües

Showing Revision 7 created 01/08/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Há 24 anos que trabalho como bombeira
  2. em Huntington, West Virginia.
  3. A nossa tarefa como bombeiros
    é salvar vidas
  4. e bens
  5. em desastres como incêndios,
    acidentes de carro
  6. e também emergências médicas
    com risco de vida.
  7. Sou uma mulher que chefia um departamento
    numa profissão dominada por homens.
  8. E 10 anos atrás,

  9. decidi aumentar
    os meus conhecimentos médicos
  10. e formei-me como enfermeira.
  11. Isso porque tornou-se claro
  12. que a próxima grande ameaça
    não só para minha cidade,
  13. mas também para outras cidades
    pelo país fora,
  14. não era o desastre que acontece uma vez,
  15. onde chegamos como a cavalaria,
    como bombeiros,
  16. extinguimos o fogo e vamos embora,
    sentindo que fazemos a diferença
  17. e que tudo está bem.
  18. O próximo grande desastre na minha cidade
    era e é a calamidade longa, debilitante
  19. e letal conhecida como
    dependência de opiáceos.
  20. Agora chamamos-lhe uma epidemia,
  21. e substituímos o termo "dependência"
    por "transtorno do uso de substâncias".
  22. Para vos dar alguma perspetiva

  23. do quão significativa
    essa epidemia se tornou,
  24. em 2017, no meu condado de 95 000 pessoas,
  25. nós vimos 1831 "overdoses"
  26. e 183 mortes por "overdose".
  27. O trabalho dos meus bombeiros,
    assim como de outros órgãos,
  28. é o de atender a isso.
  29. (Tosse)

  30. Desculpem-me.

  31. Então, assistindo ao aumento
    desta epidemia durante vários anos,
  32. eu cheguei a uma conclusão.
  33. Para este desastre, nós precisamos
    redefinir o nosso trabalho de socorristas.
  34. Precisamos de ser mais
    do que apenas a cavalaria.
  35. Precisamos de fazer mais
    do que apenas salvar uma vida.
  36. Precisamos de encontrar maneiras
    de refazer essa vida.
  37. E será necessário muita gente
    para que isso aconteça.
  38. Isso é exatamente
    o que estamos a tentar fazer
  39. em Huntington, West Virginia.
  40. Vou dar uma ideia do que fazemos.

  41. Primeiro, isto é o que acontece
    quando alguém tem uma "overdose".
  42. Imaginem que são alguém que sofre
    do transtorno cerebral do vício.
  43. Vocês estão frágeis.
  44. Estão constrangidos e envergonhados.
  45. E têm uma "overdose".
  46. Talvez um amigo ou familiar
    ligue para o 112.
  47. E então, de repente,
  48. são acordados por cinco ou seis
    estranhos em uniforme
  49. que estão a massajar o vosso peito,
  50. e a dizer: 'Acorde, acorde!
  51. "Você teve uma 'overdose',
    podia ter morrido!"
  52. Não ficariam na defensiva e nervosos?

  53. Eu sei que eu ficaria.
  54. E além disso,
  55. esses estranhos deram-vos
    uma dose de naloxona,
  56. que vos causaram sintomas de retirada,
  57. mais conhecidos por
    "síndrome de abstinência".
  58. A síndrome de abstinência faz com que
    nos sintamos absolutamente horríveis.
  59. Algumas pessoas dizem que é como
    uma gripe, mas dez vezes pior.
  60. Enjoos, vómitos, diarreia, dores no corpo.
  61. Então, além de nós, estranhos,
    vos termos acordado,
  62. também fizemos com que
    vocês se sintam muito mal.
  63. Vocês — o paciente —
    não vão ser muito amáveis connosco.
  64. E não vão aceitar
    mais tratamento médico.
  65. Por isso, vamos ficar muito frustrados,
  66. e vamos ficar irritados,
  67. porque vocês estão a ser ingratos
    por vos termos salvado a vida.
  68. Esta não é uma boa dinâmica.
  69. Nós estamos lidando aqui
    com um distúrbio cerebral

  70. que muda a forma como vocês pensam.
  71. Estão convencidos que não têm um problema.
  72. Então, essa pode não ser a primeira vez
    que vocês têm uma "overdose",
  73. pode até ser a terceira,
    a quarta ou a quinta vez
  74. que nós mesmos vos ressuscitamos.
  75. E essa não é uma boa situação.
  76. Em segundo lugar,

  77. os socorristas de emergência
    não recebem muita formação
  78. sobre o que é o transtorno
    do uso de substâncias.
  79. Nem a comunidade médica.
  80. Não somos treinados para lidar
    com o transtorno do uso de substâncias.
  81. Eu sou treinada para apagar
    muitos tipos diferentes de incêndios.
  82. Sou treinada para salvar
    uma vida naquele momento.
  83. Mas não sou treinada para lidar
    com a interação complexa
  84. entre socorristas de emergência,
    a comunidade médica,
  85. os serviços sociais e a ampla comunidade,

  86. interação essa que é necessária
    para salvar uma vida a longo prazo.
  87. Em terceiro lugar,

  88. — e essa parte atinge-nos —
  89. como socorrista de emergência,
    eu considero-me a cavalaria.
  90. Nós somos cavaleiros
    de armaduras reluzentes.
  91. Queremos entrar, fazer o nosso trabalho
    e sair satisfeitos
  92. por termos feito a diferença
    na vida de alguém.
  93. Mas isso não acontece
  94. quando estamos a lidar com alguém
    com transtorno do uso de substâncias.
  95. Vamos embora sentindo-nos
    frustrados e inúteis.
  96. Cuidamos das mesmas pessoas
    muitas e muitas vezes,
  97. sem resultados positivos.
  98. E sabem que mais?

  99. A certa altura, percebi que é nossa
    função como socorristas,
  100. e como comunidade,
  101. resolver este problema,
  102. e encontrar maneiras de ajudar
    essas pessoas que estão a sofrer.
  103. Então, comecei a observar mais
    nos casos de "overdose".
  104. Comecei a falar e a ouvir
    os meus pacientes.
  105. Eu queria saber o que os levou
    a chegar onde eles estão.
  106. O que é que eles estão a viver exatamente?
  107. O que é que faz a situação deles piorar?
  108. O que é que faz a situação deles melhorar?
  109. Comecei a experimentar,
    com as minhas palavras
  110. e a prestar atenção às minhas ações
  111. e como isso afetava aqueles pacientes.
  112. A formação que eu tinha recebido
  113. e que continuo a receber
    nas ruas de Huntington,
  114. tem sido ao mesmo tempo reveladora
    e uma mudança na minha vida.
  115. Assim, em Huntington, West Virginia,
    nós unimo-nos como comunidade,

  116. e estamos a mudar a maneira como tratamos
  117. aqueles que sofrem desta terrível doença.
  118. Começámos vários programas,
    e isso está a fazer a diferença.
  119. Vou falar de alguns deles.
  120. No ano passado, começámos
    uma Equipa de Resposta Rápida,

  121. ou ERR, abreviadamente.
  122. Essa equipa é formada por um paramédico,
  123. um agente da polícia,
  124. alguém da comunidade de recuperação
    e alguém da comunidade religiosa.
  125. Como uma equipa, eles saem para visitar
    as pessoas que tiveram uma "overdose"
  126. nas últimas 72 horas após a ressuscitação.
  127. Conversam.
  128. Escutam.
  129. Criam um vínculo com aquele paciente,
  130. e oferecem-lhes opções de tratamento.
  131. Neste momento, cerca de 30%
    ou mais de 30%
  132. daqueles que foram contactados
    pela Equipa de Resposta Rápida
  133. aceitaram alguma forma de ajuda.
  134. E o maravilhoso disso tudo
  135. é que os socorristas de emergência
    envolvidos nesta equipa,
  136. sentem que estão a fazer a diferença,
  137. uma mudança positiva
    onde não havia nenhuma.
  138. (Aplausos)

  139. Este ano abrimos uma clínica
    especializada independente, a PROACT,

  140. para os que sofrem de
    transtorno do uso de substâncias.
  141. É um balcão único, por assim dizer.
  142. O paciente entra
  143. e é imediatamente avaliado por
    especialistas em toxicodependência.
  144. Eles trabalham com pacientes,
    dando-lhes opções de tratamento
  145. baseadas nas suas necessidades,
    necessidades individuais.
  146. Isso ajuda-nos de várias maneiras.
  147. Dá aos socorristas de emergência
    um lugar para levar ou enviar pacientes
  148. que já não estão numa situação
    de risco de vida,
  149. que se recusaram ir a um hospital.
  150. Isso também alivia
  151. as salas de urgência apinhadas
    que temos nos hospitais.
  152. A terceira coisa de que quero falar

  153. é muito importante para mim
    e muito importante para a minha equipa.
  154. Começámos recentemente
  155. um programa de cuidados
    para os socorristas.
  156. Cada vez mais frequentemente
  157. os socorristas estão a sofrer
    de fadiga da compaixão e TEPT.

  158. Não é incomum para qualquer
    bombeiro em Huntigton
  159. lidar ou presenciar
    cinco mortes de jovens por mês.
  160. São amigos deles, são colegas de aulas.
  161. Este programa tão necessário não vai
    apenas reconhecer o trabalho árduo deles,
  162. mas também lhes vai dar voz.
  163. Vai-lhes fornecer formação
  164. que os vai ajudar a lidar com o "stress"
    a que eles estão sujeitos.
  165. E vai dar-lhes mais opções de saúde mental
  166. de que eles necessitam desesperadamente.
  167. Nós agora temos aulas de ioga
    nos quartéis de bombeiros.
  168. (Risos)

  169. (Aplausos)

  170. Também oferecemos massagens
    durante o serviço, o que é incrível.

  171. (Risos)

  172. E começámos alguns programas
    fora de serviço,

  173. como aulas de culinária para
    os socorristas e os seus familiares
  174. e aulas de cerâmica.
  175. Alguns meses atrás,

  176. eu saí do piso dos aparelhos
    onde eu tinha alguns bombeiros.
  177. E metade deles tinha recebido
    uma massagem,
  178. e a outra metade estava
    a preparar-se para uma massagem.
  179. Vi 10 bombeiros que estavam na galhofa,
  180. de um modo muito positivo e descontraído.
  181. Eu nunca tinha visto isso em anos.
  182. Essa descontração está a chegar
    à comunidade, aos cidadãos.
  183. Algumas semanas atrás,
    um vizinho meu teve uma "overdose".

  184. Vinte e dois anos de idade.
  185. Claro que eu corri para lá, para ajudar
    os meus bombeiros e o meu vizinho.
  186. Testemunhei que os meus bombeiros
    estavam a ser solidários,
  187. a conversar sem julgamentos.
  188. Observei um dos meus bombeiros
  189. a mostrar ao pai
    e a outro membro da família
  190. como fazer respiração de salvamento,
    caso isso acontecesse de novo.
  191. E deixou-lhe um ressuscitador manual.
  192. Uma mudança positiva.
  193. Uma mudança positiva.
  194. Eu já mencionei
  195. as duas coisas que os bombeiros
    mais detestam?
  196. A forma como as coisas são e mudam.
  197. (Risos)

  198. Eu reconheço que já houve
    outras epidemias de droga.

  199. E vi o que o "crack"
    pode fazer a uma comunidade.
  200. Muitos dos nossos críticos pensam
  201. que esta nova ação solidária
    que estamos a fazer em Huntington
  202. é por causa da etnia.
  203. Isso porque as "overdoses" estão a ocorrer
    muito na comunidade branca.
  204. Eu entendo essa crítica,
  205. porque nós, como país, errámos.
  206. Tratámos mal os negros
    durante a epidemia de "crack".
  207. Não podemos esquecer isso.
  208. E precisamos fazer melhor que isso.
  209. Mas neste momento, o que eu sei,
    é que há pessoas a morrer.
  210. E nós em Huntington lidamos com pessoas
    com transtorno do uso de substâncias
  211. de todas as cores e de todas as origens,
    nas ruas, todos os dias.
  212. O trabalho do socorrista de emergência
    é evitar mortes desnecessárias.
  213. Ponto final.
  214. Então...
  215. Obviamente, eu sou uma bombeira
    e uma enfermeira teimosa.

  216. E recuso-me a acreditar que não haja
    uma saída para cada barreira.
  217. Uma das barreiras que encontramos
  218. lidando com a epidemia de opiáceos
    é o estigma.
  219. Assim...
  220. Nós em Huntington, West Virginia,
    estamos a mostrar ao resto do país
  221. que pode acontecer uma mudança.
  222. Que existe esperança
    ao lidar com esta epidemia.
  223. As nossas "overdoses", neste momento,
    estão reduzidas em 40%.

  224. (Aplausos)

  225. Neste momento, as nossas mortes
    por "overdose" caíram 50%.

  226. (Aplausos)

  227. Esta epidemia está longe de acabar.

  228. Mas cada um de nós tem um papel
    a desempenhar nesta epidemia.
  229. Apenas ouvindo ou
    sendo gentil com alguém,
  230. somos capazes de
    fazer diferença naquela vida.
  231. Obrigada e Deus vos abençoe.

  232. (Aplausos)