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← Porque é que a linguagem é a maior invenção da Humanidade

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32 llengües

Showing Revision 13 created Today by Margarida Ferreira.

  1. Colheres.
  2. Caixas de cartão.

  3. Comboios elétricos para crianças.

  4. Ornamentos de Natal.

  5. Castelos insufláveis.

  6. Cobertores.

  7. Cestos.

  8. Tapetes.

  9. Mesas-bandejas.

  10. "Smartphones".

  11. Pianos.

  12. Colchas.

  13. Fotografias.

  14. O que têm em comum todas estas coisas

  15. para além de serem fotos
    que tirei nos últimos três meses?
  16. E, portanto, detenho os direitos de autor.
  17. (Risos)

  18. Todas elas são invenções
    criadas com o benefício da linguagem.
  19. Nenhuma destas coisas
    existiria sem a linguagem.

  20. Imaginem criar qualquer daquelas coisas
  21. ou construir um edifício como este
  22. sem poder usar uma língua
  23. ou sem beneficiar dos conhecimentos
    adquiridos pelo uso da linguagem.
  24. A linguagem é a coisa
    mais importante do mundo.
  25. Todas as civilizações assentam nela.
  26. E os que dedicam a vida a estudá-la
  27. — a forma como nasceu a linguagem,
    como as línguas humanas são diferentes
  28. como são diferentes dos sistemas
    de comunicação dos animais —
  29. são os linguistas.
  30. A linguística formal é um campo
    relativamente recente
  31. que tem feito muitas descobertas
    muito importantes.
  32. Como, por exemplo, que os sistemas
    humanos de comunicação
  33. são extremamente diferentes
    dos sistemas de comunicação dos animais.
  34. e que todas as línguas
    são igualmente expressivas
  35. apesar de se exprimirem
    de formas diferentes.
  36. Apesar disso, há muitas pessoas
  37. que adoram gabar-se
    de conhecer uma língua
  38. como se a conhecessem tão bem
    como um linguista,
  39. só porque falam essa língua.
  40. E, quem fala uma língua,

  41. tem tanto direito de falar
    da sua função como qualquer outro.
  42. Imaginem que estão a falar
    com um cirurgião e lhe dizem:
  43. "Escute, amigo.
    Eu tenho um coração há 40 anos.
  44. "Acho que sei uma ou duas coisas
    sobre substituição de válvulas aórticas.
  45. "Penso que a minha opinião
    é tão válida como a sua".
  46. É exatamente o que sucede.
  47. Este é Neil deGrasse Tyson a dizer
  48. que, no filme "O Primeiro Encontro",
    ele teria levado um criptógrafo
  49. — um especialista que sabe decifrar
    uma mensagem numa língua que já conhece —
  50. em vez de um linguista,
  51. para comunicar com os extraterrestres,
  52. porque, como é que um linguista
    seria útil a falar com alguém
  53. que fala uma língua que não conhecemos?

  54. Claro, o filme "O Primeiro Encontro'
    não deixa de ter culpas.
  55. Quer dizer, o filme...
  56. Os extraterrestres chegam
    ao nosso planeta em naves gigantes
  57. com o único objetivo de comunicar connosco
  58. e contratamos um linguista?
  59. (Risos)
  60. O governo americano
    estava a tentar poupar dinheiro?
  61. (Risos)
  62. Muitas destas coisas podem
    levar a equívocos
  63. tanto sobre o que é uma língua
  64. como sobre o que é a linguística,
    o estudo formal duma língua.
  65. Penso que há qualquer coisa
    que está subjacente a estes equívocos
  66. que se podem resumir
    neste delicioso artigo da Forbes,
  67. sobre porque é que os estudantes
    não deviam aprender línguas estrangeiras.

  68. Vou extrair daqui algumas passagens

  69. e gostava que tentassem imaginar

  70. o que está subjacente
    a estas opiniões e ideias.

  71. "Os americanos raramente
    leem os clássicos, mesmo em traduções".
  72. Por outras palavras, porquê
    aprender uma língua estrangeira
  73. se eles nem sequer leem
    os clássicos no original?
  74. Qual é o interesse?
  75. "... estudar línguas estrangeiras
    na escola, é uma perda de tempo
  76. "em comparação com outras coisas
    que se podem fazer na escola!"
  77. "... a Europa tem muitos grupos de línguas
  78. "apinhadas num espaço
    relativamente pequeno".
  79. Para os americanos: "Qual é o interesse
    de aprender outra língua?
  80. Não compensa o dinheiro investido.
  81. Esta é a minha preferida.
  82. "Um estudante em Birmingham
    tem de viajar milhares de quilómetros
  83. "para chegar à fronteira do México.
  84. "Mas, mesmo aí, haverá
    gente suficiente que fale inglês".
  85. (Risos)
  86. Por outras palavras,
    se pudermos acenar
  87. e chegar onde queremos ir,
  88. não há qualquer interesse
    em aprender outra língua.
  89. O que está subjacente em muitas
    destas atitudes é a metáfora conceptual
  90. de que a Língua é uma Ferramenta.
  91. E há qualquer coisa que soa
    como verdade nesta metáfora.
  92. A língua é uma espécie de ferramenta
  93. porque, se soubermos a língua local,
    fazemos mais do que se não soubermos
  94. Mas a implicação é que
    a língua é apenas uma ferramenta,
  95. e isso é totalmente falso.
  96. Se a língua fosse uma ferramenta,
    seria uma ferramenta muito fraca
  97. e tê-la-íamos abandonado há muito
    por qualquer outra coisa muito melhor.
  98. Pensem numa frase qualquer.

  99. De certeza, já disseram:
    "Ontem vi o Kyn".
  100. Tenho um amigo chamado Kyn.
  101. Quando eu digo esta frase:
    "Ontem vi o Kyn",
  102. acham que se dá o caso
  103. que tudo no meu espírito
    passou parao vosso espírito,
  104. através desta frase?
  105. Dificilmente, porque passam-se
    muitas outras coisas.
  106. Quando digo "ontem",
  107. posso pensar como estava o tempo
    ontem, porque estava lá.
  108. E, se me lembrar,
  109. talvez me lembre que me esqueci
    de pôr algo no correio.
  110. Isto foi uma frase planeada,
    mas esqueci-me mesmo.
  111. Isso significa que vou ter
    de o enviar segunda-feira
  112. porque é quando regresso a casa.
  113. E, claro, quando penso em segunda-feira,
  114. penso em "Manic Monday",
    uma ótima canção das Bangles.
  115. Quando digo a palavra "vi",
    penso nesta frase:

  116. "Eu vejo! [see]" disse o cego, quando
    agarrou no martelo e serrou [saw]".
  117. Sempre que oiço a palavra "saw"
    ou a digo, penso sempre nisto
  118. porque o meu avô dizia sempre isso
  119. por isso, recordo o meu avô.
  120. E voltamos a "Manic Monday",
    não sei porquê.
  121. Quando digo: "Ontem vi o Kyn",
  122. penso nas circunstâncias em que o vi.
  123. Acontece que foi nesse dia.
    Aqui está ele com o meu gato.
  124. E, claro, se penso no Kyn,
  125. penso que ele vai agora
    para o Estado de Long Beach
  126. e vou lembrar-me do meu
    amigo John e da minha mãe
  127. que se formaram ambos
    no Estado de Long Beach,
  128. da minha prima Katie que vai
    agora para Long Beach.
  129. E voltamos a "Manic Monday".
  130. Mas isto é só uma fração
    do que se passa na nossa cabeça
  131. sempre que estamos a falar.
  132. E tudo o que temos para representar
    toda esta misturada
  133. que se passa na nossa cabeça
  134. é isto.
  135. (Risos)
  136. É de admirar que
    o nosso sistema seja tão pobre?
  137. Posso dar-vos uma analogia.
  138. Imaginem que, se quiserem saber
    qual o sabor de um bolo,
  139. em vez de comer o bolo,

  140. tivessem de ingerir
    os ingredientes de um bolo,
  141. um por um, juntamente com a receita
  142. sobre como os ingredientes
    se combinam para formar o bolo.
  143. Também tinham de comer as instruções.

  144. (Risos)

  145. Se fosse assim que tínhamos
    de saborear o bolo,
  146. nunca comeríamos bolo.
  147. Contudo, a linguagem
    é a única forma — a única —
  148. em que podemos imaginar
    o que se passa na nossa cabeça.
  149. É a nossa interioridade,
  150. a coisa que nos torna humanos,
  151. o que nos torna diferentes
    dos outros animais.
  152. Está tudo aqui dentro algures
  153. e, para o representar,
    só temos as nossas línguas.

  154. A língua é a melhor forma de mostrar
    o que se passa na nossa cabeça.

  155. Imaginem que eu queria
    fazer uma pergunta, tipo:
  156. "Qual é a natureza do pensamento
    humano e da emoção?"
  157. O que poderiam fazer,
  158. seria examinarem
    tantas línguas diferentes
  159. quanto possível.
  160. Uma não seria suficiente.
  161. Para vos dar um exemplo,
  162. tenho aqui uma foto de Roman
  163. que tirei com uma câmara
    de 12 megapixels
  164. Esta é a mesma fotografia
    com muito menos pixéis.
  165. Obviamente, nenhuma
    destas fotos é um gato real.
  166. Mas uma presta-nos um serviço
    muito melhor do que é um gato,
  167. do que a outra.
  168. A língua não é só uma ferramenta,
    é o nosso património.
  169. É a nossa forma de transmitir
    o que significa ser humano.
  170. Claro, por "nosso" património
    quero dizer todos os seres humanos.
  171. E perder nem que seja uma só língua
    torna a imagem menos clara.
  172. Assim, o meu trabalho durante
    os últimos 10 anos,
  173. e também por diversão,
  174. criei línguas.
  175. Chamam-se "conlangs",

  176. uma abreviatura para
    "línguas construídas".
  177. Apresentando estes factos consecutivos
  178. de que estamos a perder línguas
    no nosso planeta
  179. e que crio línguas novas,

  180. podem pensar que há uma relação
    não superficial entre estas duas coisas.
  181. Na verdade, muitas pessoas
    juntaram estes pontos.
  182. Este é um tipo que ficou desesperado
  183. porque havia uma "conlang"
    em "Avatar" de James Cameron.
  184. Ele diz:
  185. "Nos três anos que James Cameron
  186. "demorou a fazer Avatar,
    morreu uma língua".
  187. Provavelmente, muito mais do que isso.
  188. "Na'vi, infelizmente, não vai preencher
    o vazio que se criou..."
  189. Uma afirmação profunda e pungente
  190. se nunca pensaram nisso.
  191. (Risos)
  192. Mas quando eu estava
    aqui na Califórnia,
  193. completei dois mestrados.
  194. Um em Linguística,
    e o outro em Inglês.
  195. Claro que o mestrado em Inglês
    o estudo do inglês,
  196. não é o estudo da língua
    inglesa, como a conhecem,
  197. É o estudo da literatura.
  198. A literatura é uma coisa maravilhosa

  199. porque a literatura
    é mais como uma espécie de arte.

  200. Cai sob a rubrica da arte.
  201. O que se faz na literatura
  202. é que os autores criam seres novos,
    e histórias novas,
  203. É interessante vermos
  204. o tipo de profundidade e emoção
    e o espírito especial
  205. que os autores podem investir
    nestes seres de ficção.
  206. De tal maneira que...
    reparem nisto.
  207. Há toda uma série de livros
  208. que escrevem sobre
    as personagens de ficção.
  209. Um livro inteiro só acerca
    de um ser humano inventado.
  210. Há um livro inteiro
    sobre George F. Babbitt,
  211. do Babbitt, de Sinclair Lewis
  212. que ainda é maior do que o Babbitt
  213. que é um livro pequeno.
  214. Alguém se lembra desse livro?
  215. É muito bom. Ainda é melhor
    do que "Rua Principal".
  216. É a minha opinião.
  217. Nunca questionámos o facto
    de a literatura ser interessante.
  218. Mas, apesar disso,
  219. nem os linguistas estão interessados
    no que as línguas criadas nos podem dizer
  220. sobre a profundidade do espírito humano
    enquanto esforço artístico.
  221. Vou dar-vos um pequeno exemplo.
  222. Houve um artigo
    que escreveram sobre mim
  223. na revista dos antigos alunos
    da Califórnia, há uns tempos.
  224. Quando escreveram esse artigo,
  225. quiseram arranjar alguém
    do lado oposto
  226. o que parece uma coisa estranha.
  227. Estamos a falar duma pessoa
  228. e queremos arranjar alguém
    opositor a essa pessoa?

  229. (Risos)
  230. É esquisito, mas adiante.
  231. Acabaram por arranjar
  232. um dos linguistas mais brilhantes da época
  233. George Lakoff, um linguista
    aqui de Berkeley.
  234. O trabalho dele alterou para sempre
    a área da linguística
  235. e da ciência cognitiva.
  236. Quando lhe falaram do meu trabalho
    e da criação de línguas em geral, disse:

  237. "Há muito a fazer no estudo das línguas.

  238. "Devíamos dedicar o tempo
    a coisas reais".
  239. Pois é.
  240. "Coisas reais". Isto faz-vos
    lembrar alguma coisa?
  241. Para usar esta moldura
    que ele inventou,
  242. vou voltar a referir
    aquela metáfora conceptual:
  243. "a linguagem é uma ferramenta".
  244. Parece que ele está a elaborar
    sob esta metáfora conceptual,
  245. ou seja, a linguagem é útil
    quando usada em comunicação.
  246. A linguagem não tem valor
    quando não é usada em comunicação.
  247. Leva-nos a pensar: Que fazer
    com as línguas mortas?
  248. Mas, adiante.
  249. Por causa desta ideia,
  250. pode parecer o cúmulo do absurdo
  251. ter um curso Duolingo
    em língua alto valiriana
  252. que eu criei para
    "Guerra dos Tronos" da HBO.
  253. Poderão pensar o que é
    que as 740 000 pessoas estão a aprender.
  254. (Risos)
  255. Vamos ver.

  256. O que é que estão a aprender?
  257. O que é que poderão estar a aprender?
  258. Tendo em atenção que
    a outra língua para isto
  259. é para as pessoas que falam inglês,
  260. estes estão a aprender muito.

  261. Esta é uma frase que, provavelmente,
    nunca usarão para comunicação

  262. durante toda a vida:
  263. "Vala ābre urnes."
  264. "O homem vê a mulher".
  265. A linha do meio é a interpretação,
  266. portanto, é palavra a palavra
    o que ali se diz.
  267. Estão a aprender coisas
    muito fascinantes,
  268. especialmente se falam inglês.
  269. Aprendem que um verbo
    pode ficar no fim duma frase.
  270. Não se faz isso em inglês
    quando temos dois substantivos.
  271. Aprendem que, por vezes,
  272. uma língua não tem equivalente
    para o artigo "o" — está ausente.
  273. É uma coisa que acontece
    nalgumas línguas.
  274. Aprendem que uma vogal longa
    pode ter uma duração mais longa
  275. em oposição a diferente na qualidade,
  276. como acontece
    com as nossas vogais longas:
  277. têm sempre a mesma duração.
  278. Aprendem que há pequenas inflexões.
  279. Hum? Humm?
  280. Há inflexões chamadas "casos"
    no final dos nomes
  281. (Risos)
  282. que nos diz quem faz
    o quê a quem, numa frase.
  283. Mesmo que deixemos a ordem
    das palavras na mesma
  284. mas mudemos as pontas,
  285. isso altera quem faz o quê.
  286. Aprendem que as línguas fazem coisas,
    as mesmas coisas, de forma diferente.

  287. E que aprender línguas pode ser divertido.

  288. Aprendem o respeito
    pela Língua, com letra maiúscula.
  289. E dado que 88% dos americanos
    só fala inglês, em casa,
  290. penso que não é uma coisa má.
  291. Sabem porque é que as línguas
    morrem no nosso planeta?
  292. Não é porque o governo imponha
    uma língua a um grupo mais pequeno
  293. nem porque desapareça
    um grupo inteiro de falantes.
  294. Isso aconteceu no passado
    e está a acontecer hoje,
  295. mas não é a razão principal
  296. A razão principal é que
    nasce uma criança numa família

  297. que fala uma língua que não é
    muito falada na sua comunidade
  298. e essa criança não a aprende.
  299. Porquê?
  300. Porque essa língua não é
    valorizada na sua comunidade.
  301. Porque essa língua não é útil.
  302. Porque a criança não arranjará
    trabalho, se falar essa língua.
  303. Porque se a língua
    é apenas uma ferramenta,
  304. aprender a sua língua nativa
  305. é tão útil como aprender alto valiriano.
  306. Por isso, para quê preocupar-se?
  307. Talvez o estudo duma língua
    não acarrete mais fluência linguística.
  308. Mas talvez isso não seja grande problema.
  309. Talvez, se mais pessoas
    estudassem mais línguas,
  310. isso levasse a uma maior
    tolerância linguística
  311. e a menos imperialismo linguístico.
  312. Talvez que, se respeitarmos
    a língua por aquilo que ela é

  313. — a maior invenção
    da História da Humanidade —
  314. então, no futuro,
  315. possamos celebrar línguas ameaçadas
    como línguas vivas,
  316. e não como peças de museu.
  317. (Em alto valiriano) Kirimvose.
    Obrigado.
  318. (Aplausos)