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← Após milhares de milhões de anos de monotonia, o universo está a despertar

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Showing Revision 11 created 05/31/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Estou entusiasmado por vos falar
    desta plataforma de alta tecnologia.
  2. De todos os seres humanos que já viveram
  3. a esmagadora maioria acharia
    que o que fazemos aqui
  4. é incompreensível, incrível.
  5. Porque, durante milhares de séculos,
  6. durante o período obscuro
    anterior à revolução científica
  7. e ao século do Iluminismo,
  8. as pessoas tinham poucas expetativas
  9. para a sua vida
    e para a vida dos seus descendentes.
  10. Em geral, não esperavam alcançar
  11. nada significativamente novo
    ou significativamente melhor.
  12. Este pessimismo aparece
    descrito na Bíblia
  13. numa das poucas passagens bíblicas
    com a indicação de um autor.
  14. Chamava-se Qohelet,
    e é um sujeito enigmático.
  15. E escreveu: "O que aconteceu
    de novo acontecerá
  16. "e o que se fez, de novo será feito.
  17. "Debaixo do Sol não há nenhuma novidade.
  18. "Às vezes ouvimos dizer:
    'Vede, aqui está uma coisa nova!'
  19. "Mas ela já existiu em outros tempos
    muito antes de nós."
  20. Qohelet descreve
    um mundo sem inovação.

  21. Por inovação refiro-me a algo novo,
    dentro da lógica de Qohelet,
  22. não uma coisa que simplesmente mudasse,
  23. mas uma mudança significativa
    com efeitos duradouros,
  24. em que as pessoas diriam:
  25. "Vejam, isto é novo"
  26. e, de preferência, "isto é bom".
  27. As mudanças puramente
    aleatórias não são inovações.
  28. Heráclito disse que um homem não
    pode atravessar o mesmo rio duas vezes,
  29. porque o rio não é o mesmo
    nem o homem é o mesmo.
  30. Mas, mesmo que o rio mude aleatoriamente,
  31. continua a ser o mesmo rio.
  32. Em contrapartida,

  33. se uma ideia numa cabeça
    se espalhar para outras cabeças
  34. e modificar a vida durante gerações,
  35. isso é inovação.
  36. A vida humana sem inovação
  37. é uma vida sem criatividade,
    sem progresso.
  38. É uma sociedade estática,
    um jogo de soma-zero.
  39. Era esse o inferno
    em que Eclesiastes vivia
  40. assim como toda a gente,
    até há uns séculos.
  41. Era um inferno porque, para o Homem,
  42. o sofrimento está ligado
    intimamente à inércia,
  43. porque a inércia não é apenas frustrante.
  44. Todas as causas de sofrimento
  45. — fome, pandemias,
    asteroides em rota de colisão
  46. e coisas como a guerra e a escravidão
  47. — só fazem sofrer as pessoas

  48. enquanto não temos os conhecimentos
    necessários para as evitar.
  49. Há uma história no romance
    "Servidão Humana", de Somerset Maugham,
  50. sobre um sábio da Antiguidade
  51. que resume toda a história da Humanidade
    da seguinte maneira:
  52. "Ele nasceu, sofreu e morreu."
  53. E continua:
  54. "A vida foi insignificante
    e a morte sem consequências."
  55. De facto, a esmagadora maioria
    dos seres humanos que já existiram
  56. tiveram uma vida de sofrimento
    e de trabalho extenuante
  57. antes de morrerem jovens e em agonia.
  58. E sim, na maior parte das gerações
  59. não houve qualquer legado inovador
    para as gerações seguintes.
  60. Apesar disso, quando os povos antigos
    tentaram explicar a sua situação,

  61. fizeram-no habitualmente
    em termos cósmicos grandiosos,
  62. o que foi o mais acertado,
    como se veio a verificar,
  63. embora as suas explicações,
    os seus mitos,
  64. fossem quase sempre falsos.
  65. Uns tentaram explicar
  66. o seu mundo deprimente e monótono
  67. em termos de uma guerra cósmica
    interminável entre o bem e o mal,
  68. em que a Humanidade
    era o campo da batalha,
  69. o que explicava claramente
  70. porque é que a sua experiência
    estava cheia de sofrimento
  71. e porque é que nunca
    ocorrera nenhum progresso.
  72. Mas isso não era verdade.
  73. Curiosamente,

  74. todos os conflitos e o sofrimento
  75. eram devidos à forma como pensavam.
  76. Satisfazerem-se com dogmas,
    e histórias sem justificações,
  77. em vez de as criticar
  78. e de tentar imaginar um meio melhor
    para explicar o mundo e a sua condição.
  79. A Física do século XX
    criou explicações melhores
  80. mas ainda em termos de guerra cósmica.
  81. Desta vez, os combatentes eram
    a ordem e o caos, ou a entropia.
  82. Esta história permite-nos
    ter esperança no futuro.
  83. Mas, por outro lado,
  84. ainda é mais deprimente
    que os mitos da Antiguidade,
  85. porque o vilão, a entropia,
  86. está predestinada a ter a vitória final,
  87. quando as inexoráveis leis
    da termodinâmica acabarem com a inovação
  88. através da alegada
    morte térmica do universo.
  89. Atualmente, há uma história
    de uma batalha local nessa guerra

  90. entre a sustentabilidade, que é a ordem,
  91. e o desperdício, que é o caos
  92. — é essa a visão contemporânea
    de bem e do mal,
  93. muitas vezes com o toque
    de que os humanos são o mal,
  94. e, portanto, nem devíamos tentar vencer.
  95. Recentemente,
  96. surgiram histórias de outra guerra cósmica
  97. entre a gravidade,
    que faz desabar o universo,
  98. e a energia escura,
    que acaba por o desfazer.
  99. Portanto, desta vez,
  100. independentemente da força cósmica
    que sair vencedora,
  101. nós perdemos.
  102. Todas as descrições pessimistas
    da condição humana

  103. contêm alguma verdade,
  104. mas, enquanto profecias,
  105. todas são enganadoras
    e todas elas pela mesma razão.
  106. Nenhuma delas retrata os seres humanos
    como eles são na realidade.
  107. Como disse Jacob Bronowski:
  108. "O homem não é uma figura na paisagem,
  109. "ele é o modelador dessa paisagem."
  110. Por outras palavras,
  111. os seres humanos não são marionetas
    das forças cósmicas,
  112. somos os utilizadores
    das forças cósmicas.
  113. Voltarei a este tópico daqui a pouco,
  114. mas primeiro, o que é que cria a inovação?
  115. O início do universo
    certamente que criou.
  116. O "Big Bang", há cerca
    de 14 mil milhões de anos,

  117. criou o espaço, o tempo e a energia,
  118. tudo o que era físico.
  119. E então, de imediato,
  120. aquilo a que chamo
    a primeira era da inovação,
  121. com o primeiro átomo, a primeira estrela,
  122. o primeiro buraco negro,
  123. a primeira galáxia.
  124. Mas então, num determinado momento,
  125. a inovação desapareceu do universo.
  126. Talvez desde há 12 ou 13
    mil milhões de anos
  127. até aos dias de hoje,
  128. nunca mais tenha havido
    qualquer novo objeto astronómico.
  129. Só tem existido aquilo a que chamo
    a Grande Monotonia.
  130. Portanto, Eclesiastes, por puro acaso,
    tinha ainda mais razão
  131. quanto ao universo para lá do Sol
  132. do que quanto ao que existia
    debaixo do Sol.
  133. Enquanto durar a Grande Monotonia,
  134. o que tem havido lá fora,
  135. continuará a haver.
  136. E não há nada lá fora
    de que possamos dizer:
  137. "Olhem, isto é uma coisa nova."
  138. No entanto, em determinado momento,

  139. durante a Grande Monotonia,
  140. houve um acontecimento
    — sem importância na altura,
  141. e durante milhares de milhões
    de anos depois
  142. em que não afetou nada
    para além do seu planeta —
  143. mas que podia vir a causar
    uma alteração cósmica fundamental.
  144. Esse acontecimento foi a origem da vida:
  145. a criação do primeiro
    conhecimento genético,
  146. a codificação das adaptações biológicas,
  147. a codificação da inovação.
  148. Na Terra, transformou
    radicalmente a superfície.
  149. Os genes no ADN
    de organismos unicelulares
  150. injetaram oxigénio no ar,
  151. extraíram o CO2,
  152. puseram no solo o calcário e o ferro,
  153. não restou um centímetro cúbico
    da superfície ou de profundidade
  154. sem ser afetado por esses genes.
  155. A Terra tornou-se,
    se não num local novo à escala cósmica,
  156. certamente, num local estranho.
  157. Mas, por exemplo, para além da Terra,

  158. só foram detetadas algumas centenas
    de substâncias químicas diferentes.
  159. Presumivelmente, há mais alguns
    em locais sem vida
  160. mas na Terra
  161. a evolução criou milhares
    de milhões de químicos diferentes.
  162. Depois, as primeiras plantas,
    os animais
  163. e depois, nalguma das espécies
    nossas antepassadas,
  164. o conhecimento explicativo.
  165. Pela primeira vez no universo,
    tanto quanto sabemos,
  166. o conhecimento explicativo
    é a adaptação que define a nossa espécie.

  167. É diferente do conhecimento
    não explicativo
  168. no ADN, por exemplo,
  169. porque é universal.
  170. Ou seja, aquilo que pode ser compreendido
  171. pode ser compreendido
    através do conhecimento explicativo.
  172. Mais ainda, qualquer processo físico
  173. pode ser controlado por esse conhecimento,
  174. apenas limitado pelas leis da Física.
  175. Assim, o conhecimento explicativo
  176. também começou a transformar
    a superfície da Terra.
  177. Em breve, a Terra vai tornar-se
    no único objeto conhecido do universo
  178. que afasta os asteroides
    que se aproximam, em vez de os atrair.
  179. Eclesiastes foi enganado,
    compreensivelmente,

  180. pela penosa lentidão
    do progresso, na sua época.
  181. A inovação na vida humana
    era demasiado rara, demasiado gradual,
  182. para poder ser detetada numa só geração.
  183. Na biosfera,
  184. a evolução de espécies novas
    ainda era mais lenta.
  185. Mas ambas as coisas ocorriam.
  186. Porque é que existe grande monotonia
    no universo, de forma geral,

  187. e o que é que faz com que
    o nosso planeta fure essa tendência?
  188. O universo, de forma geral,
    é relativamente simples.
  189. As estrelas são tão simples
  190. que podemos prever o seu comportamento
    daqui a milhares de milhões de anos
  191. e descrever como se formaram
    há milhares de milhões de anos.
  192. Então, porque é o universo tão simples?
  193. Basicamente, é porque as coisas
    grandes, maciças, poderosas
  194. afetam profundamente
    as coisas mais pequenas,
  195. mas o contrário não.
  196. Chamo a isso a regra hierárquica.
  197. Por exemplo, quando um cometa
    atinge o Sol,
  198. o Sol continua como dantes,
  199. mas o cometa vaporiza-se.
  200. Pela mesma razão,
  201. as coisas grandes não ficam muito afetadas
    por pequenas partes de si mesmas,
  202. ou seja, por pormenores.
  203. O que significa
    que o seu comportamento geral
  204. é simples.
  205. E como nada de muito novo
    pode acontecer às coisas
  206. que se mantêm simples,
  207. a regra hierárquica, com essa
    simplicidade em grande escala,
  208. provocou a Grande Monotonia.
  209. Mas o que nos salva
  210. é que a regra hierárquica
    não é uma lei da Natureza.
  211. Acontece ter-se mantido
    até hoje no universo,
  212. exceto aqui.
  213. Na nossa biosfera, objetos
    do tamanho de moléculas, os genes,

  214. controlam recursos vastamente
    desproporcionados.
  215. Os primeiros genes para a fotossíntese,
  216. ao causarem a sua própria proliferação,
  217. e transformando a superfície do planeta,
  218. violaram ou inverteram
    a regra hierárquica
  219. pelo fator revolucionário
    de 10 elevado à potência 40.
  220. O conhecimento explicativo
    é potencialmente muito mais poderoso
  221. por causa da universalidade
  222. e criado mais rapidamente.
  223. Quando o conhecimento humano
  224. atingir um fator de 10
    elevado à potência 40,
  225. controlará praticamente
    toda a galáxia
  226. e estará a olhar para além dela.
  227. Os seres humanos

  228. e quaisquer outros criadores explicativos
    que possam existir por aí
  229. são os supremos agentes
    da inovação para o universo.
  230. Nós somos a razão e os meios
  231. pelos quais a inovação e a criatividade,
    o conhecimento, o progresso
  232. podem ter efeitos físicos
    objetivos, de grande escala.
  233. Duma perspetiva humana,
  234. a única alternativa
    para esse inferno de sociedades estáticas
  235. é a criação contínua de novas ideias,
  236. de comportamentos,
    de novos tipos de objetos.
  237. Este robô em breve estará obsoleto,
  238. graças ao progresso,
    ao novo conhecimento explicativo.
  239. Mas, duma perspetiva cósmica,

  240. o conhecimento explicativo
    é o castigo da regra hierárquica.
  241. É o destruidor da Grande Monotonia.
  242. Assim, é o criador
    da próxima era cosmológica,
  243. o Antropoceno.
  244. Se podemos falar duma guerra cósmica,
  245. não é a retratada
    nas histórias pessimistas.
  246. É uma guerra entre a monotonia
    e a inovação,
  247. entre o marasmo e a criatividade.
  248. Nesta guerra,
  249. o nosso lado não está destinado a perder.
  250. Se optarmos por aplicar a nossa capacidade
    única de criar conhecimento explicativo,
  251. podemos ganhar.
  252. Obrigado.

  253. (Aplausos)