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← O que é preciso para salvar uma vida na crise de opioides

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19 llengües

Showing Revision 22 created 01/12/2019 by Maricene Crus.

  1. Há 24 anos,
  2. trabalho como bombeira
    em Huntington, Virgínia Ocidental.
  3. Nossa tarefa como bombeiros é salvar vidas
  4. e bens
  5. em desastres como acidentes
    de carro, incêndios residenciais
  6. e também emergências médicas
    com risco de vida.
  7. Sou uma mulher que chefia um departamento
    numa profissão dominada por homens.
  8. Há dez anos,

  9. decidi aumentar meus conhecimentos médicos
  10. e formei-me como enfermeira.
  11. Isso ocorreu porque tornou-se claro
  12. que a próxima grande ameaça
    não só para minha cidade,
  13. como também para outras em todo o país,
  14. não era o desastre que acontece uma vez,
  15. quando chegamos como a cavalaria,
    como bombeiros,
  16. apagamos o fogo e vamos embora,
    sentindo que fizemos a diferença
  17. e que está tudo bem.
  18. O próximo grande desastre em minha cidade
  19. continua sendo a extensa, debilitante
  20. e letal dependência de opioides.
  21. Nós a chamamos agora de epidemia de saúde,
  22. e substituímos o termo "dependência"
    por "transtorno do uso de substâncias".
  23. Para lhes dar uma perspectiva

  24. do como essa epidemia
    tornou-se significativa,
  25. em 2017,
  26. em meu município de 95 mil pessoas,
  27. vimos 1831 casos de overdose
  28. e 183 mortes decorrentes deles.
  29. O trabalho de meus bombeiros,
    assim como de outros órgãos,
  30. é o de atender a isso.
  31. (Tosse)

  32. Desculpem-me.

  33. Então, assistindo ao desenrolar
    dessa epidemia durante vários anos,
  34. cheguei a uma conclusão:
  35. para esse desastre, precisamos redefinir
    nosso trabalho como socorristas.
  36. Precisamos ser mais
    do que apenas a cavalaria.
  37. Precisamos fazer mais
    do que apenas salvar uma vida.
  38. Precisamos encontrar maneiras
    de reconstruir essa vida.
  39. Precisaremos de muitas pessoas para isso.
  40. É exatamente o que estamos tentando fazer
  41. em Huntington, Virgínia Ocidental.
  42. Vou dar uma ideia do que fazemos.

  43. Primeiro, isto é o que acontece
    quando alguém tem uma overdose.
  44. Imagine-se como alguém que sofre
    do transtorno cerebral do vício.
  45. Você está frágil.
  46. Está constrangido e envergonhado.
  47. E tem uma overdose.
  48. Talvez um amigo ou familiar
    ligue para a emergência.
  49. Então, de repente,
  50. você é acordado
  51. por cinco ou seis estranhos de uniforme
  52. que massageiam seu peito
  53. dizendo: "Acorde, acorde!
  54. Você teve uma overdose,
    poderia ter morrido!"
  55. Você não ficaria na defensiva e nervoso?

  56. Eu ficaria.
  57. Além disso,
  58. esses estranhos lhe deram
    uma dose de naloxona,
  59. que bloqueia os efeitos
    da droga no seu organismo,
  60. o que é mais conhecido
    como "síndrome de abstinência".
  61. Ela faz você se sentir
    absolutamente horrível.
  62. Alguns dizem que é como uma gripe
    multiplicada por dez.
  63. Náusea, vômito, diarreia, dores no corpo.
  64. Além de nós, estranhos,
    termos acordado você,
  65. também o fizemos se sentir muito mal.
  66. Com tudo isso, você, o paciente,
    não será muito amável conosco
  67. e recusará tratamento médico adicional.
  68. Por isso, ficaremos muito frustrados
  69. e bravos,
  70. porque você foi ingrato
    por termos salvado sua vida.
  71. Essa não é uma boa dinâmica.
  72. Estamos lidando aqui
    com um distúrbio cerebral

  73. que muda sua maneira de pensar
  74. e o convence de que você
    não tem um problema.
  75. Pode ser que essa não seja
    sua primeira overdose.
  76. Talvez até seja a terceira,
    a quarta ou a quinta vez
  77. que nós mesmos o ressuscitamos.
  78. Isso não é bom.
  79. Em segundo lugar,

  80. os socorristas não recebem
    muito treinamento
  81. sobre o transtorno do uso de substâncias.
  82. A comunidade médica também não recebe.
  83. Não somos treinados para lidar
    com o sofrimento desse transtorno.
  84. Sou treinada para apagar
    muitos tipos diferentes de incêndios.
  85. Sou treinada para salvar
    uma vida naquele momento.
  86. Mas não sou treinada para lidar
    com a interação complexa
  87. entre os socorristas, a comunidade médica,
  88. os serviços sociais e a ampla comunidade,
  89. interação essa que é necessária
    para salvar uma vida a longo prazo.
  90. Em terceiro lugar,

  91. e essa parte nos afeta...
  92. como socorrista, considero-me a cavalaria.
  93. Somos cavaleiros de armaduras reluzentes.
  94. Queremos chegar, fazer
    nosso trabalho e sair satisfeitos
  95. por termos feito a diferença
    na vida de alguém.
  96. Mas isso não acontece
  97. quando estamos lidando com alguém
    com transtorno do uso de substâncias.
  98. Saímos nos sentindo frustrados e inúteis.
  99. Lidamos com as mesmas pessoas,
    inúmeras vezes,
  100. sem resultados positivos.
  101. E sabem de uma coisa?

  102. A certa altura, percebi que cabe a nós,
  103. como socorristas e como comunidade,
  104. resolver esse problema,
  105. e encontrar maneiras melhores
    de lidar com aqueles que estão sofrendo.
  106. Então, comecei a observar mais
    os casos de overdose.
  107. Comecei a falar com meus
    pacientes e a ouvi-los.
  108. Eu queria saber o que os levou
    a chegar onde estão.
  109. Pelo que estão passando exatamente?
  110. O que torna a situação deles pior?
  111. O que a torna melhor?
  112. Comecei a experimentar com minhas palavras
  113. e a prestar atenção
    em minhas próprias ações
  114. e na maneira que isso afetava
    aqueles meus pacientes.
  115. O treinamento que recebi
  116. e que continuo a receber
    nas ruas de Huntington
  117. tem sido, ao mesmo tempo,
    surpreendente e revelador para mim.
  118. Assim, em Huntington, Virgínia Ocidental,
    nós nos unimos como comunidade,

  119. e estamos mudando a maneira de tratar
    aqueles que sofrem dessa terrível doença.
  120. Começamos muitos programas,
    e isso está fazendo a diferença.
  121. Vou falar de alguns deles.
  122. No ano passado, começamos
    uma Equipe de Resposta Rápida,

  123. ou ERR, abreviadamente.
  124. Essa equipe é formada por um paramédico,
  125. um policial,
  126. alguém da comunidade de recuperação
    e alguém da comunidade religiosa.
  127. Como equipe, eles saem para visitar
    pessoas que tiveram uma overdose
  128. nas últimas 72 horas após a ressuscitação.
  129. Conversam.
  130. Escutam.
  131. Criam uma boa relação com os pacientes,
  132. e lhes oferecem opções de tratamento.
  133. Neste momento,
  134. cerca de 30% ou mais
  135. daqueles que foram contatados
    pela Equipe de Resposta Rápida
  136. aceitaram alguma forma de ajuda.
  137. E o maravilhoso disso tudo
  138. é que os socorristas
    envolvidos nessa equipe,
  139. sentem realmente que podem
    fazer a diferença,
  140. uma mudança positiva
    onde não havia nenhuma.
  141. (Aplausos)

  142. Este ano, abrimos uma clínica
    especializada independente, a PROACT,

  143. para os que sofrem de transtorno
    do uso de substâncias.
  144. Tudo em um só lugar, por assim dizer.
  145. O paciente entra
  146. e é imediatamente avaliado
    por especialistas em dependência química
  147. que trabalham com os pacientes
    para dar opções de tratamento
  148. baseadas nas próprias
    necessidades individuais deles.
  149. Isso nos ajuda de várias maneiras.
  150. Dá aos socorristas um lugar
    para encaminhar os pacientes
  151. que não estão mais
    em situação de risco de vida,
  152. que se recusaram a ir ao hospital.
  153. Isso também alivia
  154. os prontos-socorros lotados dos hospitais.
  155. A terceira coisa sobre a qual quero falar

  156. é muito importante para mim
    e para minha equipe.
  157. Começamos recentemente
  158. um programa de cuidados
    especiais aos socorristas.
  159. Cada vez mais,
  160. os socorristas estão sofrendo
  161. de fadiga por compaixão
    e transtorno de estresse pós-traumático.
  162. Não é incomum a um bombeiro de Huntington
  163. lidar com até cinco mortes de jovens
    por mês ou presenciá-las.
  164. São amigos e colegas de classe deles.
  165. Esse programa tão necessário
  166. não irá apenas reconhecer
    o trabalho árduo deles,
  167. como também lhes dará voz.
  168. Fornecerá treinamento
  169. que os ajudará a lidar
    com o estresse a que estão sujeitos
  170. e lhes dará mais opções de saúde mental
    de que precisam desesperadamente.
  171. Temos agora aulas de ioga
    nos postos de bombeiros.
  172. (Risos)

  173. (Aplausos)

  174. Também oferecemos massagens
    durante o serviço, o que é sensacional.

  175. (Risos)

  176. E começamos alguns programas
    nos momentos de folga,

  177. como aulas de culinária
    para os socorristas e seus familiares
  178. e aulas de cerâmica.
  179. Há alguns meses,

  180. fui até o andar da aparelhagem
    onde estavam alguns bombeiros:
  181. metade deles havia recebido uma massagem,
  182. e a outra metade estava
    se preparando para receber uma.
  183. Vi dez bombeiros conversando
  184. de um modo muito positivo e descontraído.
  185. Eu não tinha visto aquilo em anos.
  186. Essa descontração está chegando
    à comunidade, aos cidadãos.
  187. Há algumas semanas,
    meu vizinho teve uma overdose.

  188. Vinte e dois anos de idade.
  189. Claro que corri para lá, para ajudar
    meus bombeiros e meu vizinho.
  190. Testemunhei meus bombeiros
    sendo solidários,
  191. conversando sem julgamentos.
  192. Observei um deles
  193. mostrando ao pai
    e a outro membro da família
  194. como fazer respiração de salvamento,
    caso isso acontecesse de novo.
  195. E deixou-lhe uma máscara de ressuscitação.
  196. Mudança positiva.
  197. Mudança positiva!
  198. Já mencionei
  199. as duas coisas que os bombeiros
    mais detestam?
  200. Como as coisas estão e como mudam.
  201. (Risos)

  202. Reconheço que já houve
    epidemias de droga antes.

  203. E vi o que o crack pode fazer
    a uma comunidade.
  204. Muitos de nossos críticos pensam
  205. que essa nova ação solidária
  206. que estamos fazendo em Huntington
  207. é por causa da etnia.
  208. Isso porque as overdoses estão ocorrendo
    tanto na comunidade branca.
  209. E entendo essa crítica,
  210. porque nós, como país, erramos.
  211. Tratamos mal os negros
    durante a epidemia de crack.
  212. Não podemos nos esquecer disso.
  213. E devemos fazer melhor.
  214. Mas, neste momento,
    sei que há pessoas morrendo.
  215. E nós, em Huntington, lidamos com pessoas
    com transtorno do uso de substâncias
  216. de todas as cores e origens,
    nas ruas, todos os dias.
  217. O trabalho do socorrista
    é evitar mortes desnecessárias.
  218. Ponto final.
  219. Obviamente, sou uma bombeira
    e uma enfermeira teimosa.

  220. E recuso-me a acreditar que não haja
    uma saída para cada barreira.
  221. Uma das barreiras que encontramos
  222. ao lidar com a epidemia
    de opioides é o estigma.
  223. Nós, em Huntington, Virgínia Ocidental,
    estamos mostrando ao resto do país
  224. que a mudança é possível,
  225. que existe esperança ao lidar
    com essa epidemia.
  226. Nossas overdoses, no momento, caíram 40%.

  227. (Aplausos)

  228. Atualmente, nossas mortes
    por overdose caíram 50%.

  229. (Aplausos)

  230. Essa epidemia está longe de acabar,

  231. mas cada um de nós tem um papel
    a desempenhar nela.
  232. Só de escutar e ser gentil com alguém,
  233. já podemos fazer a diferença naquela vida.
  234. Obrigada, e que Deus os abençoe.

  235. (Aplausos)