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← Adam Kucharski sobre o que deve, e o que não deve, nos preocupar em relação ao coronavírus

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Showing Revision 55 created 04/10/2020 by Maricene Crus.

  1. Olá, sou Chris Anderson.
    Bem-vindo ao The TED Interview.
  2. Estamos preparando a sessão quatro
    com convidados extraordinários,
  3. mas não quero esperar por ela
    para o episódio de hoje
  4. porque estamos em meio a uma pandemia
  5. e tenho um convidado com quem
    realmente quero conversar agora.
  6. Adam Kucharski,

  7. um pesquisador de doenças contagiosas
  8. que se concentra na modelagem
    matemática de pandemias.
  9. É professor associado da London School
    of Hygiene and Tropical Medicine
  10. e TED Fellow.
  11. (Música)

  12. (TED Talk) Adam Kucharski:
    Quais comportamentos

  13. são realmente importantes em uma epidemia?
  14. Conversas, contato físico?
  15. Que tipo de dados deveríamos
    coletar antes de um surto,
  16. se queremos prever
    como a infecção pode se espalhar?
  17. Para descobrir isso, nossa equipe
    constrói um modelo matemático.
  18. Chris Anderson: Quando se trata
    de ter uma opinião sobre essa pandemia,

  19. conhecida tecnicamente como COVID-19
  20. e informalmente como coronavírus,
  21. acho o pensamento dele incrivelmente útil.
  22. E estou empolgado
    por mergulhar nisso com você.
  23. Peço atenção especial
    dos meus amigos do Twitter
  24. que sugeriram várias perguntas.
  25. Sei que esse tópico
    está na mente de todos.
  26. Espero que este episódio nos dê
    uma visão mais detalhada
  27. para pensarmos sobre como essa pandemia
    se desenrolou até agora,
  28. o que ainda pode vir
  29. e o que podemos fazer
    a respeito, coletivamente.
  30. Vamos lá.
  31. (Música)

  32. Adam, bem-vindo ao The TED Interview.

  33. Adam Kucharski: Obrigado.

  34. CA: Vamos começar com o básico.

  35. A reação de muitas pessoas céticas,
  36. nas últimas semanas com certeza,
    talvez menos, agora,
  37. tem sido: "Ah, não é tudo isso,
    temos relativamente poucos casos,
  38. comparado com a gripe,
    com qualquer outra coisa.
  39. Temos problemas bem maiores no mundo.
  40. Por que tanto alvoroço quanto a isso?"
  41. E a resposta para isso
    se resume a cálculos.
  42. Falamos basicamente sobre cálculos
    de crescimento exponencial, certo?
  43. AK: Exato.

  44. Usamos um número para termos uma ideia
    da facilidade com que o vírus se espalha
  45. e o nível de transmissão
    com que estamos lidando.
  46. É o chamado "número de reprodução"
    que, conceitualmente, é:
  47. quantas pessoas são infectadas,
    em média, para cada caso.
  48. Isso nos dá uma ideia
    de como a infecção cresce,
  49. como vai ser esse crescimento.
  50. Para o coronavírus,
    vemos isso em diversos países,
  51. cada pessoa transmite, em média,
    para duas ou três outras.
  52. CA: Em relação ao número de reprodução,

  53. a primeira coisa é entender
    que qualquer valor acima de um
  54. significa que o surto vai aumentar.
  55. Qualquer valor abaixo de um
    quer dizer que vai diminuir.
  56. AK: Exato, se for acima de um,

  57. cada grupo de pessoas infectadas
  58. gera mais infecções do que havia antes.
  59. E veremos o efeito exponencial:
  60. se for dois, a cada ciclo
    dobraremos o número de infectados
  61. e, se for menor do que um,
    na média, vai diminuir.
  62. CA: Com um valor igual a dois ou maior,

  63. acho que todos conhecem a famosa história
  64. do tabuleiro de xadrez
    e os grãos de arroz:
  65. se dobrarmos o número de grãos
    em cada casa do tabuleiro,
  66. nas primeiras 10 ou 15 casas
    não acontece muita coisa,
  67. mas, na 64º casa,
  68. teremos toneladas de arroz
    para cada pessoa no planeta.
  69. O crescimento exponencial é algo incrível.
  70. E na verdade não devemos prestar atenção
    aos números baixos que temos agora,
  71. mas sim aos modelos do que está por vir.
  72. AK: Exato.

  73. Obviamente, se continuarmos
    com o crescimento exponencial,
  74. podemos chegar a números
    incrivelmente grandes.
  75. Mas, mesmo observando as projeções
    para daqui a um mês,
  76. se o número de reprodução for três,
    cada pessoa infecta três outras, na média,
  77. a diferença entre esse ciclos
    de infecção é de cerca de cinco dias.
  78. Então imagine que surja um caso agora,
  79. em um mês temos seis
    desses ciclos de cinco dias.
  80. Ao final do mês,
  81. essa pessoa pode ter gerado
  82. cerca de 729 casos.
  83. Então, mesmo em um mês,
  84. a escala de transmissão pode disparar,
    se não for controlada.
  85. CA: E isso parece acontecer na maioria
    dos números que analisamos agora,

  86. quando o vírus está
    nos estágios iniciais em um país.
  87. Você mostrou um modelo
    através do qual podemos entender
  88. mais claramente esse número de reprodução,
  89. e me parece que essa é a essência
    da forma como pensamos sobre o vírus,
  90. como reagimos a ele
    e o quanto devemos temê-lo.
  91. No seu raciocínio,
  92. você o separou em quatro componentes,
  93. que chamou de DOTS:
  94. Duração, Oportunidades,
  95. probabilidade de Transmissão
  96. e Suscetibilidade.
  97. Seria realmente útil
    explicar cada um deles,
  98. porque há uma equação bem simples
  99. que vincula esses quatro componentes
    ao número de reprodução.
  100. Fale sobre eles.
  101. Duração, o que isso significa?
  102. AK: Duração é o tempo pelo qual
    uma pessoa pode infectar outras.

  103. Intuitivamente,
  104. se uma pessoa pode infectar outra
    por um período maior,
  105. vamos dizer, duas vezes mais que outra,
  106. ela espalha a infecção
    pelo dobro do tempo.
  107. CA: E qual é a estimativa
    de duração desse vírus

  108. comparado com a gripe ou outros patógenos?
  109. AK: Depende um pouco do que acontece
    enquanto uma pessoa pode infectar outras.

  110. Se ela for isolada rapidamente,
    esse tempo diminui,
  111. mas consideramos que ela infecta
    outras por cerca de uma semana,
  112. antes de ser isolada no hospital.
  113. CA: E ela pode nem apresentar sintomas

  114. durante a semana inteira, certo?
  115. Uma pessoa é infectada,
    há um período de incubação.
  116. Durante esse período,
  117. ela passa a infectar outras,
  118. e pode haver um período posterior
    em que ela apresenta sintomas,
  119. e não está claro como essas datas
    se encaixam, certo?
  120. AK: Não, estamos buscando mais informação.

  121. Um dos sinais que vemos nos dados,
  122. que sugere que ocorre transmissão precoce,
  123. é o intervalo que há
    entre uma infecção e outra.
  124. Isso parece ser cerca de cinco dias.
  125. O período de incubação,
    o tempo para os sintomas aparecerem,
  126. também é de cinco dias.
  127. Se a maioria das pessoas infecta as outras
    quando está assintomática,
  128. temos o período de incubação mais o tempo
    em que elas infectam outras pessoas.
  129. O fato de esses valores
    parecerem similares
  130. sugere que algumas pessoas transmitem
  131. muito no início ou possivelmente
    antes de apresentarem sintomas claros.
  132. CA: Isso quase significa que, na média,

  133. as pessoas infectam outras
  134. tanto antes quanto depois
    de apresentarem sintomas.
  135. AK: Possivelmente.

  136. Obviamente são dados iniciais,
  137. mas há boas evidências
    de que um número considerável de pessoas,
  138. antes de apresentarem sintomas claros
  139. ou quando ainda não apresentam
    febre e tosse, mas se sentem mal,
  140. espalham vírus durante esse período.
  141. CA: Isso é bem diferente
    da gripe, por exemplo?

  142. AK: Na verdade, nesse aspecto,
    é similar à gripe.

  143. Uma das razões para a gripe pandêmica
    ser tão difícil de controlar e tão temida
  144. é porque muitas transmissões ocorrem
    antes de a pessoa estar seriamente doente.
  145. Ou seja, quando identificamos um caso,
  146. essa pessoa provavelmente
    já infectou inúmeras outras.
  147. CA: Esse é o truque deste vírus,

  148. e explica por que é tão difícil
    fazer algo a respeito.
  149. O vírus está adiante de nós o tempo todo,
  150. e não podemos simplesmente prestar atenção
  151. em como alguém se sente
    ou o que está fazendo.
  152. A propósito, como isso acontece?
  153. Como uma pessoa infecta outra
  154. antes mesmo de apresentar sintomas?
  155. Normalmente pensamos
    que uma pessoa espirra,
  156. gotículas se espalham pelo ar,
    outra pessoa as inala,
  157. e a infecção acontece.
  158. O que realmente acontece para infectar
    antes de apresentar sintomas?
  159. AK: O nível de transmissão desse vírus

  160. não é o mesmo, por exemplo, do sarampo,
  161. em que alguém espirra,
    muitos vírus são expelidos,
  162. e muitas pessoas suscetíveis
    podem ser expostas a eles.
  163. Logo no início, mesmo que os sintomas
    sejam bem leves, talvez um pouco de tosse,
  164. é suficiente para expelir alguns vírus,
  165. e parte do nosso trabalho
    foi tentar analisar reuniões íntimas,
  166. refeições em que as pessoas estão
    muito próximas, como em uma cabana,
  167. e, mesmo nessas situações,
    alguém pode estar levemente doente,
  168. mas espalhar vírus suficiente
    e, de alguma forma, expor os outros;
  169. ainda não sabemos exatamente como,
  170. mas isso é suficiente
    para causar infecção.
  171. CA: Mas se alguém está levemente doente,
    ainda não apresenta sintomas?

  172. Não há evidências de que, mesmo antes
    de saberem que estão doentes,
  173. algo esteja acontecendo?
  174. Um artigo alemão publicado esta semana
  175. sugere que, mesmo bem no início,
  176. se passarmos um cotonete
    no fundo da garganta de alguém,
  177. centenas de milhares desses vírus
    já estão se reproduzindo lá.
  178. É possível alguém estar
    respirando normalmente
  179. e transmitindo alguns vírus pelo ar,
  180. sem nem saber,
  181. que vão infectar as pessoas diretamente
    ou se instalar em superfícies?
  182. AK: Estamos tentando definir
    o quanto isso [inaudível].

  183. Como você disse, há evidências
    de que pessoas sem sintomas
  184. podem estar com o vírus na garganta.
  185. Então, com certeza, ele pode ser exalado,
  186. mas será que esse é um evento muito raro
    para que a transmissão real ocorra
  187. ou vemos mais infecções
    ocorrerem dessa forma?
  188. São dados muito iniciais,
    essa é uma peça do quebra-cabeça,
  189. mas estamos tentando descobrir
    como se encaixa com o que sabemos
  190. sobre outros tipos de transmissão.
  191. CA: Certo, então duração é
    a duração do período de transmissão.

  192. Achamos que é de cinco a seis dias, certo?
  193. AK: Possivelmente uma semana,

  194. depende do que acontece às pessoas
    que estão no período infeccioso.
  195. CA: E há pessoas com teste positivo

  196. muito depois de serem infectadas.
  197. Pode ser verdade, mas provavelmente
    não infectavam tanto, na época.
  198. Está correto pensar assim?
  199. AK: Estamos trabalhando com essa teoria,

  200. de que grande parte
    da infecção ocorre no início.
  201. Vemos isso para várias
    infecções respiratórias,
  202. quando as pessoas ficam
    gravemente doentes,
  203. o comportamento delas é muito diferente
    de quando podem andar por aí normalmente.
  204. CA: E comparando esse número D
    com o de outros casos, como a gripe,

  205. eles são semelhantes?
  206. Qual é o número D da gripe?
  207. AK: Para a gripe provavelmente
    é um pouco menor

  208. em termos do período em que as pessoas
    transmitem ativamente o vírus.
  209. A gripe passa muito rápido
  210. de um caso para o outro, na verdade.
  211. Possivelmente cerca de três dias
    para infectar outra pessoa.
  212. No outro extremo da escala,
    temos coisas como as DSTs,
  213. em que a duração pode ser de vários meses.
  214. CA: Certo.

  215. Bem, realmente nada tão incomum até agora,
    em termos desse vírus em particular.
  216. Vamos olhar para o O, oportunidade.
  217. O que é isso?
  218. AK: Oportunidade mede

  219. quantas chances o vírus tem
    para se propagar através de interações
  220. no período infeccioso de uma pessoa.
  221. É uma medida típica
    de comportamento social.
  222. Quantos contatos sociais
    as pessoas fazem, em média,
  223. que criam oportunidades de transmissão
    durante o período infeccioso?
  224. CA: Então, é o número de pessoas
    das quais você se aproximou o suficiente,

  225. durante um determinado dia,
  226. para ter a chance de infectá-las.
  227. E esse número,
  228. em um ambiente urbano normal,
    se as pessoas não tomarem precauções,
  229. pode chegar a centenas?
  230. AK: É possível, para algumas pessoas.

  231. Fizemos vários estudos
    analisando isso nos últimos anos,
  232. e a média, em termos de contato físico,
    é de cerca de cinco pessoas por dia.
  233. A maioria das pessoas tem conversas
    ou contato com cerca de 10 a 15 pessoas,
  234. mas as saudações físicas
    variam muito em cada cultura.
  235. CA: E posso presumir que, para esse vírus,

  236. esse número não é diferente
    do que para qualquer outro.
  237. Essa é apenas uma característica
    da vida que vivemos.
  238. AK: Para esse número,

  239. se é afetado por esse tipo de interação,
  240. e já vimos isso para a gripe
    e outras infecções respiratórias,
  241. as interações físicas cotidianas
    e os contatos muito próximos
  242. parecem ser os mais importantes
    para a transmissão.
  243. CA: Talvez haja uma diferença.

  244. O fato de uma pessoa infectar outras
    antes de apresentar sintomas
  245. pode significar que nesse caso
    haja mais oportunidades.
  246. Isso faz parte da "personalidade"
    desse vírus, por assim dizer.
  247. Por não deixar transparecer
    que está em alguém,
  248. as pessoas continuam a interagir,
    a ir para o trabalho,
  249. a pegar o metrô e assim por diante,
    sem nem saber que estão doentes.
  250. AK: Exato.

  251. E no caso da gripe, quando as pessoas
    ficam claramente doentes,
  252. seus contatos sociais diminuem.
  253. Portanto, um vírus que pode ser infeccioso
  254. enquanto as pessoas vivem seu dia a dia,
  255. realmente tem uma vantagem
    em termos de transmissão.
  256. CA: Na sua modelagem,

  257. o número de oportunidades
    é maior que o da gripe?
  258. AK: No momento,
    usamos valores semelhantes,

  259. então tentamos observar, por exemplo,
  260. contatos físicos em diferentes populações.
  261. Mas estamos aumentando o risco.
  262. Então, chegamos ao termo T.
  263. Entre cada contato,
  264. qual o risco de ocorrer
    um evento de transmissão?
  265. CA: Tudo bem, vamos para o próximo número,

  266. a probabilidade de transmissão T.
  267. Como você define isso?
  268. AK: Esse número mede, basicamente,

  269. a chance de o vírus se espalhar
  270. durante uma oportunidade
    ou interação específica.
  271. Pode-se ter uma conversa com alguém
  272. sem tossir ou espirrar
  273. ou na qual, por algum motivo,
    o vírus não se espalha
  274. e não expõe a outra pessoa.
  275. Como mencionei, digamos que as pessoas
    têm dez conversas por dia,
  276. mas não vemos uma pessoa infectar
    dez outras por dia com este vírus.
  277. Isso sugere que nem todas
    essas oportunidades
  278. resultam na disseminação do vírus.
  279. CA: Mas dizem que é um vírus infeccioso.

  280. Como é esse número
    de probabilidade de transmissão
  281. comparado, por exemplo, com o da gripe?
  282. AK: Em algumas análises observamos
    as interações muito próximas.

  283. Analisamos cerca de dez
    estudos de caso diferentes
  284. e descobrimos que um terço desses contatos
    foram infectados no estágio inicial,
  285. quando as pessoas não sabiam
    que estavam doentes.
  286. Portanto, nessas refeições
    em grandes grupos,
  287. cada contato teria, potencialmente,
    cerca de uma chance em três
  288. de ser exposto.
  289. Para a gripe sazonal,
    que tende a ser um pouco menor,
  290. mesmo em residências e ambientes fechados,
  291. os números não são
    necessariamente tão altos.
  292. Mesmo para a SARS,
  293. o risco por interação
  294. era menor do que constatamos
    para o coronavírus.
  295. O que intuitivamente faz sentido,
    deve haver um risco maior por interação,
  296. se ele se espalha tão facilmente.
  297. Certo, e a quarta letra do DOTS

  298. é o S, de suscetibilidade.
  299. O que é isso?
  300. AK: Essa é a medida da proporção
    da população suscetível ao vírus.

  301. Imagine que ocorrem interações,
  302. um vírus se espalha,
    pessoas são expostas a ele,
  303. mas algumas pessoas
    podem ter sido vacinadas
  304. ou ter alguma imunidade
  305. e não desenvolvem a infecção
    nem infectam outras pessoas.
  306. Portanto, temos que levar em conta
    essa potencial proporção de pessoas
  307. que não se transformam em casos.
  308. CA: Obviamente, ainda não há
    vacina para o coronavírus,

  309. e, pelo menos até onde sabemos,
    inicialmente ninguém está imune.
  310. Você está modelando um valor bem alto
    para esse número de suscetibilidade,
  311. isso é parte do problema?
  312. AK: Sim, a evidência é de que populações
    são totalmente suscetíveis,

  313. e, mesmo em áreas
    como a China, por exemplo,
  314. onde houve muita transmissão, mas houve
    medidas de controle muito fortes,
  315. estimamos que, ao final de janeiro,
  316. cerca de 95% da população de Wuhan
    ainda era suscetível ao vírus.
  317. Portanto, houve muita infecção,
    mas isso não afetou muito o DOTS,
  318. os quatro componentes
    que impulsionam a transmissão.
  319. CA: O modo como o cálculo funciona,

  320. devo confessar
  321. que, em meio ao estresse
    de toda essa situação,
  322. meu lado nerd ama
    a elegância da matemática,
  323. nunca pensei nisso dessa forma,
  324. mas basicamente
    multiplicamos esses números
  325. para obter o número de reprodução.
  326. É isso?
  327. AK: Sim, praticamente trilhamos o caminho
    da infecção durante a transmissão

  328. ao multiplicar esses números,
  329. e obtemos o número de reprodução do vírus.
  330. CA: E isso é muito lógico.

  331. É o número de dias em que você
    pode infectar outras pessoas,
  332. e o número de pessoas, em média,
  333. que você tem oportunidade
    de infectar durante esses dias.
  334. Multiplicamos isso
    pela probabilidade de transmissão,
  335. ou seja, a probabilidade de o vírus
    se instalar nessas pessoas, como disse.
  336. E então multiplicar
    pelo número de suscetibilidade.
  337. Nesse caso, qual você acha que é
    a probabilidade de suscetibilidade?
  338. AK: Podemos assumir que é de quase 100%

  339. em termos de propagação.
  340. CA: Certo, multiplicamos esses números

  341. e, hoje, para o coronavírus,
  342. dois a três é o número mais plausível,
  343. e significa um crescimento muito rápido.
  344. AK: Exato, nesses surtos não controlados,

  345. e vemos vários países neste estágio,
  346. esse crescimento realmente é rápido.
  347. CA: E como essa estimativa
    de dois a três se compara à gripe?

  348. A gripe sazonal deve ter uma estimativa,
    quando se espalha no inverno,
  349. que cai bem abaixo de um
    em outras épocas do ano,
  350. para o número de reprodução.
  351. Mas qual é a estimativa durante
    o período de gripe sazonal?
  352. AK: No início da temporada da gripe,

  353. provavelmente acharemos
    algo entre 1,2 e 1,4.
  354. Não é incrivelmente transmissível,
  355. se imaginarmos que a população
    tem alguma imunidade pela vacinação
  356. e outras coisas.
  357. Portanto, pode se espalhar,
    está acima de um,
  358. mas não necessariamente dispara
    tão rapidamente quanto o coronavírus.
  359. CA: Quero voltar a dois desses elementos,

  360. a oportunidade e a
    probabilidade de transmissão,
  361. porque eles parecem ter
  362. mais chance de realmente agir
    sobre a taxa de infecção.
  363. Antes disso, vamos falar
    sobre outro número-chave,
  364. que é a taxa de mortalidade.
  365. Antes de tudo,
  366. há duas versões diferentes
    da taxa de mortalidade
  367. que talvez confundam as pessoas.
  368. Você poderia defini-las?
  369. AK: O que é frequentemente conhecido
    como taxa de mortalidade

  370. é a proporção dos casos com sintomas
  371. que se tornam fatais.
  372. Às vezes também falamos sobre
    a taxa de mortalidade da infecção,
  373. ou seja, de todos os infectados,
    independentemente dos sintomas,
  374. quantos se tornarão fatais.
  375. Mas a maioria dos valores que vemos
    é a taxa de mortalidade de casos.
  376. CA: Então, qual é a taxa
    de mortalidade deste vírus

  377. e, novamente, como isso se compara
    a outros patógenos?
  378. AK: Alguns números estão surgindo.

  379. Um dos desafios em tempo real é que
    muitas vezes não vemos todos os casos,
  380. há pessoas sintomáticas
    que não são reportadas.
  381. E também há um atraso.
  382. Por exemplo, se 100 pessoas compareceram
    a um hospital com coronavírus
  383. e nenhuma morreu ainda,
  384. não significa que a taxa
    de mortalidade é zero;
  385. precisamos esperar
    pelo que vai acontecer a elas.
  386. Quando ajustamos
    a subnotificação e o atraso,
  387. a melhor estimativa para a mortalidade
    dos casos é de cerca de 1%.
  388. Portanto, em média, cerca de 1%
    das pessoas com sintomas
  389. têm um resultado fatal.
  390. E isso deve ser dez vezes pior
    que a gripe sazonal.
  391. CA: É uma comparação assustadora

  392. dado o número de pessoas
    que morrem de gripe.
  393. Quando a Organização Mundial da Saúde
    mencionou um número mais alto,
  394. de 3,4%, há pouco tempo,
  395. foi criticada.
  396. Explique por que isso pode ter
    desorientado as pessoas,
  397. e como pensar e se ajustar a isso.
  398. AK: É muito comum as pessoas
    olharem esses números brutos,

  399. analisarem quantos casos
    e quantas mortes temos até agora,
  400. e considerarem essa proporção.
  401. Mesmo há algumas semanas,
    esse número era 2%.
  402. Mas, se considerarmos o efeito do atraso,
  403. mesmo que não surjam novos casos,
  404. ainda ocorrerão resultados fatais
    ao longo do tempo,
  405. que podem aumentar esse número.
  406. Isso ocorreu em todas as epidemias,
    da gripe pandêmica ao Ebola,
  407. vemos isso constantemente.
  408. Alertei várias pessoas
    de que esse número aumentará,
  409. à medida que os casos na China diminuírem,
    parecerá que estão aumentando,
  410. mas é só uma particularidade estatística.
  411. Não há nada por trás disso,
  412. não estão ocorrendo
    mutações ou algo assim.
  413. CA: Se entendi bem,
    há dois efeitos em andamento.

  414. Um é que o número de mortes
    dos casos existentes aumentará,
  415. o que na verdade elevará
    ainda mais esses 3,4%.
  416. Mas devemos compensar isso
    com o fato de que, aparentemente,
  417. um grande número de casos
    passou despercebido
  418. e, devido a falhas na testagem,
  419. o número de mortes
  420. provavelmente reflete um número
    prévio de casos muito maior, certo?
  421. AK: Exato, temos algo
    que eleva esse número

  422. e algo que o diminui.
  423. Significa que, se as estimativas iniciais
    só forem ajustadas em relação ao atraso
  424. sem pensarmos nos casos não relatados,
  425. começamos a ter números
    realmente muito assustadores.
  426. Podemos chegar a 20%, 30%,
  427. o que realmente não se enquadra
    no que sabemos sobre esse vírus em geral.
  428. CA: Certo.

  429. Há muito mais dados agora.
  430. Do seu ponto de vista,
    a taxa de mortalidade provável,
  431. pelo menos no estágio inicial
    de uma infecção,
  432. é de cerca de 2%?
  433. AK: No geral, podemos pensar
    em algo na faixa de 0,5% a 2%,

  434. e isso está em vários
    conjuntos de dados diferentes.
  435. Isso para pessoas que apresentam sintomas.
  436. Em média, 1% é um bom número
    para se trabalhar.
  437. CA: Certo, 1%.

  438. Para a gripe, costuma ser 0,1%,
  439. então, essa doença é de cinco a dez vezes
    mais perigosa que a gripe.
  440. E esse perigo não é simétrico
    entre as faixas etárias, como se sabe.
  441. Afeta principalmente os idosos.
  442. AK: Sim, na média é 1%,

  443. mas, para pessoas com mais de 60, 70,
    esse número realmente dispara.
  444. Estimamos que nos grupos
    de maior faixa etária
  445. haja 5%, talvez 10% de mortalidade.
  446. Além disso, claro, precisamos
    considerar os casos graves
  447. e as pessoas que precisarão
    de hospitalização.
  448. E esses riscos aumentam muito
    nos grupos de maior faixa etária.
  449. CA: Adam, junte esses números para nós.

  450. Nos seus modelos, se você considerar
    uma taxa de reprodução de 2% a 3%
  451. e uma taxa de mortalidade de 0,5% a 1%
  452. e executar a simulação,
  453. como ela será?
  454. AK: Se temos uma transmissão descontrolada
    e número de reprodução de 2% ou 3%

  455. e não fazemos nada a respeito,
  456. a única maneira de o surto terminar
  457. é com um número suficiente de pessoas
    contraindo a doença,
  458. a imunidade geral aumenta,
  459. e o surto acabar por conta própria.
  460. Nesse caso, espera-se que uma parcela
    muito grande da população seja infectada.
  461. É o que vemos
  462. em muitos outros surtos não contidos,
  463. que basicamente
    se espalham pela população,
  464. e um grande número de pessoas
    são infectadas.
  465. Com taxas de mortalidade
    e de hospitalização como essas,
  466. seria realmente muito prejudicial
    se isso ocorresse.
  467. Nacionalmente,
  468. e a Itália é um bom exemplo no momento,
  469. se temos uma transmissão inicial
    não detectada e um crescimento tão rápido,
  470. o sistema de saúde rapidamente
    fica sobrecarregado.
  471. Um dos aspectos
    mais desagradáveis deste vírus
  472. é que, por haver esse tempo
    entre a infecção, os sintomas
  473. e o comparecimento das pessoas
    às unidades de saúde,
  474. se o sistema de saúde está sobrecarregado,
  475. mesmo que se interrompa
    completamente a transmissão,
  476. já temos todas as pessoas
    que foram expostas,
  477. então ainda aparecerão casos,
    e alguns deles graves,
  478. por mais algumas semanas.
  479. Esse enorme acúmulo
    de infecções e sobrecarga
  480. acaba atingindo a população
    através do sistema de saúde.
  481. CA: Então, na verdade,
    há outro número-chave:

  482. como se relaciona o número total de casos
  483. à capacidade do sistema de saúde
    de um país para processar todos eles?
  484. Isso deve fazer uma enorme diferença
    na taxa de mortalidade,
  485. pessoas chegando com uma doença grave
  486. em um sistema de saúde capaz de atender
    ou em um sobrecarregado.
  487. A taxa de mortalidade será
    muito diferente nesse aspecto.
  488. AK: Se alguém precisar um leito de UTI,
    vai ocupá-lo por algumas semanas

  489. e há mais casos entrando no sistema,
  490. então a situação fica
    muito difícil rapidamente.
  491. CA: Fale sobre a diferença
    entre contenção e mitigação.

  492. São termos diferentes
    sobre os quais temos ouvido falar muito.
  493. Nos estágios iniciais do vírus,
    os governos estão focando a contenção.
  494. O que isso significa?
  495. AK: Contenção é a ideia

  496. de que podemos concentrar os esforços
    no controle dos casos e de seus contatos.
  497. Isso não causa perturbações
    para a população em geral:
  498. temos um caso, que será isolado,
  499. descobrimos com quem ele teve contato,
  500. quais foram as possíveis
    oportunidades de exposição
  501. e podemos acompanhar essa pessoa,
  502. colocá-la em quarentena para garantir
    que não ocorram transmissões adicionais.
  503. É um método muito focado e direcionado
  504. que funcionou muito bem para o SARS.
  505. Mas acho que, para esta infecção,
  506. como alguns casos não serão detectados,
  507. devemos realmente testar
    um grande número de pessoas em risco.
  508. Mas se alguns poucos escaparem dessa rede,
    possivelmente teremos um surto.
  509. CA: Algum país foi capaz
    de empregar essa estratégia

  510. e efetivamente conter o vírus?
  511. AK: Singapura tem feito
    um trabalho realmente notável

  512. nas últimas seis semanas.
  513. Além de algumas medidas mais amplas,
  514. eles fazem um trabalho incrível
  515. para rastrear quem teve contato
    com pessoas infectadas.
  516. Analisando imagens de CFTV,
  517. descobrindo qual táxi alguém pegou,
    quem pode estar em risco,
  518. um acompanhamento realmente completo.
  519. E por cerca de seis semanas,
    isso impediu a transmissão.
  520. CA: Isso é incrível.

  521. Então, alguém entra no país,
    tem resultado positivo no teste,
  522. eles vão a campo, com uma equipe enorme,
  523. e rastreiam tudo
  524. a ponto de dizer:
  525. "Não sabe qual táxi pegou?
    Vamos descobrir".
  526. E quando encontram o motorista do táxi,
  527. precisam tentar descobrir todos os outros
    que estiveram naquele táxi?
  528. AK: Eles se concentram nos contatos
    próximos das pessoas em maior risco,

  529. mas realmente diminuem a chance
    de alguém escapar dessa rede.
  530. CA: Mas mesmo em Singapura,

  531. se não me engano, os números
    começaram a se aproximar de zero,
  532. mas, recentemente, voltaram
    a aumentar um pouco.
  533. Ainda não está claro
  534. se eles realmente serão capazes
    de sustentar a contenção.
  535. AK: Exato.

  536. Vimos o número de reprodução
    cair para 0,8, 0,9, talvez,
  537. portanto abaixo da taxa crucial de um.
  538. Mas, na última semana ou duas,
    ele parece ter aumentado,
  539. e eles estão tendo mais casos.
  540. Mesmo que estejam contendo o vírus,
  541. acho que o mundo está passando por surtos
  542. e continua jogando faíscas de infecção,
  543. e fica cada vez mais difícil
    acabar com todas elas
  544. com esse nível de esforço intensivo.
  545. (Música)
  546. CA: No caso deste vírus,

  547. a maioria dos países foi alertada
    de que isso estava acontecendo.
  548. As notícias vindas da China
    rapidamente se tornaram muito sombrias
  549. e as pessoas tiveram tempo de se preparar.
  550. Como seria a preparação ideal
  551. sabendo que algo assim está por vir
  552. e que há muita coisa em jogo
  553. se conseguir contê-la com sucesso
    antes que ela realmente fuja do controle?
  554. AK: Acho que duas coisas
    fariam uma diferença enorme.

  555. Uma é ter um acompanhamento
    e detecção o mais meticuloso possível.
  556. Fizemos alguns modelos
  557. analisando a eficácia
    desse tipo de contenção inicial.
  558. E pode ser eficaz, se forem
    identificadas 70% ou 80%
  559. das pessoas que podem ter
    entrado em contato com o vírus.
  560. Mas, se não detectar
    os casos novos e os contatos deles,
  561. e no início o foco principal estava
    no histórico de viagens para a China,
  562. depois ficou claro
    que a situação estava mudando,
  563. mas como confiavam nisso
    como definição de caso,
  564. muitos outros casos que correspondiam
    à definição não foram testados
  565. porque não pareciam
    estar potencialmente em risco.
  566. CA: Então, se sabemos
    que detecção precoce é a chave,

  567. uma medida inicial essencial
  568. é garantir rapidamente que se tenha
    testes suficientes disponíveis
  569. onde forem necessários,
  570. para que se possa reagir,
  571. estar pronto para entrar em ação
    assim que alguém for detectado,
  572. e muito rapidamente testar
    os contatos dele e assim por diante,
  573. para ter uma chance
    de manter isso sob controle.
  574. AK: Exatamente.

  575. Minha linha de trabalho é
    de que há valor em um teste negativo,
  576. porque mostra que algo
    que procuramos não está lá.
  577. Portanto, um pequeno número
    de pessoas testadas
  578. não garante que não estamos
    deixando casos passarem,
  579. mas, se acompanharmos
    minuciosamente os contatos,
  580. como já vimos na Coreia,
  581. um grande número de pessoas é testada.
  582. Portanto, embora ainda apareçam casos,
  583. isso garante que eles têm uma ideia
    de onde estão essas infecções.
  584. CA: Você está no Reino Unido agora,

  585. eu estou nos EUA.
  586. Qual é a probabilidade
    de tanto o Reino Unido
  587. quanto os EUA conseguirem conter isso?
  588. AK: Acho bastante improvável,
    nos dois casos.

  589. Acho que o Reino Unido terá de introduzir
    algumas medidas adicionais.
  590. O momento para isso, obviamente,
    depende um pouco da situação atual,
  591. mas já testamos quase 30 mil pessoas.
  592. Acho que os EUA passarão desse número,
  593. dada a quantidade de evidências
    de haver transmissão extensiva,
  594. e, sem ter uma ideia clara
    do número de infectados
  595. e sem esse nível de testes,
  596. é muito difícil realmente saber
    qual é o quadro atual nos EUA.
  597. CA: Não quero levar isso para a política,
    mas você não se impressiona...

  598. o Reino Unido testou 30 mil pessoas,
  599. os EUA são 5 ou 6 vezes maior
  600. e o número total de testes aqui
    era de 5 mil ou 6 mil há alguns dias.
  601. Isso te parece bizarro?
  602. Sinceramente, não entendo
    como isso aconteceu em um país letrado,
  603. com tanto conhecimento
    sobre doenças infecciosas.
  604. AK: Sim, e obviamente há
    vários fatores envolvidos,

  605. logística e outros,
  606. mas houve um período de alerta
    de que é uma ameaça e está chegando.
  607. Os países precisam
    garantir que são capazes
  608. de detectar o máximo possível
    de casos nos estágios iniciais,
  609. porque é quando vão identificá-los
    e terão uma chance melhor de contê-los.
  610. CA: Se não conseguirmos contê-los,

  611. precisaremos mudar para alguma
    estratégia de mitigação.
  612. O que entra em jogo daí?
  613. E quero relembrar
  614. dois dos fatores DOTS: oportunidade
    e probabilidade de transmissão,
  615. pois o vírus é isso mesmo,
  616. e não há muito a fazer quanto ao período
    em que alguém pode infectar outros.
  617. Em relação à suscetibilidade,
  618. não podemos fazer muito
    até haver uma vacina.
  619. Podemos falar sobre isso daqui a pouco.
  620. Mas em relação à oportunidade
    e probabilidade de transmissão,
  621. podemos fazer algo.
  622. Talvez você queira falar sobre isso,
  623. ou sobre como criar
    uma estratégia de mitigação?
  624. Pensando primeiro em oportunidade,
  625. como reduzir o número de oportunidades
    de transmissão do vírus?
  626. AK: Para isso

  627. precisa haver uma mudança enorme
    em nossas interações sociais.
  628. Considerando um número de reprodução
    por volta de dois ou três,
  629. realmente precisamos cortar
    alguns aspectos dessa transmissão
  630. pela metade ou em dois terços
    para que ele fique abaixo de um.
  631. Para isso é preciso que todas
    as oportunidades de espalhar o vírus,
  632. os contatos próximos,
  633. sejam reduzidas,
  634. por toda a população,
  635. em dois terços, em média,
    para controlar o surto.
  636. Pode ser através do trabalho em casa,
  637. da mudança de estilo de vida,
  638. se você vai a lugares e jantares lotados.
  639. E, claro, medidas
    como fechamento de escolas
  640. e outras que tentam reduzir
  641. os contatos sociais de uma população.
  642. CA: Fale mais sobre
    o fechamento de escolas,

  643. porque, se bem me lembro, isso foi citado
    muitas vezes em pandemias passadas
  644. como uma medida absolutamente essencial,
  645. que as escolas representam
    esse tipo de reunião de pessoas,
  646. quando se trata de gripes e resfriados,
    as crianças são portadoras do vírus.
  647. Mas as crianças não parecem ficar doentes
    com este vírus em particular,
  648. ou pelo menos muito poucas.
  649. Elas podem transmitir o vírus?
  650. Podem ser portadoras
    não intencionais dele?
  651. Ou, de fato, há evidências
    de que o fechamento das escolas
  652. pode não ser tão importante
    neste caso quanto em outros?
  653. AK: A questão do papel
    das crianças é crucial,

  654. e ainda não há uma boa base de evidências.
  655. A partir do acompanhamento
    dos contatos dos casos,
  656. não há evidências
    de que crianças sejam infectadas;
  657. elas são expostas e, quando as testamos,
  658. não é que não estejam infectadas,
  659. mas não apresentam sintomas
    da mesma maneira.
  660. Especialmente para a gripe,
  661. ao analisar as implicações
    do fechamento das escolas:
  662. no Reino Unido, em 2009,
    durante a gripe suína,
  663. houve um declínio no surto
    durante as férias escolares,
  664. pode-se ver na curva da epidemia:
    ela cai no verão e sobe no outono.
  665. Mas, em 2009, havia alguma imunidade
    nas faixas etárias maiores.
  666. Isso levou a transmissão
    para os mais jovens.
  667. Estamos tentando entender isso.
  668. O fechamento das escolas
    reduz as interações,
  669. mas traz efeitos sociais indiretos,
  670. podendo afetar avós
  671. no papel de cuidadores alternativos,
    se os pais têm que trabalhar.
  672. Há muitas peças a considerar.
  673. CA: Com base em todas as diferentes
    evidências que você analisou,

  674. se dependesse de você,
  675. recomendaria que neste momento
    a maioria dos países
  676. analisasse com atenção o fechamento geral
    das escolas como medida de precaução?
  677. Vale a pena fazer isso
  678. como uma estratégia dolorosa
    de dois, três, quatro, cinco meses?
  679. O que você recomendaria?
  680. AK: O principal,

  681. dada a distribuição etária do risco
    e a gravidade nos grupos mais velhos,
  682. é reduzir as interações que trazem
    a infecção para esses grupos.
  683. Depois reduzir as interações
    entre todas as pessoas o máximo possível.
  684. O principal é
  685. que a carga da doença está tão localizada
    no grupo de mais de 60 anos
  686. que não se trata apenas de todos
    tentarem evitar todas as interações,
  687. mas de evitar os comportamentos
    que levam as infecções a esses grupos.
  688. CA: Isso significa que as pessoas
    deveriam pensar duas vezes

  689. antes de visitar um ente querido
  690. em clínicas ou lares para idosos?
  691. Devemos prestar uma atenção
    muito especial a isso,
  692. essas instalações devem tomar
    muito cuidado com quem elas admitem,
  693. verificando temperatura
    e sintomas ou algo assim?
  694. AK: Essas medidas definitivamente
    devem ser consideradas.

  695. No Reino Unido, estamos planejando
    uma estratégia chamada de "encasulamento"
  696. para os grupos de mais idade,
  697. na qual podemos realmente
    tentar isolar o máximo possível
  698. as interações de pessoas
    que podem transmitir o vírus.
  699. Basicamente, como você disse,
  700. não podemos atacar outros
    aspectos da transmissão,
  701. apenas reduzir o risco
    de exposição desses grupos,
  702. então qualquer coisa
    que se possa fazer individualmente
  703. para reduzir o risco de cada pessoa,
  704. seja ela idosa ou de outro grupo de risco,
  705. é crucial.
  706. No âmbito geral,
  707. essas medidas em larga escala podem ajudar
    a reduzir as interações em geral,
  708. mas se essas reduções acontecerem
  709. sem reduzir o risco das pessoas
    que sofrerão doenças graves,
  710. essa carga incrivelmente
    pesada se manterá.
  711. CA: As pessoas precisam aplicar
    essa lente dupla ao pensar essas questões?

  712. Ao seguir com sua vida, o risco é
    você se infectar, pegar esse vírus.
  713. Mas também há o risco
    de, sem querer, ser portador
  714. para alguém que sofrerá
    muito mais do que você.
  715. E precisamos ter
    essas duas coisas em mente.
  716. AK: Sim, não é só
    a mão de quem você aperta,

  717. é a mão de quem a outra
    pessoa vai apertar.
  718. E precisamos pensar
    nessas etapas secundárias:
  719. você pode achar que tem risco baixo
    e que faz parte de um grupo mais jovem,
  720. mas muitas vezes estará
    a uma distância muito curta
  721. de alguém que vai ser atingido
    fortemente por isso.
  722. Precisamos ter uma atitude social
  723. e isso pode ser muito dramático
    em termos de mudança de comportamento,
  724. mas é preciso reduzir o impacto
    que potencialmente enfrentamos.
  725. CA: Então, só podemos reduzir
    o número de oportunidades

  726. se reduzirmos o número de contatos físicos
    que temos com outras pessoas.
  727. E como diminuir
    a probabilidade de transmissão?
  728. Ela afeta a forma como interagimos.
  729. Você mencionou aperto de mão, imagino
    que dirá para não apertarmos as mãos.
  730. AK: Sim, mudanças como essa.

  731. Outra é a lavagem das mãos;
  732. podemos realizar
    as mesmas atividades de antes,
  733. mas ao lavar as mãos reduzimos a chance
  734. de espalhar a infecção
    de uma interação para outra,
  735. então todas essas medidas significam
    que, mesmo ocorrendo exposições,
  736. estamos tomando medidas adicionais
    para evitar que ocorra alguma transmissão.
  737. CA: A maioria das pessoas
    não entende completamente

  738. ou não tem um modelo claro sobre o modo
    pelo qual esse vírus se espalha.
  739. Você acha que as pessoas
    realmente entendem
  740. que não inalamos as gotículas
    de alguém que tossiu ou espirrou.
  741. Então, como isso se espalha?
  742. Ele fica em superfícies. Como?
  743. Uma pessoa doente simplesmente
    expira, toca a boca ou algo assim,
  744. depois toca uma superfície,
    e ela fica contaminada?
  745. Como o vírus chega às superfícies?
  746. AK: Muito pelo fato de a pessoa
    tossir na mão e tocar na superfície.

  747. Mas o desafio, obviamente,
  748. é desvendar as questões
    sobre como a transmissão acontece.
  749. Há transmissão numa família quando alguém
    tosse e o vírus vai para uma superfície,
  750. pelo contato direto, por um aperto de mão,
  751. e, mesmo para a gripe, trabalhamos duro
    para tentar entender essas coisas,
  752. qual a relação entre risco de infecção
    e comportamento social.
  753. Porque isso é visivelmente importante,
    mas realmente difícil de determinar.
  754. CA: É quase como aceitar o fato

  755. de que, na verdade,
    não sabemos muitas dessas coisas,
  756. e que estamos todos
    nesse jogo de probabilidades.
  757. Por isso a matemática
    é tão importante aqui.
  758. Pensar em como cada um desses números,
  759. trabalhando em conjunto,
    tem um papel a desempenhar.
  760. E qualquer um cuja porcentagem
    você puder diminuir,
  761. provavelmente contribui,
    não só para você, mas para todos.
  762. As pessoas não sabem em detalhes
    como os números se combinam,
  763. mas sabem que provavelmente
    todos eles importam.
  764. Precisamos que, de alguma forma,
    elas aceitem essa incerteza
  765. e tenham satisfação
    ao agir sobre cada um deles.
  766. AK: A ideia de que infectar três pessoas,
    em média, leva a essa situação,

  767. e como cada um pode reduzir essa taxa.
  768. Se lavarmos as mãos, quanto isso reduz,
    em termos de apertos de mão?
  769. O vírus poderia estar em você,
    mas não está mais,
  770. ou se de alguma forma você muda
    seu comportamento social
  771. isso evita algumas interações, a metade?
  772. Como você pode realmente intervir
    nesse número o máximo possível?
  773. CA: Há mais alguma coisa a dizer
    sobre como podemos reduzir

  774. essa probabilidade de transmissão
    em nossas interações?
  775. Qual distância física é aconselhável
  776. manter das outras pessoas, se possível?
  777. AK: Acho difícil definir exatamente,

  778. mas algo a se ter em mente
    é que não há muitas evidências
  779. de que esse vírus seja
    como um aerossol e que vá muito longe,
  780. são distâncias razoavelmente curtas.
  781. Não acho que, sentado
    a poucos metros de alguém,
  782. o vírus possa te alcançar.
  783. É em interações mais próximas
  784. e por isso vemos
    tantos eventos de transmissão
  785. ocorrerem em coisas como refeições
    e grupos muito unidos.
  786. É aí que um vírus pode ir parar
    nas superfícies, nas mãos e no rosto,
  787. é realmente nessas situações
    que precisamos pensar mais.
  788. CA: Então, de certa forma,
    alguns medos das pessoas

  789. podem ser superestimados,
  790. por exemplo, se você estiver
    no meio de um avião
  791. e alguém na frente espirra,
  792. isso incomoda,
  793. mas na verdade não é isso
    que deveria assustá-lo mais.
  794. Existem maneiras muito mais inteligentes
    de prestar atenção ao seu bem-estar.
  795. AK: Sim, se fosse sarampo,
    e as pessoas no avião fossem suscetíveis,

  796. teríamos muitas infecções depois disso.
  797. Lembre-se, em média, uma pessoa
    infecta outras duas ou três,
  798. então talvez nem todas as 50 pessoas
    com que você interagiu ao longo da semana
  799. estejam em risco.
  800. Mas algumas delas,
    especialmente os contatos próximos,
  801. é com esses que a transmissão ocorre.
  802. CA: Do ponto de vista
    de uma estratégia nacional,

  803. fala-se muito sobre a necessidade
    de "achatar a curva".
  804. O que isso significa?
  805. AK: Isso se refere à ideia

  806. de os casos não chegarem todos
    ao mesmo tempo no sistema de saúde.
  807. Se nos acomodarmos, não fizermos nada
    e apenas deixarmos a epidemia crescer,
  808. com uma taxa de crescimento
    que, hoje, em alguns lugares,
  809. faz a epidemia duplicar
    a cada três ou quatro dias,
  810. ela vai disparar e vamos ter
    doentes, em estado grave,
  811. todos precisando ao mesmo tempo
    de cuidados hospitalares,
  812. e não teremos capacidade para isso.
  813. A ideia de achatar a curva é:
  814. se reduzirmos a transmissão
    e o número de reprodução,
  815. ainda pode haver um surto,
  816. mas será muito mais plano, mais longo,
  817. e aparecerão menos casos graves que podem
    receber os cuidados de saúde que precisam.
  818. CA: Isso significa que haverá
    menos casos no geral?

  819. Quando analisamos gráficos
    com imagens reais do achatamento da curva,
  820. parece que a área
    abaixo da linha é a mesma,
  821. isto é, o número de pessoas
    infectadas é o mesmo,
  822. mas em um período mais longo.
  823. Tipicamente é isso que acontece,
  824. e mesmo se adotarmos todas
    as estratégias de distanciamento social,
  825. lavarmos as mãos, etc.,
  826. o melhor que podemos esperar
    é diminuir a velocidade,
  827. e acabaremos com o mesmo
    número de pessoas infectadas?
  828. AK: Não necessariamente,
    depende das medidas adotadas.

  829. Existem algumas medidas,
    como interromper viagens,
  830. que normalmente atrasam a propagação
    em vez de reduzi-la.
  831. Então, ainda teremos os mesmos surtos,
  832. mas sua duração será mais longa.
  833. Mas existem outras medidas.
  834. Se reduzirmos as interações,
  835. se o número de reprodução for menor,
  836. esperara-se menos casos no geral.
  837. E, por fim, teremos algum acúmulo
    de imunidade na população,
  838. o que ajuda, se pensarmos
    nos componentes da fórmula,
  839. reduzindo a suscetibilidade,
    além do que acontece em outros lugares.
  840. Portanto, a esperança é
    que as duas coisas trabalhem juntas.
  841. CA: Me ajude a entender como isso termina.

  842. A China, por exemplo.
  843. Qualquer coisa que pensarmos
    sobre a supressão inicial de dados
  844. e o que ocorreu depois
  845. é muito preocupante.
  846. A resposta mais intensa veio em janeiro,
  847. com a paralisação
    de uma imensa área do país,
  848. o que parece ter sido de fato eficaz.
  849. O número de casos está caindo
    em uma taxa impressionantemente alta.
  850. Caindo para quase nada.
  851. Não consigo entender isso.
  852. É um país com 1,4 bilhão de pessoas.
  853. Houve um grande número de casos por lá,
  854. mas uma pequena fração
    da população ficou realmente doente.
  855. E ainda assim os números caíram.
  856. Não é como se todos na China
    tivessem desenvolvido alguma imunidade.
  857. Será que eles foram
    absolutamente disciplinados
  858. quanto a interromper as viagens
    para as regiões infectadas
  859. e, de alguma forma, realmente
    investir nos testes massivamente
  860. para que, ao sinal de qualquer problema,
  861. voltassem ao modo de contenção
  862. na maior parte da China?
  863. Não consigo entender, me ajude.
  864. AK: Nas duas últimas semanas de janeiro,
    quando essas medidas foram implementadas,

  865. estima-se que o número de reprodução
    passou de 2,4 para 1,1.
  866. Portanto, a transmissão caiu cerca de 60%
  867. no espaço de uma semana ou duas.
  868. É notável e, na verdade,
  869. muito disso parece ter sido impulsionado
  870. apenas por mudanças fundamentais
    no comportamento social:
  871. enorme distanciamento social,
  872. acompanhamento
    e testes realmente intensivos.
  873. O número de reprodução reduziu o bastante
    para causar o declínio da curva
  874. e agora vemos, em muitas áreas,
  875. uma volta para a contenção,
  876. porque há poucos casos,
    a situação é mais gerenciável.
  877. Mas vemos que eles enfrentam um desafio,
  878. porque muitas dessas cidades
    estão bloqueadas há seis semanas
  879. e há um limite do tempo
    em que podem ser mantidas assim.
  880. Portanto, algumas dessas medidas
    são gradualmente revogadas,
  881. o que cria o risco de que casos
    vindos de outros países
  882. possam reintroduzir a transmissão.
  883. CA: Mas, considerando
    o quão infeccioso é o vírus

  884. e quantas vias e pontos de conexão
    existem, teoricamente,
  885. entre as pessoas em Wuhan,
  886. mesmo durante o bloqueio
    ou em bloqueio relativo,
  887. ou entre outros lugares onde houve
    alguma infecção, e o resto do país,
  888. você se surpreende com a rapidez
    com que a curva caiu para quase zero?
  889. AK: Sim.

  890. Bem no início, quando vimos
    o achatamento dos casos
  891. nos perguntamos se eles tinham
    um limite na capacidade de testes
  892. e estavam relatando mil casos por dia
    por ser esse o número de kits que tinham.
  893. Mas felizmente continuou assim,
  894. mostrando que é possível reverter o quadro
    com esse nível de intervenção.
  895. O principal agora é ver como isso funciona
    em outras configurações.
  896. A Itália está realizando
    intervenções realmente dramáticas.
  897. Mas claro que, devido ao efeito do atraso,
  898. ao adotá-las hoje,
  899. deve levar uma semana ou duas
    até os resultados aparecerem.
  900. Descobrir o impacto dessas medidas
  901. será fundamental para ajudar outros países
    a trabalharem para conter o vírus.
  902. CA: Para termos uma ideia, Adam,
    de como serão os próximos dois meses,

  903. fale-nos sobre alguns cenários
    que você tem em mente.
  904. AK: Num cenário otimista,

  905. vamos aprender muito
    com lugares como a Itália,
  906. que, infelizmente foram muito atingidos.
  907. Os países levarão isso muito a sério
  908. e não teremos esse crescimento contínuo
  909. com essa enorme sobrecarga,
  910. seremos capazes
    de desacelerá-lo o suficiente.
  911. Teremos muitos casos,
  912. provavelmente muitos deles serão graves,
  913. mas isso será mais gerenciável;
    esse é um cenário otimista.
  914. Se os países não levarem isso a sério
  915. ou a população não responder bem
    às medidas de controle
  916. ou os casos não forem detectados,
  917. poderemos ter situações,
  918. e o Irã provavelmente está
    mais próximo disso, no momento,
  919. em que haja ampla transmissão generalizada
  920. e, quando a reação ocorrer,
  921. essas infecções já estarão no sistema
    e se tornarão casos e doenças graves.
  922. Espero que não seja nosso caso,
    mas cerca de dez países, no momento,
  923. podem estar a caminho
    da mesma situação que a Itália.
  924. Portanto, o que acontecer
    nas próximas semanas é realmente crucial.
  925. CA: Existe uma chance real
    de que alguns países tenham, este ano,

  926. muito mais mortes por este vírus
    do que pela gripe sazonal?
  927. AK: Em alguns países é provável, sim,

  928. se o controle não for possível,
  929. e vimos isso acontecer na China,
  930. mas lá o nível de intervenção
    não tinha precedentes.
  931. Realmente mudou o tecido social.
  932. Num primeiro momento,
    as pessoas não aceitam exatamente
  933. o que significa reduzir
    suas interações nessa extensão.
  934. Muitos países simplesmente
    não conseguirão gerenciar isso.
  935. CA: É quase um desafio
    para as democracias, não é?

  936. "Muito bem, mostrem o que podem fazer
    sem esse controle draconiano.
  937. Se não gostam desse pensamento,
  938. vamos lá, cidadãos, mexam-se,
    mostrem do que são capazes,
  939. que podem ser sábios,
    inteligentes e disciplinados,
  940. e se adiantem ao maldito vírus".
  941. AK: Sim.

  942. CA: Pessoalmente, não sou
    superotimista quanto a isso,

  943. porque há muitas mensagens conflitantes
    vindas de inúmeros lugares diferentes,
  944. e as pessoas não gostam
    de sacrifícios a curto prazo.
  945. É quase um caso em que...
  946. Na sua opinião,
  947. o papel da mídia tem sido útil,
    neste caso, ou não?
  948. É realmente útil, de alguma forma,
  949. exagerar a preocupação, o medo
  950. e fazer as pessoas entrarem
    um pouco em pânico?
  951. AK: É um equilíbrio
    muito difícil de encontrar,

  952. porque, no início, sem nenhum caso,
  953. sem nenhuma evidência de possível pressão,
  954. é muito difícil convencer as pessoas
    a levarem essa mensagem a sério,
  955. se não exagerar.
  956. Mas se esperar demais,
  957. se disser que ainda não é
    uma preocupação,
  958. que no momento está tudo bem,
    muitos vão pensar que é só uma gripe.
  959. Quando o surto vier com força,
  960. o sistema de saúde ficará
    sobrecarregado por semanas,
  961. porque, mesmo que se faça intervenções,
  962. é tarde demais para controlar
    as infecções que já ocorreram.
  963. É uma linha tênue, e minha esperança
    é que a comunicação aumente;
  964. hoje as pessoas têm exemplos
    tangíveis como a Itália,
  965. e podem ver o que vai acontecer
    se não levarem a sério.
  966. Mas, certamente,
    de todas as doenças que vi,
  967. e vários colegas que são
    muito mais velhos do que eu
  968. e têm memórias de outros surtos,
  969. é a coisa mais assustadora que vimos
    em termos do impacto que pode ter,
  970. e precisamos responder a isso.
  971. CA: A coisa mais assustadora que já viram.

  972. Uau.
  973. Tenho algumas perguntas
    dos meus amigos no Twitter.
  974. Todos estão bem por dentro deste tópico.
  975. Hipoteticamente,
  976. se todos ficassem em casa
    por três semanas,
  977. o surto efetivamente acabaria?
  978. Existe um modo de nos distanciarmos
    socialmente disso?
  979. AK: Sim, em países com famílias
    relativamente pequenas,

  980. no Reino Unido e nos EUA,
    são cerca de 2,5 pessoas,
  981. mesmo havendo uma rodada
    de infecção na família,
  982. ela provavelmente acabaria.
  983. Como benefício secundário,
  984. outras infecções também
    podem ser eliminadas.
  985. O sarampo circula apenas em humanos,
    então pode haver algum efeito indireto,
  986. se isso for possível, claro.
  987. CA: Obviamente, isso seria
    um grande problema para a economia,

  988. e um dos desafios inerentes
  989. é que não se pode otimizar
    as políticas públicas
  990. tanto para a saúde econômica
    como para o combate a um vírus.
  991. De certa forma, são coisas conflitantes,
  992. pelo menos o combate ao vírus
    e a saúde econômica a curto prazo.
  993. Essas situações estão em conflito, certo?
  994. E as sociedades precisam escolher uma.
  995. AK: É difícil convencer
    as pessoas desse equilíbrio,

  996. o que sempre dizemos
    sobre planejamento pandêmico
  997. é que colocá-lo em prática agora é barato,
  998. caso contrário,
    pagaremos por isso mais tarde.
  999. Infelizmente, como vimos,
  1000. não houve muito dinheiro
    para a resposta imediata.
  1001. E parece que só quando há
    um impacto e fica caro
  1002. as pessoas aceitam esse custo.
  1003. CA: Mais algumas perguntas no Twitter.

  1004. O aumento da temperatura nos EUA
    nas próximas semanas e meses
  1005. diminuirá a propagação do COVID-19?
  1006. AK: Não vi nenhuma evidência convincente

  1007. de que exista relação forte
    com a temperatura;
  1008. vemos essa relação em outras infecções,
  1009. mas o fato de serem surtos generalizados
  1010. dificulta a identificação e, claro,
    há outras coisas acontecendo.
  1011. Mesmo que um país não tenha
    um surto tão grande quanto outro,
  1012. ele será influenciado
    por medidas de controle,
  1013. comportamento social,
    oportunidades e coisas assim.
  1014. Portanto, seria realmente
    reconfortante se fosse assim,
  1015. mas não podemos dizer isso ainda.
  1016. CA: Ainda do Twitter,

  1017. existe uma recomendação global padrão
  1018. para todos os países
    sobre como fazer isso?
  1019. E, se não, por que não?
  1020. AK: É isso que as pessoas
    estão tentando reunir,

  1021. primeiro em termos do que funciona.
  1022. Apenas nas últimas semanas
  1023. tivemos a sensação de que isso pode ser
    controlado com esse nível de intervenções,
  1024. mas claro que nem todos os países
    podem fazer o que a China fez,
  1025. algumas dessas medidas têm uma carga
    social, econômica e psicológica enorme
  1026. na população.
  1027. E, claro, há o limite do tempo.
  1028. Na China mantiveram por seis semanas,
    isso é difícil de sustentar;
  1029. portanto, precisamos pensar nas trocas
  1030. que podemos pedir que as pessoas façam,
  1031. quais terão maior impacto
    na redução dessa carga.
  1032. CA: Outra pergunta: como isso aconteceu,
    e é provável que ocorra novamente?

  1033. AK: É provável que isso tenha se originado
    com o vírus que circulava em morcegos

  1034. e que, provavelmente,
    passou para outras espécies,
  1035. e de alguma forma chegou aos humanos;
  1036. há muitas evidências disso,
    não há uma história única e clara,
  1037. mas até para a SARS, a genômica
    precisou de vários anos para entender
  1038. a rota exata da transmissão.
  1039. Mas, certamente, acho plausível
    que isso aconteça novamente.
  1040. A natureza dissemina vírus constantemente.
  1041. Muitos deles não são bem adaptados
    aos seres humanos, não nos infectam,
  1042. pode ter havido um desses vírus
    há alguns anos que infectou alguém
  1043. que simplesmente não tinha
    nenhum contato e o vírus não foi adiante.
  1044. Vamos enfrentar situações assim
  1045. e precisamos pensar
    em como podemos nos antecipar
  1046. ao ponto de ter
    um pequeno número de casos,
  1047. e mesmo algo assim possa ser contido,
  1048. em vez de chegar à situação
    que temos agora.
  1049. CA: Parece que não é a primeira vez

  1050. que um vírus surgiu de um mercado
    de carne de animais silvestres.
  1051. Certamente é assim
    que acontece nos filmes.
  1052. A China já tomou algumas medidas desta vez
  1053. para tentar reprimir isso.
  1054. Para o futuro, pode ser uma boa abordagem
  1055. manter isso de forma adequada.
  1056. AK: É sim, e nos últimos anos,
    por exemplo em 2013,

  1057. vimos que a gripe aviária H7N9
    emergiu como uma grande preocupação,
  1058. e a China deu uma resposta muito extensa
  1059. em termos de mudar a forma
    como operam seus mercados
  1060. e a vacinação de aves,
  1061. e parece ter removido essa ameaça.
  1062. Então, essas medidas podem ser eficazes
    se forem identificadas cedo.
  1063. CA: Fale sobre vacinas.

  1064. Acho que essa é a medida-chave
  1065. para alterar o fator
    de suscetibilidade de sua equação.
  1066. Obviamente, existe uma corrida
    para obter essas vacinas,
  1067. existem algumas candidatas.
  1068. Como você vê isso?
  1069. AK: Certamente há pesquisas
    promissoras acontecendo,

  1070. mas há um prazo
    de cerca de 1 ano ou 18 meses
  1071. até estarem amplamente disponíveis.
  1072. Uma vacina precisa passar
    por testes, isso leva tempo,
  1073. portanto, mesmo que até o final do ano
    tenhamos algo viável e que funcione,
  1074. ainda haverá um tempo
    até podermos nos apegar a isso.
  1075. CA: Isso realmente me intriga,
  1076. e adoraria que você respondesse
    sobre isso como matemático.
  1077. Várias empresas já acreditam
    ter possíveis vacinas candidatas.
  1078. Como você diz, o processo
    de teste leva uma eternidade.
  1079. É possível não estarmos pensando
    corretamente sobre isso,
  1080. quando analisamos como os testes
    e os cálculos de segurança são feitos?
  1081. Porque uma coisa é introduzir
    um medicamento novo ou algo assim,
  1082. desejamos testar para garantir
    que não haja efeitos colaterais
  1083. e pode demorar muito até fazermos
    todos os testes de controle, etc.
  1084. Mas se existe uma emergência global,
  1085. não é o caso,
  1086. matemática e eticamente,
  1087. de fazer um cálculo diferente?
  1088. Em vez de perguntar:
  1089. "Existe algum caso em que esta vacina
    possa causar danos?",
  1090. com certeza deveríamos perguntar:
  1091. "Dentro das probabilidades,
  1092. não há um caso para aplicar
    essa vacina em escala,
  1093. e ter uma oportunidade
    de cortar isso pela raiz?"
  1094. O que estou desconsiderando
    ao pensar dessa maneira?
  1095. AK: Em outras situações,
    como a vacina contra o Ebola em 2015,

  1096. em poucos meses vimos evidências
  1097. e resultados intermediários
    muito promissores em humanos,
  1098. mostrando o que parecia
    uma eficácia muito alta.
  1099. E, apesar de não ter sido
    totalmente licenciada,
  1100. foi empregada no chamado "uso compassivo"
    em surtos subsequentes.
  1101. Portanto, existem mecanismos
    pelos quais podemos acelerar as vacinas.
  1102. Mas claro que hoje estamos numa situação
    em que não temos ideia
  1103. se essas coisas vão adiantar.
  1104. Precisamos acumular evidências suficientes
  1105. de que podem ter um impacto,
  1106. mas, obviamente, acelerá-las
    o máximo possível.
  1107. CA: O cético em mim ainda
    não entende isso completamente.
  1108. Não entendo
  1109. por que não se coloca mais energia
    em ideias mais ousadas.
  1110. Apesar do risco geral, todo mundo parece
  1111. incrivelmente avesso a riscos
    na hora de formular respostas.
  1112. AK: Com a ressalva de que há
    bons questionamentos a respeito disso,

  1113. e alguns fogem um pouco da minha alçada,
  1114. concordo que precisamos fazer mais
    para atingir os prazos.
  1115. Levamos uns seis meses para escolher
    uma cepa sazonal da gripe
  1116. e disponibilizar a vacina às pessoas.
  1117. Temos que prever com antecedência
    quais cepas vão circular.
  1118. E é algo que sabemos como fabricar
    e o fazemos há muito tempo.
  1119. Definitivamente, é preciso fazer mais
    para reduzir esses prazos.
  1120. Mas precisamos equilibrar isso,
  1121. especialmente se um grande número
    de pessoas será exposto,
  1122. e precisamos ter certeza de que é seguro
    e pode trazer algum benefício.
  1123. CA: Por fim,
  1124. Adam, preciso falar nisso...
  1125. Há outras coisas infecciosas acontecendo
    em todo o mundo ao mesmo tempo,
  1126. que são as ideias e a comunicação
    em torno desse vírus.
  1127. São realmente dois sistemas
    infecciosos dinâmicos e interativos,
  1128. há algumas informações
    muito prejudiciais por aí.
  1129. Pode-se pensar nisso como uma batalha
    entre o conhecimento e medidas confiáveis
  1130. contra o vírus
  1131. e informações ruins?
  1132. Parte do que precisamos pensar aqui
  1133. é como suprimir um conjunto de coisas
  1134. e impulsionar o outro,
    na verdade, turbinar o outro.
  1135. Como pensar sobre isso?
  1136. AK: Podemos pensar como sendo
    uma competição por nossa atenção,

  1137. da mesma forma que, nas doenças,
  1138. os vírus competem para infectar
    hospedeiros suscetíveis.
  1139. Ao longo dos últimos anos
  1140. com notícias falsas, informações erradas
    e o surgimento da conscientização,
  1141. vemos uma transição para pensarmos
    em como reduzir essa suscetibilidade,
  1142. se temos pessoas em estágios diferentes,
  1143. como podemos usar a informação
    para nos anteciparmos.
  1144. Obviamente, no desafio de um surto,
    no começo temos pouquíssima informação,
  1145. e é muito fácil esse vácuo ser preenchido
    pela certeza e pela confiança.
  1146. Acho que as plataformas estão
    desenvolvendo formas de expor o público
  1147. à informação de qualidade mais cedo,
  1148. para que isso proteja as pessoas
    contra outras coisas.
  1149. CA: Uma das grandes incógnitas
    para mim nesse ano que continua,
  1150. digamos que haverá ainda inúmeras semanas,
  1151. para muitas pessoas,
  1152. de autoisolamento,
  1153. para aqueles de nós que têm a sorte
    de poder trabalhar de casa.
  1154. Mas a grande injustiça dessa situação,
  1155. é que há tantas pessoas que não podem
    ficar em casa e continuar a ganhar a vida,
  1156. e esse será um grande desafio esse ano,
  1157. se as taxas de mortalidade forem
    muito maiores no segundo grupo
  1158. do que no primeiro,
  1159. especialmente em um país como os EUA,
  1160. onde essas pessoas nem sequer
    têm seguro de saúde adequado e tudo mais.
  1161. Me parece que, só isso,
    já poderia se tornar um grande debate,
  1162. e espero que, em algum nível,
    seja uma enorme fonte de mudança.
  1163. AK: Acho esse ponto muito importante,
    porque é muito fácil...

  1164. tenho um trabalho que posso
    realizar muito bem de forma remota,
  1165. é muito fácil dizer que devemos
    interromper as interações sociais,
  1166. mas claro que isso pode ter
    um enorme impacto nas pessoas,
  1167. e nas escolhas e na rotina delas.
  1168. Isso precisa ser levado em consideração,
  1169. agora e daqui a alguns meses
    conforme o efeito que houver.
  1170. CA: Por fim,
  1171. podemos dizer que o mundo enfrentou
    problemas muito mais graves no passado,
  1172. e que, em qualquer cenário,
  1173. é muito provável que dentro
    dos próximos 18 meses
  1174. uma vacina surja e seja
    amplamente distribuída,
  1175. e que teremos aprendido muitas outras
    formas de lidar com esse problema?
  1176. Mas em algum momento,
    provavelmente no ano que vem,
  1177. o mundo sentirá que atingiu o auge disso
  1178. e poderá seguir em frente.
  1179. É provável que seja assim,
  1180. ou é mais provável que isso escape
  1181. e se torne um pesadelo endêmico,
    que a cada ano mata mais pessoas
  1182. do que a gripe atualmente?
  1183. Quais são os prováveis caminhos,
    olhando um pouco mais a longo prazo?
  1184. AK: Há maneiras plausíveis de ver
    cada um desses cenários se descortinando.

  1185. Acho que o mais plausível é vermos
    um crescimento muito rápido este ano
  1186. e muitos surtos grandes
    que não necessariamente se repetirão.
  1187. Mas há uma sequência de eventos
    em potencial que pode levar
  1188. a esses múltiplos surtos recorrentes
    em diferentes lugares a cada ano.
  1189. Mas, provavelmente,
  1190. a maior parte da transmissão
    estará concentrada no próximo ano.
  1191. E então, obviamente,
    se houver uma vacina disponível,
  1192. podemos superar a situação
    e, com sorte, aprender com ela.
  1193. Muitos dos países que responderam
    fortemente a esse vírus
  1194. foram muito afetados pela SARS.
  1195. Singapura, Hong Kong,
    realmente foram impactados,
  1196. e se apoiaram muito nisso
    em sua resposta a este vírus.
  1197. CA: Certo.
  1198. Vamos encerrar encorajando as pessoas
  1199. a canalizarem seu matemático interno
  1200. para pensar, especialmente,
    nas oportunidades
  1201. e nas probabilidades de transmissão
    que elas podem ajudar a mudar.
  1202. Lembre-nos das principais coisas
  1203. que você gostaria que as pessoas fizessem.
  1204. AK: Individualmente,
    apenas pensar muito mais

  1205. sobre suas interações
    e seu risco de infecção,
  1206. que o que vai parar em suas mãos
    obviamente pode acabar em seu rosto,
  1207. e em como você cria
    esse risco para os outros.
  1208. Pense também, em termos de interações,
  1209. como apertos de mão
    e contatos que não precisa ter.
  1210. Como podemos reduzi-los o máximo possível.
  1211. Se cada pessoa passa o vírus
    a duas ou três outras,
  1212. como podemos reduzir esse número para um,
    através do nosso comportamento.
  1213. Provavelmente precisaremos
    de intervenções em larga escala,
  1214. em termos de reuniões, conferências
  1215. e outras coisas em que há
    muitas oportunidades de transmissão.
  1216. E a combinação desse nível individual,
  1217. de reduzir o risco se você está
    doente ou com suspeita,
  1218. e também trabalharmos juntos
    para impedir que o vírus atinja grupos
  1219. em que, se continuar descontrolado,
  1220. pode realmente atingir
    algumas pessoas fortemente.
  1221. CA: Sim, há muitas coisas que precisamos
    abandonar por um tempo.
  1222. E talvez tentar reinventar
    os melhores aspectos delas.
  1223. Muito obrigado.
  1224. Se as pessoas quiserem
    acompanhar seu trabalho,
  1225. podem seguir você no Twitter, por exemplo.
  1226. Qual é o seu usuário?
  1227. AK: @AdamJKucharski, tudo junto.

  1228. CA: Adam, muito obrigado
    pelo seu tempo, fique bem.

  1229. AK: Obrigado.

  1230. (Música)

  1231. CA: Professor associado
    e TED Fellow Adam Kucharski.

  1232. Gostaríamos muito de saber
    o que você achou deste episódio bônus.
  1233. Avalie e comente no Apple Podcasts
  1234. ou no seu aplicativo favorito de podcast.
  1235. Essas avaliações influenciam de verdade.
  1236. Lemos e consideramos
    todos os comentários recebidos.
  1237. (Música)

  1238. O episódio desta semana foi produzido
    por Dan O'Donnell na Transmitter Media.

  1239. A gerente de produção é Roxanne Hai Lash,
  1240. e a verificadora de fatos é Nicole Bode.
  1241. Este episódio foi mixado por Sam Bair.
  1242. A música tema é de Allison Layton-Brown.
  1243. Um agradecimento especial
    à minha colega Michelle Quint.
  1244. Obrigado por ouvir The TED Interview.

  1245. Voltaremos em alguns dias,
  1246. com uma nova temporada
    de mergulhos profundos com grandes mentes.
  1247. Espero que goste deles,
    quer a vida volte ao normal ou não.
  1248. Sou Chris Anderson,
    obrigado por ouvir e fique bem.