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5 llengües

Showing Revision 6 created 01/06/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Quantos de vocês já mudaram de opinião
    sobre qualquer coisa em que acreditavam
  2. na última semana?
  3. Levantem as mãos.
  4. Muito bem, vemos logo
    que estamos na TED, não é?
  5. Os estudos não dizem o mesmo,
    mas vamos continuar.
  6. É normal que nos custe mudar de opinião,
  7. e isso deve-se a um gérmen no cérebro,
  8. uma falha na matriz,
  9. um erro de pensamento que causa
    99% das discussões no Twitter
  10. e nove em cada dez discussões
    com o nosso cunhado, no Natal.
  11. (Risos)
  12. É o preconceito da confirmação.
  13. É difícil, eu sei, o que é
    isso de preconceito?
  14. Os preconceitos são defeitos,
    são erros do pensamento.
  15. Utilizamo-los para sermos mais eficazes
  16. e percebermos melhor a realidade,
  17. mas também fazem
    com que ela seja distorcida.
  18. Mas é claro que o preconceito
    da confirmação
  19. é o que tem sempre razão,
    é o rei da coroa.
  20. O preconceito da confirmação
    é que damos muito mais importância
  21. às ideias que confirmam
    as nossas ideias já feitas.
  22. E o nosso cérebro gosta de alimentar-se
    daquilo que já conhece
  23. e rejeita tudo o que
    seja estranho, alheio,
  24. tudo o que desafie as nossas
    ideias prévias.
  25. Assim, meus amigos,
    hoje vamos ver uma batalha épica,
  26. o preconceito da confirmação
    contra o pensamento crítico.
  27. Como em tudo na vida,
    tudo começa com uma história.
  28. Esta é a minha.
  29. Eu fui sempre uma miúda
    um pouco indisciplinada
  30. e, sobretudo, muito perguntadora,
    mas mesmo muito perguntadora.
  31. Recordo que, na escola,
    em todas as disciplinas
  32. eu fazia perguntas, porque
    sempre me custou muito
  33. entender as coisas sem uma explicação.
  34. Por isso, ficava frustrada,
    em muitas ocasiões,
  35. porque muitas vezes, os professores
    respondiam-me às perguntas:
  36. "É assim porque sim" ou
    "Não é assim porque não, e pronto".
  37. Recordo, em concreto, aos oito anos,
    ao preparar-me para a comunhão
  38. — digamos que a minha ideia de Deus
    sempre me foi um pouco incómoda
  39. porque não conseguia entender
  40. como era possível que um homem
    se transformasse em pomba
  41. e como era possível
    que estivesse em toda a parte.
  42. Fazia-me muita confusão,
    não percebia nada.
  43. Quando perguntava,
    a minha catequista respondia:
  44. "Porque é o que a Bíblia diz,
  45. "porque os caminhos do Senhor
    são inescrutáveis"
  46. e esse tipo de coisas que se dizem.
  47. Felizmente, em casa tive mais sorte
    e recordo de, um dia, a minha mãe dizer:
  48. "Não tens de aceitar as coisas
    porque sim ou porque não,
  49. "algumas te satisfarão
    e outras não, e não as aceitarás.
  50. "Quando fores mais velha, perceberás".
  51. Assim, agradeço à minha mãe
    por plantar a semente
  52. do meu pensamento crítico.
  53. Mas, digamos, que essa semente
    não germinou muito bem
  54. e vou contar aqui, mas
    não vou dar mais pormenores.
  55. Não é verdade,
    eu vou dar mais pormenores,
  56. porque viemos aqui
    para contar as vergonhas.
  57. Na adolescência, fui a maior
    defensora da Power Balance.
  58. Se se lembram, era o nome
    da pulseira que dava superpoderes,
  59. melhorava a saúde e tudo isso.
  60. Vivia cheia de alegria,
    era um efeito placebo.
  61. Eu também era a maior defensora
    do "El Secreto".
  62. Não sei se conhecem este livro,
    a Lei da Atração,
  63. que diz que, no final, o universo
    devolve-nos tudo o que damos
  64. e que, se desejarmos muito uma coisa,
    consegui-la-emos.
  65. Pois, eu também era
    esse tipo de defensora.
  66. Durante esses anos obscuros
    da adolescência,
  67. deixei de ser esse tipo de pessoa
    que pensa que, se desejar muito uma coisa,
  68. muito, muito, muito, consegui-la-á,
  69. para ser o tipo de pessoa que pensa
    que, se desejar muito uma coisa,
  70. muito, muito, muito,
    o normal é acabar na fossa
  71. (Risos)
  72. e não acontecerá nada.
  73. O fracasso faz parte da vida
    e não acontece nada.
  74. Então, depois desses anos obscuros,
    amadureci um pouco
  75. e chego à universidade e digo:
    "Vou estudar jornalismo.
  76. "Quero descobrir o que é
    a informação, o que são os dados,
  77. "o que é transmitir as coisas
    com objetividade".
  78. Deceção! Tudo patranhas,
    a objetividade não existe.
  79. Isso aprendemos logo
    na primeira aula de jornalismo.
  80. Todos nós vivemos
    numa realidade enviesada,
  81. enviesada pelas nossas crenças,
  82. pela nossa visão distorcida da realidade,
  83. pelas nossas ideias prévias
    sobre as coisas,
  84. pelos nossos preconceitos.
  85. Não acontece nada.
  86. Durante o curso, aprendi
    que queria contribuir
  87. com um pequeno grão de areia
    para equilibrar um pouco essa balança
  88. tão desequilibrada com
    os nossos preconceitos.
  89. E aí nasceu "A gata de Schrödinger",
  90. um canal de ciência,
    de pensamento crítico,
  91. sem outras pretensões que não fossem
    despertar a curiosidade das pessoas,
  92. sobretudo dos jovens,
  93. e fazê-los pensar um pouco.
  94. Desde que estou mais ativa
    nas redes sociais,
  95. no YouTube e, sobretudo,
    também no Twitter,
  96. apercebi-me de que
    nos temos transformado
  97. em escravos das nossas opiniões.
  98. Somos totalmente escravos na Internet.
  99. Na Internet, tudo funciona
    por grupos, por pacotes ideológicos,
  100. temos de comprar um pacote.
  101. Se ficamos no meio, se discutimos,
    ou se não compramos,
  102. proclamamos, em 280 caracteres,
    que ficamos em terra de ninguém,
  103. quer seja falando de ciência,
    de política, de feminismo,
  104. é tudo igual, os excessos não se vendem.
  105. Não somos feitos para questionar
    o que vem de nós mesmos
  106. e rejeitar tudo o que vem dos outros.
  107. Portanto, aprendemos isso
    e também que ninguém está isento disso.
  108. Como digo, ninguém está isento
    dos seus preconceitos.
  109. Eu venho aqui com um discurso
    em prol do pensamento crítico,
  110. em prol do ceticismo,
  111. mas sou a primeira que,
    se o meu cérebro gosta de qualquer coisa,
  112. compro logo à primeira.
  113. Um exemplo muito claro
    ocorreu já pouco tempo.

  114. Foi uma notícia que saiu
    em todos os meios de comunicação:
  115. "Uma jornalista antivacinas, de 25 anos,
    morre com gripe porcina".
  116. Meu Deus, eu li aquilo.
  117. Os antivacinas são
    o inimigo público nr. 1.
  118. O que é suculento, para o Twitter.
  119. Já me estou a ver a escrever um "tweet":
  120. "Prémio Darwin 2019,
    a seleção natural fez o seu trabalho".
  121. É que apareceu, por todo o lado,
    e todos engolimos aquela notícia.
  122. Mas era falsa, resulta que aquela
    suposta jornalista antivacinas
  123. era um "tweet" fora de contexto
    de há imensos anos
  124. que, certamente, era sarcástico.
  125. A vacina anti gripe porcina
    nem sequer é obrigatória nos EUA.
  126. Ou seja, uma patranha absoluta
    que todos engolimos.
  127. Assim é a vida.
  128. Vivo esta rejeição à primeira
    de ideias diferentes
  129. todos os dias, nas redes sociais.
  130. Tenho um conteúdo que pode afetar
    ou confrontar as ideias ou as crenças
  131. de muita gente, em certas ocasiões.
  132. Por exemplo, no meu último vídeo,
    fui a um congresso sobre a Terra plana
  133. para ouvir, educadamente,
    as opiniões daquelas pessoas
  134. defensoras da teoria da Terra plana,
  135. mas também para contestar um pouco
    a ciência desse congresso
  136. sobre a teoria da Terra plana,
  137. mas fui muito educada.
  138. Os comentários que estão a ver no ecrã
  139. são das últimas horas da conferência
  140. e dizem-me que sou burra, tola,
    não faço a mínima ideia.
  141. Sobretudo, chamou-me a atenção
    um comentário que dizia:
  142. "O lugar das mulheres é na cozinha,
    não é a fazer de cientistas".
  143. (Risos)
  144. Fiquei surpreendida porque não sabia
  145. que os homens das cavernas
    já tinham acesso à Internet.
  146. (Risos)
  147. Fiquei mesmo muito surpreendida.
  148. É uma coisa maravilhosa
    como a tecnologia avançou!
  149. (Aplausos)
  150. Este comportamento
    que pode parecer irracional
  151. ou muito difícil de explicar,
    porque é muito visceral,
  152. tem realmente uma base científica
    que está estudada.
  153. O psicólogo Jonathan Haidt,
    com base em muitos estudos,
  154. tanto psicológicos e neurológicos
    como antropológicos,
  155. chegou a várias conclusões.
  156. A realidade é desanimadora,
  157. a maioria das pessoas
    não procuram a verdade
  158. mas sim reafirmar as suas opiniões.
  159. Por isso, tanto a política,
    como a religião, como tudo,
  160. dividem até as pessoas mais racionais.
  161. A metáfora do elefante e do cornaca
    explica isso muito bem.
  162. Digamos que o elefante é a nossa intuição
    e o cornaca é o raciocínio.
  163. Perante uma nova ideia que surge,
  164. logo nos primeiros segundos,
    o elefante começa a andar numa direção.
  165. Logo nos primeiros segundos
    o elefante toma uma direção
  166. e a única coisa que o cornaca pode fazer
  167. é guiar o elefante nessa direção
    que ele tomou,
  168. justificar e encontrar pretextos
    nessa direção.
  169. Vou dar um exemplo claro,
    sentem-se bem, porque é duro.
  170. Se vos perguntar agora:
  171. Qual é a opinião que têm de dois irmãos
    que têm relações sexuais?
  172. Segundo os estudos,
    isto é um caso real de laboratório
  173. e dizem que, nos primeiros segundos,
  174. o elefante vai à casa de "isso está mal",
    "isso está muito mal",
  175. mas, se eu disser que são duas pessoas
    maiores de idade, que é consentido
  176. e que tomam precauções, ou seja,
    não podem ter descendência,
  177. quais seriam os inconvenientes principais?
  178. Os estudos dizem que,
    por muitas explicações e razões
  179. que dermos ao elefante,
    que a nossa intuição pôs a andar,
  180. a única coisa que o cornaca pode fazer
  181. é guiar esse elefante perdido.
  182. O que é que havemos de fazer?
  183. O poder sabe disto,
  184. o poder sabe como gostamos
    de alimentar as nossas ideias prévias,
  185. como gostamos de comer
    o nosso preconceito de confirmação.
  186. Não é preciso ter teorias da conspiração
    para saber ou acreditar
  187. que, nas últimas eleições nos EUA,
    ou no Brexit,
  188. em certas decisões políticas,
    há empresas de manipulação de dados
  189. como a Cambridge Analítica,
    que não sei se os aplicará,
  190. mas demonstrou-se que utilizaram
    os nossos perfis das redes sociais,
  191. os perfis psicológicos da personalidade,
  192. para nos bombardear com notícias falsas
  193. orientadas para tomarmos
    uma determinada decisão política.
  194. Afetou as decisões do Brexit,
    as campanhas eleitorais dos EUA,
  195. investiu-se mais na propaganda
    nas redes sociais do que na televisão.
  196. Isso dá-nos uma pista
    sobre para onde vai esta tendência.
  197. Já em Espanha, dado o panorama político
    tão candente que temos, será uma quimera?
  198. Não sabemos.
  199. Então, afinal, o que é que podemos fazer?
    Estamos perdidos?
  200. Não, claro que não. Podemos fazer coisas.
  201. Mas o importante é que tenhamos
    consciência do que nos aparecer
  202. e, sobretudo, o que são
    as provas e o que não são.
  203. Também nos afeta a nível da ciência,
  204. como a pseudociência corre pela Internet.
  205. Parece que, embora tenhamos
    todas as informações disponíveis,
  206. o nosso pensamento crítico
    não atua como deveria atuar.
  207. Por isso, os dados dizem-nos
    que uns 25% dos jovens
  208. confiam em pseudoterapias,
    como o "reiki" ou a homeopatia
  209. que causam cerca de 1300 mortes por ano
  210. por se confiar em pseudoterapias,
  211. em vez de confiar na medicina,
    que, essa sim, funciona.
  212. que, essa sim, dá provas.
  213. Isto é um problema
    que atinge muitos níveis.
  214. Então, estamos perdidos?
    Não estamos?
  215. Eu não tenho a solução
    para os problemas do mundo,
  216. mas, a partir do meu grão de areia,
    a partir da divulgação,
  217. o que tento fazer entender
    é que, para começar,
  218. não há respostas para tudo,
  219. que é bom fazermos perguntas
    e, sobretudo, desde pequenos,
  220. não há nada que não possamos perguntar
    e não há nada que fique por responder.
  221. É preciso assumi-lo
    e aprender a conviver
  222. com os vazios do nosso universo.
  223. Também o conhecimento é atraente,
    o conhecimento é o máximo.
  224. Só é preciso envolvê-lo bem.
  225. Eu digo sempre que o meu canal
    é como dar um remédio a um gato.
  226. Pomos a pastilha, envolvemo-la
    em qualquer coia atraente
  227. e, toma lá conhecimento!
  228. (Risos)
  229. Se envolvermos as pessoas,
    elas ficam encantadas,
  230. e os jovens gostam de aprender
  231. Sobretudo, é preciso
    falar-lhes na sua linguagem.
  232. sobretudo os jovens têm de aprender
    que o paradigma mudou.
  233. Claro que é ótimo
    que, na escola e na família,
  234. fomentemos a leitura, ler livros,
    tudo o que quiserem,
  235. mas porque é que não podemos recomendar
    que também vejam um vídeo do YouTube?
  236. Agora mesmo há muita gente
    que faz vídeos de ciência,
  237. de música, de arte, de tudo
    o que uma pessoa gostaria de saber.
  238. Porque não vamos ao nível
    em que eles estão na sua onda
  239. e lhes damos aquilo de que eles precisam?
  240. Gostaria que, quando eu era miúda,
  241. me tivessem dado menos "porque sim"
    e menos "porque não"
  242. e me tivessem explicado as coisas.
  243. Porque, embora achemos
    que as crianças não percebem,
  244. estamos a lançar as sementes
    para elas pensarem pela sua cabeça
  245. e isso é muito importante.
  246. Para terminar, só queria dizer
    que é muito bom escutar os aliados,
  247. é muito bom alimentar o cérebro,
  248. mas o que é interessante
    é escutar os inimigos
  249. porque são eles que atravessam as defesas,
  250. são os que encontram
    os nossos pontos fracos.
  251. Quero saber o que é que falha
    nas ideias em que acredito,
  252. se tenho de mudá-las ou modificá-las.
  253. Não nos iludamos, a batalha
  254. do preconceito da confirmação
    contra o pensamento crítico
  255. está perdida desde o início,
    é essa a realidade.
  256. Mas isso não significa que não seja
    uma batalha que valha a pena travar
  257. porque é a única maneira
    de sermos livres.
  258. Muito obrigada.
  259. (Aplausos)