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← Um plano radical para acabar com o lixo plástico

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Showing Revision 27 created 06/16/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Chris Anderson: Então, tu tens
    estado obcecado por este problema
  2. nos últimos anos.
  3. Qual é o problema,
    segundo as tuas palavras?
  4. Andrew Forrest: Plástico.

  5. Tão simples quanto isso.
  6. A nossa incapacidade de utilizar
    este formidável produto energético.

  7. Limitamo-nos a deitá-lo fora.
  8. CA: Vemos desperdícios por toda a parte.

  9. No seu pior, é parecido com isto.
  10. Onde foi tirada esta foto?
  11. AF: Foi tirada nas Filipinas.

  12. Senhoras e senhores,
  13. há lá muitos rios
    que se parecem com isto.
  14. As Filipinas são assim.
  15. Todo o sudeste asiático.
  16. CA: O plástico é atirado para os rios,
  17. e daí acaba por entrar no mar.

  18. Quer dizer, obviamente
    nós vemos isso nas praias,
  19. mas essa não é
    a tua preocupação principal.
  20. É o que lhe acontece nos oceanos.
  21. Fala-nos um pouco disso.
  22. AF: Ok. Obrigado, Chris.
  23. Há cerca de quatro anos,

  24. eu pensei faze algo realmente louco.
  25. Decidi fazer um doutoramento
    em Ecologia Marinha.
  26. O que foi assustador
  27. — claro, aprendi muita coisa sobre
    a vida dos animais marinhos —
  28. mas aprendi mais
    sobre a morte no mar
  29. e a enorme quantidade
    de morte ecológica dos peixes,
  30. dos animais marinhos, mamíferos marinhos
  31. — uma biologia muito próxima da nossa —
  32. que estão a morrer aos milhões,
    ou biliões, nem conseguimos contar
  33. por causa do plástico.
  34. CA: As pessoas acham que
    o plástico é feio mas estável, não é?

  35. Atiramos uma coisa ao oceano:
    "Olhem, vai ficar ali para sempre.
  36. "Não vai causar nenhum dano, não é?"
  37. AF: O plástico é uma substância incrível
    concebida para a economia.

  38. É a pior substância possível
    para o ambiente.
  39. A pior coisa do plástico é que,
    assim que entra ao ambiente,
  40. é que se fragmenta,
  41. mas nunca deixa de ser plástico.
  42. Decompõe-se em pedaços
    cada vez mais pequenos.
  43. A ciência de ponta sobre isto, Chris,
  44. que já conhecemos na ecologia marinha
    de há uns anos a esta parte,
  45. é que vai afetar os seres humanos.
  46. Sabemos hoje que o nanoplástico,
  47. as partículas muito pequenas de plástico
    que têm uma carga negativa,
  48. podem penetrar através
    dos poros da nossa pele.
  49. Isso não é o pior.
  50. O pior é que atravessam diretamente
    a barreira hematoencefálica,
  51. o revestimento protetor
    que protege o cérebro.
  52. O cérebro é uma massa húmida e amorfa,
  53. cheia de pequenas cargas elétricas.
  54. Se lá colocarmos uma partícula negativa,
  55. em especial uma partícula negativa
    que pode transportar patógenos,
  56. temos uma carga negativa
    que atrai elementos de carga positiva,
  57. tais como patógenos, toxinas,
  58. mercúrio e chumbo.
  59. É a ciência de ponta
    que veremos nos próximos 12 meses.
  60. CA: Eu creio que já me disseste
    que há uns 600 sacos plásticos

  61. por cada peixe daquele tamanho no mar.
  62. Eles estão a decompor-se,
  63. vai haver uma quantidade cada vez maior
  64. e ainda não vimos o início
    das consequências disso.
  65. AF: Pois não.

  66. A Fundação Ellen MacArthur,
    tem um grupo de bons cientistas,
  67. com quem já trabalhamos
    há algum tempo.
  68. Verifiquei inteiramente o trabalho deles.
  69. Eles dizem que vai haver
    uma tonelada de plástico
  70. por cada três toneladas de peixes

  71. — não em 2050, eu fico impaciente
    quando me falam em 2050 —
  72. mas até 2025.
  73. Será daqui a pouco tempo.
  74. É aqui mesmo e agora mesmo.
  75. Não é preciso uma tonelada de plástico
    para destruir a vida marinha.
  76. Menos do que isso fará um bom trabalho.
  77. Temos de acabar com isso imediatamente.
    Já não temos tempo.
  78. CA: Ok, então tens uma ideia
    para acabar com isso,

  79. Mas não o fazes
    como um típico ativista ecológico
  80. mas como um homem de negócios,
    um empresário,
  81. que passou a vida a pensar
    em sistemas económicos globais
  82. e como eles funcionam.
  83. E se eu entendi bem,
  84. a tua ideia depende de heróis
    que se parecem com isto.
  85. Qual á a profissão dela?
  86. AF: Ela é trapeira.

  87. Havia 15 ou 20 milhões
    de trapeiras como ela,
  88. até a China deixar de receber
    os desperdícios de toda a gente.
  89. E o preço do plástico,
    que já era muito baixo, caiu.
  90. Isso levou a pessoas como ela
  91. — é uma criança em idade escolar,
  92. que devia estar na escola.
  93. É provavelmente uma situação
    parecida com a escravatura.
  94. A minha filha Grace e eu conhecemos
    centenas de pessoas como ela.
  95. CA: Também há muitos adultos,
    literalmente milhões no mundo inteiro

  96. e nalgumas indústrias.
  97. Isso explica o facto de, por exemplo,
  98. não vermos muito desperdício
    de metal no mundo.
  99. AF: Exatamente.
  100. Aquela miúda é a heroína do ambiente.
  101. Ela está em competição
    com uma grande fábrica petroquímica

  102. que fica naquela rua,
  103. a fábrica petroquímica
    de 3500 milhões de dólares.
  104. O problema é esse.
  105. Temos mais petróleo e gás
    no plástico e nos aterros sanitários
  106. do que todos os recursos
    de petróleo e gás dos EUA.
  107. Por isso, a heroína é ela.
  108. E aquele é o aspeto
    do aterro sanitário,
  109. é petróleo e gás sólidos.
  110. CA: Possivelmente,
    há um enorme valor ali encerrado
  111. com o qual os trapeiros do mundo,
    se pudessem, podiam ganhar a vida.

  112. Mas porque é que não podem?
  113. AF: Porque já nos convencemos
  114. que o preço do plástico
    a partir dos combustíveis fósseis,

  115. é mais baixo do que seria
    reciclar plástico a partir do plástico
  116. de forma económica e rentável.
  117. Todo o plástico é formado
    a partir do petróleo e do gás.
  118. O plástico é 100% um polímero,
    ou seja, 100% petróleo e gás.
  119. Temos bastante plástico no mundo
  120. para todas as nossas necessidades.
  121. E quando reciclamos o plástico,
  122. se ele não sair mais barato
    do que o plástico de combustíveis fósseis,
  123. claro que o mundo prefere
    o plástico de combustíveis fósseis.
  124. CA: Então, esse é o problema fundamental,
  125. o preço do plástico reciclado
    é geralmente mais alto

  126. do que o preço de compra
    do plástico feito a partir do petróleo.
  127. É esse o problema fundamental.
  128. AF: Um ligeiro ajuste das regras, Chris.
  129. Eu sou uma pessoa prática.

  130. Compreendo que costumávamos
    ter sucata de metais e de ferro
  131. e pedaços de cobre
    por toda a parte nas aldeias,
  132. especialmente no mundo
    em desenvolvimento.
  133. As pessoas descobriram
    que isso tinha valor.
  134. É um artigo de valor, não é lixo.
  135. Agora nas aldeias, nas cidades,
    as ruas estão todas limpas,
  136. já não tropeçamos na sucata de cobre
    ou na sucata de ferro,
  137. porque são artigos de valor,
    e são reciclados.
  138. CA: Então, qual é a tua ideia
    para mudar isso para o plástico?
  139. AF: Ok, Chris, durante a maior parte
    do meu doutoramento,

  140. eu fiz pesquisas.

  141. E uma coisa boa por ser
    um empresário de sucesso
  142. é que as pessoas querem conhecer-nos.
  143. Outros empresários,
  144. mesmo que sejamos
    uma espécie de animal de zoo,
  145. aceitam encontrar-se
    com Twiggy Forrest.
  146. E assim, quando lá estivermos,
  147. podemos interrogá-los.
  148. Conheço a maioria
    das empresas petrolíferas
  149. e empresas de bens de consumo
    em expansão, em todo o mundo
  150. e há um verdadeiro desejo de mudar.
  151. Quer dizer, há alguns dinossauros
  152. que esperam conseguir o melhor
    mas não fazem nada,
  153. mas há uma esperança real de mudar.
  154. Então, o que tenho andado a dizer
  155. é que os 7500 milhões
    de pessoas do mundo
  156. não merecem ter o ambiente
    destroçado pelo plástico.
  157. Os mares ficaram despovoados
    da vida marinha por causa do plástico.
  158. Se percorrerem essa cadeia,
  159. há dezenas de milhares de marcas
    a quem compramos montes de produtos,
  160. mas há apenas uma centena
    de grandes fabricantes de resina,
  161. grandes fábricas petroquímicas,
  162. que fabricam todo o plástico
    de utilização única.
  163. CA: Então, uma centena empresas

  164. estão na base desta cadeia alimentar.
  165. AF: Exato.

  166. CA: Então, o que é que essas
    cem empresas precisam de fazer?

  167. AF: Precisamos que essas empresas
    aumentem o valor

  168. dos componentes do plástico
    derivado do petróleo e do gás,
  169. a que eu chamo o "mau plástico,"
  170. aumentem esse valor,
  171. para que, quando se propagar
    às marcas e a nós, clientes,
  172. quase não notemos um aumento
    na chávena do café
  173. na Coca-Cola ou na Pepsi, em nada.
  174. CA: Tipo um cêntimo extra?

  175. AF: Menos. Um quarto de cêntimo,
    meio cêntimo.

  176. Será extremamente pequeno.
  177. Mas o que isso faz
  178. é que torna cada pedaço de plástico
    por todo o mundo num artigo de valor.
  179. Nos locais onde há o maior desperdício,
  180. como no sudeste asiático, na Índia,
  181. é onde há maior riqueza.
  182. CA: Ok, parece que há aqui duas partes.

  183. Uma é que, se eles cobrarem mais dinheiro,
  184. extraem esse excesso
  185. e colocam-no aonde?
    num fundo gerido por alguém
  186. para resolver este problema — de quê?
  187. Esse dinheiro extra que é cobrado
    seria usado para quê?
  188. AF: Quando falo
    com grandes empresas, digo:

  189. "Olhem, preciso que vocês mudem,
    e mudem de forma muito rápida".
  190. Vão mostrar-se aborrecidos
  191. a menos que eu diga:
    "É um negócio da China."
  192. "OK, agora já tens
    a minha atenção, Andrew."
  193. E digo: "Espero que vocês
    façam uma contribuição
  194. "para um fundo de transição
    ambiental e industrial.
  195. "Durante dois ou três anos,
  196. "toda a indústria global de plásticos
  197. "pode deixar de obter os elementos
    a partir dos combustíveis fósseis
  198. "e passar a obtê-los a partir do plástico.
  199. "Já existe a tecnologia.
  200. "Já está comprovada."
  201. Já realizei duas operações
    de muitos milhões de dólares do nada,
  202. reconhecendo que
    a tecnologia pode ser alargada.
  203. Vejo pelo menos uma dúzia de tecnologias
    para lidar com todos os tipos de plástico.
  204. Quando essas tecnologias
    tiverem uma margem económica,
  205. que isso lhes dá,
  206. é aí que o público global
    receberá todo o plástico
  207. a partir do plástico existente.
  208. CA: Então, cada venda de plástico virgem
    contribui com dinheiro para um fundo

  209. que é usado basicamente para
    fazer a transição da indústria
  210. e começar a pagar por coisas
    como a limpeza e outras.
  211. AF: Exatamente.

  212. CA: E isso tem o incrível
    benefício colateral,

  213. que até pode ser o maior benefício,
  214. de criar um mercado.
  215. Torna repentinamente o plástico reciclável
    num negócio gigantesco
  216. que pode desbloquear
    milhões de pessoas no mundo inteiro
  217. para ganharem uma nova vida
    através da recolha do plástico.
  218. AF: Isso mesmo.

  219. Tudo o que se faz é ter plásticos
    de fósseis combustíveis a este valor
  220. e plástico reciclado a este valor.
  221. Isso já se mudou.
  222. O plástico reciclado é mais barato.
  223. O que eu mais aprecio nisso, Chris,
  224. é que desperdiçamos no ambiente
  225. 300 a 350 milhões
    de toneladas de plástico.
  226. Nas contas das empresas de petróleo e gás,
  227. o número pode aumentar
    para 500 milhões de toneladas.
  228. Isto é um problema em aceleração.
  229. Cada tonelada disso é um polímero.
  230. O polímero é a 1000 dólares,
    a 1500 dólares por tonelada.
  231. Isso é meio bilião de dólares
    que pode entrar no negócio
  232. e que pode criar postos de emprego
    e riqueza no mundo inteiro,
  233. em particular nas regiões mais pobres.
  234. Mas deitamo-lo fora.
  235. CA: Isso permitiria às grandes empresas
    investir em fábricas de reciclagem,

  236. por todo o mundo.
  237. AF: No mundo inteiro.

  238. Como o custo da tecnologia é muito baixo,
  239. podemos colocá-las em lixeiras,
    por baixo de grandes hotéis,
  240. em depósitos de lixo, por toda a parte,
  241. para transformar os resíduos em resina.
  242. CA: Tu agora és um filantropo
    e estás pronto para investir nisso.

  243. Qual é o papel da filantropia
    neste projeto?
  244. AF: Acho que o que temos de fazer
    é injetar os 40 a 50 milhões de dólares

  245. para pôr as coisas a andar.
  246. e temos de criar
    uma transparência absoluta
  247. para toda a gente poder saber
    exatamente o que está a acontecer.
  248. Dos produtores de resina
    até às marcas e aos consumidores,
  249. todos podem saber
    quem está a jogar,
  250. quem está a proteger a Terra,
    e quem não se importa.
  251. Isso custará cerca
    de um milhão de dólares por semana,
  252. e vamos subscrevê-lo
    ao longo de cinco anos.
  253. A contribuição total é de cerca
    de 300 milhões de dólares.
  254. CA: Uau!

  255. (Aplausos)

  256. Já falaste com outras empresas,
    como as Coca-Colas do mundo,

  257. que estão dispostas a fazer isso,
    a pagar um preço mais alto,
  258. gostariam de pagar um preço mais alto,
  259. contanto que seja justo.
  260. AF: Sim, é justo mesmo.

  261. A Coca-Cola não gostaria
    que a Pepsi não colaborasse
  262. a menos que o mundo inteiro saiba
    que a Pepsi não colabora.
  263. Portanto, não se importam.
  264. Então, é a transparência do mercado
  265. em que, se a gente tentasse
    enganar o sistema,
  266. o mercado podia descobrir,
    os consumidores também.
  267. Os consumidores querem ter
    um papel nisto.
  268. Somos 7500 milhões.
  269. Não queremos que o mundo
    seja destruído por cem empresas.
  270. CA: Disseste o que as empresas
    podem fazer

  271. e o que estás disposto a fazer.
  272. O que é que os ouvintes podem fazer?
  273. AF: Gostava que toda a gente
    no mundo inteiro,

  274. visitasse o "site" noplasticwaste.org.
  275. Entrem em contato
    com os cem produtores de resina
  276. que ficam na vossa região.
  277. Vão ter pelo menos um
  278. com um "email" ou Twitter
    ou um contato telefónico.
  279. Deem-lhes a saber que gostariam que
    eles fizessem uma contribuição
  280. para um fundo que a indústria
    ou o Banco Mundial podem gerir.
  281. Isso gera dezenas de milhares
    de milhões de dólares por ano
  282. para a indústria poder passar
    a obter todo o plástico
  283. a partir do plástico
    em vez dos combustíveis fósseis.
  284. Não precisamos daquilo.
    Aquilo é mau. Mas isto é bom.
  285. E pode ajudar a limpar o ambiente.
  286. Já temos capital suficiente,
  287. temos dezenas de milhares
    de milhões de dólares, por ano
  288. para limpar o ambiente.
  289. CA: Estás no negócio da reciclagem.

  290. Isto não será um conflito de interesses,
  291. ou melhor, uma grande
    oportunidade de negócio, para ti?
  292. AF: Claro, eu estou no negócio
    do minério de ferro,

  293. e concorro contra
    o negócio de sucata metálica.
  294. É por isso que não tropeçam
    em nenhuma sucata por aí
  295. e não cortam um dedo do pé,
  296. porque a sucata já foi recolhida.
  297. CA: Não é um pretexto para entrares
    no negócio da reciclagem do plástico.

  298. AF: Eu vou festejar essa expansão.

  299. Será a Internet dos resíduos plásticos.
  300. Será uma indústria próspera
    que vai espalhar-se pelo mundo,
  301. especialmente nas zonas mais pobres
    porque é onde há mais lixo,
  302. e o lixo é um recurso.
  303. Por isso, eu vou defender isso
    e manter-me afastado.
  304. CA: Twiggy, estamos numa era

  305. em que tanta gente do mundo anseia
    por uma nova economia regeneradora,
  306. essas grandes cadeias de suprimentos,
    essas grandes indústrias,
  307. para transformar fundamentalmente.
  308. Parece-me uma ideia gigante,
  309. e vamos precisar
    de muita gente a aplaudir-nos
  310. quando estivermos a caminho.
  311. Obrigado por partilhares isso connosco.
  312. AF : Muito obrigado. Chris.

  313. (Aplausos)