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← O que aconteceu quando juntámos milhares de desconhecidos para falar de política

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Showing Revision 26 created 06/01/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Esta é a Joanna.
  2. A Joanna trabalha
    numa universidade na Polónia.
  3. Numa madrugada de sábado,
    às três da manhã,
  4. levantou-se, preparou a sua mochila
  5. e viajou mais de mil quilómetros
  6. só para fazer um debate político
  7. com um desconhecido.
  8. O nome dele é Christof e é
    gestor de apoio ao cliente na Alemanha.
  9. Os dois nunca se tinham encontrado.
  10. Só sabiam que discordavam
    completamente sobre a política europeia,
  11. sobre a migração, sobre a relação
    com a Rússia, fosse o que fosse.
  12. E discutiram durante quase um dia inteiro.
  13. Depois disso, a Joanna enviou-me
    um "email" um pouco irritante.
  14. "Foi muito fixe e adorei cada minuto!"
  15. (Risos)

  16. Estes são o Tom do Reino Unido
    e o Nils da Alemanha.

  17. Também eram desconhecidos
  18. e são ambos adeptos
    da sua equipa de futebol local.
  19. Como devem calcular,
  20. o Borussia Dortmund e o Tottenham Hotspur.
  21. Assim, encontraram-se no sítio
    onde o futebol foi inventado,
  22. num campo qualquer em Cambridge.
  23. Não discutiram sobre futebol,
  24. mas sobre o Brexit.
  25. Depois de falarem durante muitas horas
    sobre este tópico controverso,
  26. também me enviaram um "email" inesperado.
  27. "Foi muito agradável
    e ambos gostámos imenso."
  28. (Risos)

  29. Na primavera de 2019,

  30. mais de 17 000 europeus de 33 países
  31. inscreveram-se para
    ter um debate político.
  32. Milhares atravessaram as fronteiras
  33. para conhecerem um estranho
    com uma opinião diferente.
  34. Faziam todos parte de um projeto
    chamado "Europe Talks".
  35. Falar de política entre pessoas
    com opiniões diferentes

  36. tornou-se muito difícil,
  37. não só na Europa.
  38. Há famílias que se dividem,
    amigos que deixam de se falar.
  39. Fechamo-nos na nossa bolha.
  40. E estas "bolhas-filtro"
    são ampliadas pelas redes sociais,
  41. mas, na sua essência,
    não são um produto digital.
  42. A "bolha-filtro" sempre existiu.
  43. Está na nossa cabeça.
  44. Como muitos estudos
    já comprovaram repetidas vezes,

  45. nós, por exemplo, ignoramos os efeitos
    que contradizem as nossas convicções.
  46. Por isso, corrigir notícias falsas
    é de facto necessário,
  47. mas não é suficiente
    para levar uma sociedade dividida
  48. a refletir sobre si mesma.
  49. Felizmente, pelo menos
    segundo alguma investigação,
  50. pode haver uma forma simples
    de ganhar uma nova perspetiva:
  51. uma conversa cara a cara
  52. com alguém que não partilhe
    da nossa opinião.
  53. Permite-nos ver o mundo
    de uma forma nova,
  54. através dos olhos de outra pessoa.
  55. Eu sou o editor do ZEIT ONLINE,

  56. uma das maiores organizações
    de notícias digitais na Alemanha.
  57. O "Europe Talks" começou por ser
    um exercício editorial muito modesto.
  58. Como muitos outros jornalistas,
  59. ficámos impressionados
    com o Trump e com o Brexit,
  60. e a Alemanha também
    estava a ficar dividida,
  61. especialmente no que se refere à migração.
  62. A chegada de mais de um milhão
    de refugiados em 2015 e 2016
  63. dominava o debate.
  64. Quando estávamos a pensar nas nossas
    eleições que teríamos em breve, em 2017,
  65. sabíamos que teríamos de reinventar
    a forma como lidávamos com a política.
  66. Então, como somos fanáticos digitais,
  67. apresentámos obviamente muitas ideias
    estranhas para produtos digitais
  68. — um deles um Tinder para política —
  69. (Risos)

  70. ou seja, uma plataforma de encontros
    para opostos políticos,

  71. uma ferramenta que pudesse ajudar
    a juntar pessoas com diferentes opiniões.
  72. E decidimos testá-la
  73. e lançar aquilo a que os informáticos
    chamariam "produto viável mínimo".
  74. Era muito simples.
  75. Chamámos-lhe "Deutschland spricht"
    — "A Alemanha Fala" —
  76. e começámos em maio de 2017.
  77. E era muito simples.
  78. Usámos sobretudo o Google Forms,
  79. uma ferramenta que qualquer um de nós
    pode usar para fazer sondagens "online".
  80. Em todos os nossos conteúdos,
    incluímos perguntas simples como:
  81. "Acha que a Alemanha
    recebeu demasiados refugiados?"
  82. Clique "Sim" ou "Não".
  83. Fizemos mais perguntas, como:
    "O Ocidente é justo com a Rússia?"
  84. ou "Acha que os casais homossexuais
    devem poder casar?"
  85. Se respondessem a todas estas perguntas,
    fazíamos mais uma pergunta:
  86. "Gostaria de conhecer um vizinho
    que discorde totalmente de si?"
  87. (Risos)

  88. Isto era uma experiência muito simples,
    sem quaisquer custos.

  89. Esperámos que se registassem
    umas cem pessoas,
  90. e planeámos combiná-las aos pares,
    num trabalho feito à mão.
  91. Ao fim de um dia,
    já se tinham registado 1000 pessoas.
  92. Ao fim de umas semanas,
    tinham-se inscrito 12 000 alemães
  93. para conhecer alguém
    com uma opinião diferente.
  94. Por isso, tínhamos um problema.
  95. (Risos)

  96. Criámos rapidamente um algoritmo simples

  97. que encontrasse pares perfeitos
    como no Tinder,
  98. por exemplo, pessoas a viver
    o mais perto possível
  99. que tivessem respondido a perguntas
  100. da maneira mais diferente possível.
  101. Apresentámo-las por "email".
  102. Como podem imaginar,
    tínhamos muitas preocupações.
  103. Talvez ninguém fosse aparecer
    na vida real.
  104. Talvez todas as conversas
    presenciais fossem horríveis.
  105. Ou talvez aparecesse um assassino
    com um machado na nossa base de dados.
  106. (Risos)

  107. Mas, depois, num domingo de junho de 2017,

  108. aconteceu uma coisa maravilhosa.
  109. Milhares de alemães
    encontraram-se aos pares
  110. e falaram pacificamente de política.
  111. Como o Anno,
  112. um antigo polícia que é — ou era —
    contra o casamento homossexual,
  113. e a Anne, uma engenheira
    que vive numa união de facto
  114. com outra mulher.
  115. Falaram durante horas
    sobre todos os tópicos
  116. em que tinham opiniões diferentes.
  117. A certa altura
    — contou-nos o Anno depois —
  118. ele percebeu que a Anne estava
    magoada com as suas afirmações
  119. sobre o casamento homossexual,
  120. e ele começou a questionar
    os seus preconceitos.
  121. Depois de falarem durante três horas,
  122. a Anne convidou o Anno
    para a sua festa de verão
  123. e ainda hoje, anos depois,
  124. eles ainda se encontram
    de vez em quando e são amigos.
  125. O nosso algoritmo juntou,
    por exemplo, um oficial de diligências

  126. que também é porta-voz do partido
    populista de direita AfD na Alemanha,
  127. com uma conselheira de mulheres grávidas
  128. que tinha sido membro ativo
    no Partido dos Verdes.
  129. Até juntámos um professor
    com um seu aluno.
  130. (Risos)

  131. Foi o algoritmo.

  132. (Risos)

  133. Também juntámos um sogro
    com a própria nora,

  134. porque, obviamente, vivem muito perto
    mas têm opiniões muito diferentes.
  135. Regra geral,

  136. não observámos, não gravámos
    nem documentámos as conversas,
  137. porque não queríamos que as pessoas
    representassem de forma alguma.
  138. Mas eu fiz uma exceção.
  139. Eu também participei.
  140. E, assim, no meu bairro da moda,
    em Berlim, chamado Prenzlauer Berg,
  141. conheci o Mirko.
  142. Este sou eu a falar com o Mirko.
    O Mirko não quis aparecer na foto.
  143. É um jovem supervisor fabril,
  144. com um aspeto igual a todos
    os outros "hipsters" da nossa zona,
  145. com uma barba e um gorro.
  146. Falámos durante horas
    e achei que ele era uma ótima pessoa.
  147. Apesar de termos opiniões muito diferentes
  148. na maior parte dos tópicos
  149. — exceto talvez nos direitos das mulheres,
  150. em que eu não consegui
    compreender as ideias dele —
  151. foi muito agradável.
  152. Depois da nossa conversa,
    procurei o Mirko no Google.
  153. E descobri que ele tinha
    sido neonazi na adolescência.
  154. Então, liguei-lhe e perguntei:
  155. "Porque é que não me contaste?"
  156. E ele disse: "Sabes, não te contei
    porque quero ultrapassar isso."
  157. "Não quero falar mais disso."
  158. Eu pensava que as pessoas
    com uma história dessas

  159. nunca podiam mudar,
  160. e tive de repensar os meus preconceitos,
  161. tal como muitos dos participantes
    que nos enviaram milhares de "emails"
  162. e de "selfies".
  163. Não houve quaisquer registos de violência.

  164. (Risos)

  165. E não sabemos se alguns pares se casaram.

  166. (Risos)

  167. Mas, pelo menos, ficámos muito animados
    e quisemos repetir a experiência,

  168. especialmente na versão 2.0,
  169. quisemos expandir
    a diversidade dos participantes,
  170. porque obviamente, na primeira volta,
    eram, na sua maioria, leitores nossos.
  171. Por isso, fomos ter
    com os nossos concorrentes

  172. e pedimos a outros meios
    de comunicação para se juntarem.
  173. Coordenámos o nosso trabalho via Slack.
  174. E esta colaboração ao vivo
    de 11 grandes "media" alemães
  175. foi uma estreia na Alemanha.
  176. Tivemos mais do dobro:
    desta vez inscreveram-se 28 000 pessoas.
  177. E o presidente alemão
  178. — podem vê-lo aqui
    no centro da fotografia —
  179. foi o nosso patrono.
  180. E, assim, milhares de alemães
    encontraram-se novamente no verão de 2018
  181. para falar com alguém
    com uma opinião diferente da sua.
  182. Alguns dos pares foram convidados
    a vir a um evento especial em Berlim.
  183. E tiraram esta foto,
  184. que é, até hoje, o meu símbolo
    preferido do "A Alemanha Fala".
  185. Vemos o Heinrik, um motorista
    de autocarro e treinador de boxe,
  186. e o Engelbert, o diretor
    de um centro de ajuda a crianças.
  187. Responderam a todas
    as sete perguntas de forma diferente.
  188. Nunca se tinham
    encontrado antes deste dia,
  189. tiveram uma conversa muito intensa
  190. e, mesmo assim, pareceram
    dar-se bem um com o outro.
  191. Desta vez, também queríamos saber

  192. se a discussão teria algum
    impacto nos participantes.
  193. Pedimos a investigadores
    para questionarem os participantes.
  194. Dois terços dos participantes
    disseram que aprenderam alguma coisa
  195. sobre as atitudes do seu par.
  196. Uns 60% concordaram
    que os seus pontos de vista convergiam.
  197. O nível de confiança na sociedade
    também aumentou depois do evento,
  198. segundo os investigadores.
  199. Uns 90% disseram
    que gostaram da discussão,
  200. uns 10% disseram que não gostaram,
  201. dos quais 8% porque o par não apareceu.
  202. (Risos)

  203. Depois de "A Alemanha Fala", fomos
    abordados por "media" internacionais

  204. e, desta vez, decidimos criar
    uma plataforma séria e segura.
  205. Chamámos-lhe "O Meu País Fala".
  206. Neste curto espaço de tempo,
    "O Meu País Fala" já foi usado
  207. para mais de uma dúzia
    de eventos locais e nacionais,
  208. como "Het grote gelijk", na Bélgica,
    ou "Suomi puhuu", na Finlândia,
  209. ou o "Britain Talks", no Reino Unido.
  210. E como referi no início,
    lançámos o "Europa Fala",
  211. com mais 15 parceiros
    de "media" internacionais:
  212. desde o "Financial Times", no Reino Unido,
    ao "Helsingin Sanomat", na Finlândia.
  213. Milhares de europeus encontraram-se
    com um completo estranho
  214. para discutir política.
  215. Até agora, fomos abordados
  216. por mais de 150 órgãos de comunicação
    de todo o mundo
  217. e talvez um dia exista
    algo do tipo "O Mundo Fala",
  218. com centenas de milhares de participantes.

  219. Mas o que importa aqui não são os números,
  220. obviamente.
  221. O que importa aqui é...
  222. Sempre que duas pessoas se encontram
    para falar cara a cara durante umas horas
  223. sem mais ninguém a ouvir,
  224. elas mudam.
  225. E as nossas sociedades também mudam
  226. pouco a pouco, de conversa em conversa.
  227. O que importa é que aprendemos de novo
  228. a ter estas conversas cara a cara,
  229. sem mais ninguém a ouvir,
  230. com um desconhecido.
  231. Não apenas um estranho
    a quem somos apresentados
  232. pelo Tinder da política,
  233. mas também com um desconhecido
    num bar ou no ginásio,

  234. ou numa conferência.
  235. Por favor, encontrem-se com alguém
  236. e tenham um debate,
  237. e divirtam-se muito.

  238. Obrigado.

  239. (Aplausos)

  240. Uau!

  241. (Aplausos)