Portuguese, Brazilian subtítols

← Ninguém se importa com a verdade | Rocío Vidal | TEDxMálaga

Obtén el codi d'incrustació
5 llengües

Showing Revision 82 created 01/27/2020 by Elisa Santos.

  1. Quantos de vocês mudaram de opinião
    sobre algo em que acreditavam
  2. na última semana?
  3. Levantem as mãos.
  4. Muito bem, logo se vê que isso é o TED.
  5. Os estudos não dizem o mesmo,
    mas agora vamos continuar com eles.
  6. É normal que seja difícil mudar de opinião
  7. e isso se deve a um gérmen
    em nosso cérebro,
  8. uma falha na Matrix,
  9. um erro de pensamento
    causador de 99% das discussões no Twitter,
  10. e de 9 em cada 10 discussões
    com o seu cunhado no Natal.
  11. (Risos)
  12. É o viés de confirmação.
  13. Soa difícil, eu sei.
    Que papo é esse de viés?
  14. Os vieses são taras, erros do pensamento.
  15. Afinal, os utilizamos
    para sermos mais eficientes
  16. e entendermos melhor a realidade,
  17. porém, eles também podem distorcê-la.
  18. Mas é claro que o viés de confirmação
    é o mandachuva, é o rei da coroa.
  19. Assim, o viés de confirmação
    é nós aceitarmos muito mais
  20. as ideias que confirmam
    nossas ideias prévias.
  21. Nosso cérebro gosta muito de se alimentar
    daquilo que já conhece
  22. e rejeita muito mais rápido
    tudo que seja estranho, irrelevante,
  23. ou que confronte nossas ideias prévias.
  24. Sendo assim, meus amigos,
    hoje vamos ver uma batalha épica:
  25. o viés de confirmação
    versus o pensamento crítico.
  26. E como tudo na vida,
    tudo começa com uma história,
  27. e esta é a minha.
  28. Eu sempre fui uma menina
    um pouquinho indisciplinada
  29. e, principalmente, muito perguntadora,
    mas muito perguntadora.
  30. Me lembro da escola,
  31. em todas as matérias eu fazia perguntas,
  32. já que sempre tive muita dificuldade
    de entender as coisas sem um raciocínio,
  33. sem explicação,
  34. e, por isso, me frustrava
    em muitas ocasiões.
  35. Porque em muitas ocasiões recebia
    como resposta de meus professores:
  36. "Isso é assim, porque sim" e "isso não é
    assim porque não, e acabou".
  37. Me lembro claramente,
    com oito anos, na catequese...
  38. Digamos que, para mim, a ideia de Deus
    sempre me deixou um pouquinho incomodada.
  39. Não conseguia entender como é possível
    que um homem se transforme em pomba;
  40. como é possível que esteja
    em todos lados e não.
  41. Fazia uma confusão e não entendia nada.
  42. E quando perguntava
    à minha professora de catequese,
  43. me dizia: "Porque está na bíblia,
  44. e os caminhos do Senhor
    são indecifráveis",
  45. e esse tipo de coisa que dizem.
  46. Por sorte, em casa tive mais sorte
    e lembro da minha mãe me dizendo:
  47. "Não tem que aceitar as coisas
    porque sim ou porque não.
  48. Algumas coisas te servirão, outras não.
    E não tem que aceitá-las.
  49. Quando crescer, você vai entender".
  50. Assim, dou graças a minha mãe
  51. por plantar a semente
    do meu pensamento crítico.
  52. Mas digamos que essa semente
    não germinou muito bem,
  53. e vou deixar assim
    e não darei mais detalhes.
  54. Brincadeira, darei mais detalhes,
  55. pois viemos aqui para acabar
    com a vergonha.
  56. Na adolescência, me tornei a maior
    defensora da Power Balance,
  57. que, se vocês se lembram, era o golpe
    da pulseira que dava superpoderes,
  58. melhorava a saúde e tudo mais.
  59. Andava por aí tão alegre.
  60. O que não faz o efeito placebo.
    Minha nossa!
  61. E também era a maior
    defensora do "O Segredo".
  62. Não sei se conhecem o livro
    e o que é a Lei da Atração,
  63. que diz que no final o universo
    te devolve tudo o que dá,
  64. e que se deseja algo
    intensamente você conseguirá.
  65. Pois também era esse tipo de defensora
  66. e, então, durante esses anos
    obscuros da adolescência,
  67. deixei de ser esse tipo de pessoa que acha
    que se deseja algo de forma intensa,
  68. muito, muito intensa,
    no final, conseguirá,
  69. para ser o tipo de pessoa que acha
    que se mentalizar algo intensamente,
  70. muito, muito intensamente,
    o normal é que fique na merda.
  71. E tudo bem.
  72. (Risos)
  73. Tudo bem.
  74. O fracasso faz parte da vida,
    não é nada demais e segue adiante.
  75. Tudo bem.
  76. Então, depois desses anos obscuros,
    amadureci um pouco.
  77. Cheguei à universidade e disse:
    "Eu vou estudar jornalismo,
  78. quero descobrir o que é uma informação,
    o que estão os dados,
  79. o que é transmitir as coisas
    com objetividade".
  80. Decepção! Tudo conversa mole,
    objetividade não existe,
  81. e isso se aprende desde a primeira
    aula de jornalismo.
  82. Todos nós vivemos
    em uma realidade distorcida,
  83. distorcida por nossas crenças,
  84. por nossa visão distorcida da realidade,
  85. por nossas ideias prévias sobre algo
    e por nossos preconceitos.
  86. E tudo bem.
  87. Durante a carreira aprendi que queria
    contribuir com um pequeno grão de areia
  88. para equilibrar um pouco esta balança
    tão desequilibrada com nossas inclinações.
  89. E assim nasceu "La gata de Schrödinger",
    um canal de ciência, pensamento crítico,
  90. sem outra pretensão que não seja despertar
    a curiosidade das pessoas,
  91. principalmente dos jovens,
  92. e fazê-los pensar um pouco.
  93. E desde que estou mais ativa
    nas redes sociais,
  94. YouTube e ainda mais no Twitter também,
  95. me dei conta de que nos convertemos
  96. em escravos de nossas próprias opiniões.
  97. Somos totalmente escravos na internet.
  98. Na internet tudo funciona por grupos,
    por pacotes ideológicos.
  99. Você tem que comprar um pacote.
  100. Se você se interessa um pouco,
    se fica no meio, se discute,
  101. ou se não compra declarações
    reduzidas a 280 caracteres,
  102. você permanece em terra de ninguém,
  103. seja ao falar de ciência, de política,
    de feminismo, dá no mesmo,
  104. os excessos não vendem.
  105. Não fomos feitos para questionarmos
    o que vem dos nossos
  106. e rejeitar de cara tudo que vem do resto.
  107. Então aprende isso, e também
    que ninguém está isento disso.
  108. Como digo, ninguém está isento
    das próprias inclinações.
  109. Venho aqui com um discurso
    pró-pensamento crítico, pró-ceticismo,
  110. mas sou a primeira que, se algo
    agrada ao meu cérebro,
  111. compro de primeira.
  112. Um exemplo muito claro foi algo
    que aconteceu há pouco tempo,
  113. uma notícia que saiu
    em todos os meios de comunicação,
  114. e é: "Jornalista antivacina de 25 anos
    morre de gripe suína."
  115. Nossa senhora! Eu li isso.
  116. E também os antivacina,
    que são o inimigo público número um.
  117. Eu li isso, e é suculento.
  118. As mãos vão ao Twitter,
    e já me vejo tuitando:
  119. "Prêmio Darwin 2019, a seleção natural
    fez o seu trabalho..."
  120. É que veio sozinho, veio fácil,
  121. e todos comemos essa notícia.
  122. E era fake!
  123. Essa jornalista "supostamente" antivacina
    era um tweet antigo fora de contexto,
  124. que certamente era sarcástico.
  125. E a vacina para gripe suína
    nem sequer era obrigatória nos EUA,
  126. ou seja, uma grande mentira,
    e todos nós a comemos com batatas.
  127. A vida é assim.
  128. E vivo isso todos dias, esta recusa
    de primeira às ideias diferentes,
  129. vivo isso todos os dias
    nas minhas redes sociais.
  130. Tenho um conteúdo que pode afetar
    ou confrontar as ideias ou crenças
  131. de muita gente em alguns casos.
  132. Por exemplo, no meu último vídeo,
    fui a um congresso terraplanista,
  133. escutar educadamente as opiniões
    daquelas pessoas
  134. tão fincadas no terraplanismo,
  135. mas também para refutar
    um pouco com a ciência
  136. nesse congresso terraplanista,
  137. mas fui muito educada.
  138. Estes comentários que estão vendo na tela
    são das últimas horas
  139. antes de fazer a apresentação, me disseram
    que não sei de nada, burra, boba...
  140. Me chamou a atenção, principalmente,
    um comentário que dizia:
  141. "O lugar das mulheres é na cozinha,
    e não dando uma de cientistas".
  142. (Risos)
  143. Me surpreendeu muito, pois não sabia
  144. que os homens das cavernas já tinham
    acesso à internet.
  145. (Risos)
  146. Me surpreendeu muitíssimo
  147. como a tecnologia avançou.
  148. Maravilhoso!
  149. (Aplausos)
  150. Maravilhoso!
  151. E este comportamento,
    que pode parecer irracional
  152. ou muito difícil de explicar
    porque é muito visceral,
  153. realmente tem uma base científica
  154. e já foi estudado.
  155. De fato, o psicólogo Jonathan Haidt,
    com base em vários estudos,
  156. tanto psicológicos como neurológicos,
    como antropológicos,
  157. chegou a várias conclusões.
  158. E a realidade é desanimadora.
  159. É que a maioria de nós
    não busca a verdade,
  160. mas sim reafirmar
    nossas próprias opiniões.
  161. Por isso, tanto a política
    como a religião como um todo
  162. dividem até as pessoas mais racionais.
  163. Ele explica muito bem com uma metáfora,
    a metáfora do elefante e do cavaleiro.
  164. Digamos que o elefante seja nossa intuição
    e o cavaleiro seja a razão.
  165. Diante de uma ideia nova que recebemos,
  166. nos primeiros segundos,
  167. nosso elefante já começa
    a andar numa direção.
  168. E isso já nos primeiros segundos
    o elefante toma uma direção,
  169. e então a única coisa
    que o cavaleiro pode fazer
  170. é direcionar um pouco o elefante
    nessa direção que tomou,
  171. justificar e encontrar
    pretextos nessa direção.
  172. Vou apresentar um exemplo claro.
  173. Ajeitem-se na poltrona que isso é difícil.
  174. Se pergunto a vocês agora: "O que acham
    de dois irmãos fazendo sexo?"
  175. Nosso elefante, de acordo com estudos...
  176. Isso é um caso real de laboratório.
  177. Os estudos dizem
    que nos primeiros segundos
  178. o elefante acende o alerta
    do "isso é ruim", "isso é muito ruim".
  179. Mas se digo que são duas pessoas maiores
    de idade, que é consentido,
  180. e que tomam as precauções, isto é,
    que não podem ter descendentes,
  181. que seriam os problemas principais.
  182. Pois os estudos dizem
    que por muitas explicações
  183. e razões que damos externamente,
    uma vez que nosso elefante,
  184. nossa intuição, começou a andar,
    a única coisa que o cavaleiro pode fazer
  185. é conduzir esse elefante perdido.
  186. O que vamos fazer?
  187. E este poder sabe,
  188. o poder sabe como gostamos de alimentar
    nossas ideias prévias,
  189. como gostamos de dar de comer
    ao nosso viés de confirmação.
  190. Não precisar ser conspiratório
    para saber ou acreditar
  191. que nas últimas eleições
    dos EUA ou no Brexit,
  192. em certas decisões políticas,
    há empresas de gerenciamento de dados
  193. como a Cambridge Analytica...
  194. Não sei se lembram,
  195. mas foi demonstrado que utilizaram
    nossos perfis das redes sociais,
  196. os perfis psicológicos da personalidade,
  197. para nos bombardear com fake news
    e boatos direcionados para tomarmos
  198. uma determinada decisão política.
  199. Afetou as decisões do Brexit,
    as campanhas das eleições dos EUA.
  200. Já se investiu mais em propaganda
    nas redes sociais que na televisão,
  201. e isso nos dá uma pista
    de até onde vai esta tendência.
  202. Na Espanha, tendo em vista o panorama
    político tão conturbado que temos,
  203. seria uma ilusão? Não sabemos.
  204. Então, afinal, o que podemos fazer
    em relação a isso?
  205. Estamos muito perdidos?
    Não, claro que não.
  206. Podemos fazer algumas coisas.
  207. Mas o importante é que saibamos ser
    conscientes do que vem até nós
  208. e sobretudo do que é evidência
    e do que não é.
  209. Também nos afeta no campo da ciência,
    os boatos, a pseudociência,
  210. como se espalham pela internet.
  211. Parece que ainda que tenhamos
    todas a informação disponível,
  212. nosso pensamento crítico
    não age como deveria.
  213. Por isso, os dados nos dizem
    que 25% dos jovens
  214. confiam em pseudoterapias
    como Reiki ou homeopatia,
  215. que causam aproximadamente
    umas 1,3 mil mortes ao ano.
  216. Por confiarem em pseudoterapias
  217. em vez da medicina, que sim, funciona,
  218. que sim, tem evidência.
  219. Isso é um problema
    que atinge muitos níveis.
  220. Então, estamos perdidos? Não estamos?
  221. Não tenho a solução
    para os problemas do mundo,
  222. mas desde meu grão de areia,
    desde a divulgação,
  223. o que eu tento fazer com que entendam
  224. é que não há respostas para tudo,
  225. que é bom que nos façamos perguntas
    e, principalmente, desde pequenos,
  226. que não há nada demais fazer perguntas
    e não tem problema em ficar sem responder.
  227. É assim mesmo, tem que assumir,
    e aprender a conviver
  228. com os vazios de nosso universo.
  229. O conhecimento também é atraente.
    O conhecimento é bom!
  230. Só que é preciso envolvê-lo bem.
  231. Sempre digo em meu canal
    que é como dar remédio para um gato,
  232. que põe um comprimido e o envolve
    com algo bastante atraente
  233. e toma-lhe conhecimento!
  234. (Risos)
  235. Quando as pessoas ficam
    bem envolvidas, elas gostam,
  236. e os jovens adoram aprender.
  237. Acima de tudo, tem que falar
    a linguagem deles,
  238. os jovens têm que aprender
    que o paradigma mudou.
  239. Claro que é genial que desde
    a escola às famílias
  240. fomentem a leitura, ler livros,
    tudo o que quiser.
  241. Mas por que não podemos recomendar
    que assistam um vídeo do YouTube?
  242. Agora mesmo tem muita gente
    fazendo vídeos de ciência,
  243. de música, de arte, de tudo
    que uma pessoa gostaria de saber.
  244. Por que não vamos até onde estão
    se sentindo à vontade
  245. e damos a eles o que necessitam?
  246. Queria que quando era pequena
    tivessem me dado menos "porque sim"
  247. e menos "porque não", que tivessem
    me explicado mais.
  248. Porque ainda que achemos
    que as crianças não entendem,
  249. estamos plantando sementes
    para que pensem por si mesmas,
  250. e isso é muito importante.
  251. Para terminar, só queria dizer
    que é muito bom escutar os aliados,
  252. alimentar seu cérebro é muito bom,
    só que o interessante de verdade,
  253. é escutar seus inimigos, porque eles são
    os que ultrapassam suas defesas,
  254. os que encontram seus pontos fracos.
  255. Eu quero saber o que é falho
    nas ideias que acredito,
  256. se tenho que mudá-las
    ou modificá-las, inclusive.
  257. E não vamos nos enganar, a batalha do viés
    de confirmação versus pensamento crítico
  258. está perdida desde o começo,
    essa é a realidade.
  259. Porém, não significa que não seja
    uma batalha pela qual valha a pena lutar,
  260. pois é a única forma de sermos livres.
  261. Muito obrigada.
  262. (Aplausos)