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← A inovação é o antidoto contra a corrupção

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22 llengües

Showing Revision 20 created 12/23/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Então, em 2011,
  2. alguém assaltou o gabinete
    da minha irmã

  3. na universidade da Nigéria,
    onde ela leciona.

  4. Ainda bem que a pessoa foi apanhada,
    detida e levada a tribunal.

  5. Quando eu entrei naquele tribunal,

  6. os funcionários responsáveis
    pelo caso informaram a minha irmã

  7. que não podiam processar a documentação

  8. se ela não pagasse luvas.
  9. A princípio, ela pensou que fosse
    uma brincadeira do tribunal,
  10. até se dar conta que a coisa era séria.
  11. Depois, ficou furiosa.
  12. Pensem bem nisso: ali estava ela,
    recém-vítima de um crime,
  13. com as pessoas que deviam ajudá-la,
  14. que estavam a exigir-lhe luvas.
  15. Esta é apenas uma das muitas formas
  16. em que a corrupção afeta
    milhões de pessoas no meu país.
  17. Sabem, cresci na Nigéria,
  18. onde a corrupção invade
    todos os elementos da sociedade.
  19. São comuns os relatos de políticos
    que embolsam milhões de dólares.
  20. Agentes da polícia que roubam dinheiro

  21. ou extorquem dinheiro diariamente
    à população trabalhadora,
  22. era uma prática rotineira.
  23. Eu sentia que nunca poderia
    haver desenvolvimento,
  24. não enquanto a corrupção persistisse.
  25. Mas, nos últimos anos,
  26. na minha investigação
    sobre inovação e prosperidade,
  27. aprendi que a corrupção não é
    o que atrasa mais o nosso desenvolvimento.
  28. De facto,
  29. o pensamento convencional sobre a relação
    entre corrupção e desenvolvimento
  30. não só está errado, como também
    impede o progresso dos países pobres.
  31. Essa forma de pensar funciona assim:
  32. Numa sociedade pobre e corrupta,
  33. a melhor forma de reduzir a corrupção
    é criar boas leis,
  34. e garantir que sejam cumpridas,

  35. e isso construirá o caminho
    para o desenvolvimento e a inovação.
  36. Isso pode fazer sentido no papel
  37. e por isso muitos governos
    e organizações para o desenvolvimento
  38. investem milhares de milhões
    de dólares, anualmente,
  39. em reformas institucionais
    e programas anticorrupção.
  40. Porém, muitos desses programas
    falham em reduzir a corrupção,
  41. porque temos uma equação invertida.
  42. As sociedades não se desenvolvem
    por terem reduzido a corrupção.
  43. Elas reduziram a corrupção
    porque se desenvolveram.
  44. E as sociedades desenvolvem-se
    com investimentos em inovação.
  45. A princípio, pensei
    que isso era impossível.
  46. Porque é que alguém,
    no seu perfeito juízo,
  47. investiria numa sociedade que,
    pelo menos à primeira vista,
  48. parece um lugar terrível
    para fazer negócios?

  49. Uma sociedade onde os políticos
    são corruptos
  50. e a classe consumidora é pobre?
  51. Mas, então, quanto mais aprendi
  52. sobre a relação
    entre inovação e corrupção,
  53. mais comecei a ver as coisas
    de forma diferente.
  54. Vejam o que aconteceu
    na África subsaariana,
  55. quando a indústria de telecomunicações
    se desenvolveu na região.
  56. No final dos anos 90,
  57. menos de 5% das pessoas
    tinham telefones na região.

  58. Na Nigéria, por exemplo, o país
    tinha mais de 110 milhões de pessoas
  59. mas menos de 500 mil telefones
    em todo o país.
  60. Essa escassez alimentou
    a corrupção em toda a indústria.
  61. Quer dizer, os funcionários públicos
    das empresas telefónicas estatais,
  62. pediam luvas às pessoas
    que desejavam telefones.
  63. E como a maioria não
    conseguia pagar essas luvas,
  64. os telefones só eram vendidos
    aos mais ricos da população.
  65. Então, um empresário chamado Mo Ibrahim
  66. decidiu que ia criar uma empresa
    de telecomunicações no continente.
  67. Quando ele contou isso aos amigos,
    todos se riram dele.

  68. Mas Mo Ibrahim estava determinado.
  69. Assim, em 1998, ele fundou a Celtel.
  70. A empresa forneceu telemóveis
    e serviços acessíveis
  71. a milhões de africanos,
  72. nalguns dos lugares mais pobres
    e mais corruptos da região,
  73. países como o Congo, o Malawi,
  74. a Serra Leoa e o Uganda.
  75. Na nossa investigação, denominamos
    aquilo que Mo Ibrahim construiu
  76. uma "inovação geradora de mercado."
  77. As inovações geradoras de mercados
    transformam produtos complexos e caros
  78. em produtos simples e acessíveis,
  79. a que muito mais pessoas
    passam a ter acesso.
  80. Neste caso, os telefones eram caros
  81. antes de a Celtel os tornar acessíveis.
  82. E outros investidores
    — alguns amigos dele, na verdade —
  83. vendo que era possível criar
    uma empresa telefónica com êxito,
  84. no continente,
  85. investiram nela milhares
    de milhões de dólares.

  86. Isso levou a um significativo
    crescimento na indústria.
  87. De quase nada em 2000,
  88. hoje, praticamente,
    todos os países africanos
  89. têm uma vibrante indústria
    de telecomunicações.
  90. O setor hoje opera com
    quase mil milhões de ligações telefónicas.
  91. Criou cerca de quatro milhões
    de empregos
  92. e gera milhares de milhões de dólares
    em impostos, todos os anos.
  93. Impostos que os governantes
    podem agora reinvestir na economia
  94. para criar as suas instituições.
  95. E aqui está o facto:
  96. como as pessoas não têm
    de subornar os funcionários públicos
  97. somente para ter um telefone,
  98. a corrupção diminuiu, pelo menos
    neste setor da indústria.
  99. Se Mo Ibrahim tivesse esperado
    que a corrupção fosse sanada,
  100. para investir na região
    subsaariana de África,
  101. ainda hoje estaria à espera.
  102. As pessoas envolvidas na corrupção
    sabem que estão erradas,
  103. ou seja, os funcionários públicos
    que aceitavam luvas das pessoas
  104. que desejavam um telefone
  105. e as pessoas que pagavam essas luvas

  106. sabiam que agiam fora da lei.
  107. Mas faziam-no na mesma.
  108. A questão é: Porquê?
  109. A resposta?
  110. Escassez.
  111. Sempre que as pessoas
    possam ser beneficiadas
  112. com algo que é escasso,
  113. a corrupção torna-se atraente.
  114. Nos países pobres, queixamo-nos
    de políticos corruptos

  115. que roubam os cofres públicos.
  116. Nos países onde as oportunidades
    económicas são escassas,
  117. a corrupção torna-se um meio atraente
    de ganhar dinheiro.
  118. Também nos queixamos
    de funcionários públicos, dos polícias,
  119. que extorquem dinheiro
    aos cidadãos trabalhadores.
  120. Mas grande parte dos funcionários públicos
    são muito mal remunerados
  121. e levam vidas miseráveis.
  122. Para eles, a extorsão ou a corrupção
    é uma forma cómoda de ganhar a vida.
  123. Mas esse fenómeno também ocorre
    em países ricos.
  124. Quando pais ricos subornam
    funcionários das universidades...
  125. (Risos)
  126. Quando pais ricos subornam
    funcionários das universidades

  127. para os seus filhos entrarem
    nas escolas de elite,
  128. as circunstâncias são diferentes,

  129. mas o princípio é o mesmo.

  130. Quer dizer, a admissão
    nestas escolas é bem difícil,
  131. e é aí que as luvas se tornam tentadoras.
  132. O caso é este.
  133. Não digo que não devam existir
    coisas escassas na sociedade
  134. ou coisas que sejam seletivas.
  135. O que estou a tentar explicar

  136. é a relação existente
    entre corrupção e escassez.
  137. Nos países pobres, há demasiadas
    coisas básicas escassas.
  138. Coisas como comida,
  139. educação,
  140. cuidados médicos,
  141. oportunidades económicas,
  142. empregos.
  143. E isso cria um campo fértil
    para a corrupção.
  144. Isso não desculpa
    os comportamentos corruptos.
  145. só nós ajuda a entendê-la um pouco melhor.
  146. Investir em negócios
    que tornam as coisas acessíveis,
  147. ao alcance de muito mais pessoas,
  148. combate essa escassez
  149. e gera receitas para os governantes
    reinvestirem nas suas economias.
  150. Quando isso ocorre
    a um nível abrangente no país,
  151. isso pode revolucionar uma nação.
  152. Considerem o impacto na Coreia do Sul.
  153. Na década de 50,

  154. a Coreia do Sul era terrivelmente pobre,
  155. e tinha muita corrupção.
  156. O governo do país era autoritário
  157. e estava envolvido
    em corrupção e falcatruas.
  158. Os economistas, à época, diziam
    que o país estava refém da pobreza,
  159. e rotulavam-na como
    "um caso económico desesperado".
  160. À época, ao olharmos para
    as instituições sul-coreanas,
  161. até mesmo no final da década de 80,
  162. elas estavam no mesmo nível dos países
    mais pobres e mais corruptos de África.
  163. Mas, quando empresas
    como a Samsung, a Kia, a Hyundai
  164. investiram em inovações e tornaram
    as coisas muito mais acessíveis
  165. a um maior número de pessoas,
  166. a Coreia do Sul acabou
    por alcançar a prosperidade.
  167. À medida que a prosperidade aumentava,
  168. foi possível promover a transição
    de um governo autoritário
  169. para um governo democrático
  170. e também foi possível reinvestir
    na criação das suas instituições.

  171. Isso valeu muito a pena.
  172. Por exemplo, em 2018,
  173. a presidente do país foi condenada
    a 25 anos de prisão
  174. por denúncias relacionadas
    com a corrupção.
  175. Isso nunca aconteceria décadas antes,
    quando o país era pobre
  176. e governado por um regime autoritário.
  177. Olhando hoje para a maioria dos
    países mais prósperos, podemos ver
  178. que foram capazes de reduzir
    a corrupção conforme prosperavam,
  179. não antes.
  180. E aonde isso nos leva?
  181. Sei que parece que estou a dizer
    para ignorarmos a corrupção.
  182. Não é nada disso que estou a dizer.
  183. O que estou a sugerir, no entanto,

  184. é que a corrupção, especialmente para
    a maioria das pessoas nos países pobres,
  185. é uma solução alternativa de vida.
  186. Um expediente
  187. num local onde as alternativas
    para resolver problemas são escassas.
  188. Investir em inovação que torne
    os produtos mais acessíveis
  189. a muito mais pessoas,
  190. não só ataca a escassez,
  191. mas cria uma fonte sustentável de receitas
  192. para os governantes
    reinvestirem nas suas economias
  193. e fortalecerem as suas instituições.
  194. É a peça chave que faltava no "puzzle"
    do desenvolvimento económico
  195. que, em última instância,
    vai ajudar-nos a reduzir a corrupção.
  196. Aos 16 anos, eu tinha perdido
    a esperanças na Nigéria.
  197. E, de certa forma, o país
    conseguiu piorar ainda mais.
  198. Além da pobreza generalizada
    e da corrupção endémica,
  199. a Nigéria enfrenta hoje
    organizações terroristas

  200. como o Boko Haram.
  201. Mas, de certo modo, hoje estou
    mais esperançoso com a Nigéria
  202. do que no passado.
  203. Ao ver investimentos em inovações
  204. que criam empregos para as pessoas
  205. tornando as coisas mais acessíveis
  206. — organizações
    como a Lifestores Pharmacy,
  207. que produz medicamentos
    mais acessíveis às pessoas;
  208. ou como a Metro África Xpress,
  209. que ataca a escassez da distribuição
    e a logística para os pequenos negócios,
  210. ou a Andela, que cria oportunidades
    aos desenvolvedores de "software" —
  211. fico otimista em relação ao futuro.
  212. Espero que vocês também fiquem.
  213. Muito obrigado.
  214. (Aplausos)