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20 llengües

Showing Revision 4 created 03/08/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Sabem como é quando perguntam
    a uma criança qual vai ser o seu futuro
  2. e ela responde que quer ter
    superpoderes ou apenas ser grande?
  3. Se me perguntassem em criança
    como seria o meu futuro aos 16 anos,
  4. provavelmente, eu diria que queria
    ser mais alta do que o meu pai,
  5. ter muitos amigos,
    andar sozinha pela cidade,
  6. ser totalmente independente
    e ter o cabelo muito comprido.
  7. Sempre tive muita imaginação
    e sempre adorei ler.

  8. Traduzir as letras em imagens e sons,
  9. embora tudo estivesse
    religiosamente silencioso,
  10. era uma forma de uma criança,
    humana e "muggle", ser especial.
  11. Todas as histórias me levavam a acreditar

  12. que a vida normal não era
    a única coisa e que a magia existia.
  13. A determinada altura comecei
    a ver as coisas escuras,
  14. a minha visão começava a escurecer
    na área periférica,
  15. até que tudo se tornava escuro
    e eu ficava um pouco tonta
  16. mas a minha imaginação era tão fértil
  17. que eu pensava que me estava
    a acontecer qualquer coisa mágica
  18. ou que estava a receber
    informações do universo.
  19. Eu sempre quis ser especial

  20. mas, à medida que crescia,
    tive de enfrentar o facto
  21. de que o mundo mágico estava
    cada vez mais longe de mim.
  22. Eu enfiava-me no armário lá de casa
  23. e pensava que, se esquecesse
    o painel do fundo,
  24. ele se desintegraria e eu poderia
    chegar a Nárnia.
  25. Mas não descobri nenhum
    armário mágico aos 8 anos,
  26. e não recebi nenhuma carta
    de Hogwarts, aos 11 anos
  27. e nenhum sátiro me disse
    que eu era uma semideusa, aos 12 anos.
  28. (Risos)
  29. A minha última esperança era que Gandalf
    me levasse para uma aventura, aos 50 anos.
  30. Mas, entretanto, aos 13 anos,
  31. subitamente, tornei-me
    numa pessoa muito especial,
  32. embora não fosse da forma
    que eu desejava.
  33. O universo não estava a dar-me
    informações secretas,

  34. estava a arrastar-me para um buraco nego.
  35. No dia 23 de setembro de 2015,
    às 7:35 da manhã,
  36. cheguei atrasada à escola,
    como de costume,
  37. porque o autocarro da cidade demorou
    muito a chegar a minha casa, como sempre.
  38. Entrei na sala de aula e caí,
  39. no meio da sala,
    em frente de toda a gente.
  40. Não vi uma mochila que estava no chão.
  41. Sentei-me na minha carteira e percebi
    que não conseguia ler as letras no quadro.
  42. Não conseguia ler.
  43. Liguei à minha mãe
    e, mais tarde, fui ao hospital,

  44. pensando que seria giro
    arranjar uns bonitos óculos.
  45. Mas não arranjei, nem sequer
    saí do hospital nesse dia.
  46. Diagnosticaram-me hidrocefalia,

  47. uma palavra pouco criativa que significa
    que temos demasiado líquido no cérebro,
  48. e vou revelar-vos um segredo.
  49. No meu caso, era provocado
    por um glioma
  50. que se tinha formado na passagem
    entre o primeiro e o terceiro ventrículo,
  51. na base da cabeça.
  52. Isso não permitia que o líquido
    do cérebro circulasse.
  53. Conseguia entrar, mas não conseguia sair
  54. o que tornava muito alta
    a minha pressão intracraniana
  55. e estava a danificar
    os meus nervos óticos.
  56. Mas os médicos não perceberam isso.
  57. Fiz uma operação, depois outra,
    e mais outra e mais outra.
  58. Eu estava numa espiral, num ciclo
    em que os meus pais e eu nos erguíamos,
  59. e depois a vida atingia-nos
    e nós voltávamos a cair,
  60. vezes sem conta.
  61. O meu mundo virou-se ao contrário
  62. e estávamos todos anestesiados
    com esta situação.
  63. Os meus pensamentos mágicos
    foram substituídos, de repente,
  64. por uma cascata de santos e de seres
  65. tão imateriais
    como a minha esperança em Gandalf.
  66. O problema é que o médico achava
    que sabia o que estava de errado comigo

  67. mas, como o meu problema era causado
    por uma coisa totalmente diferente,
  68. drenavam demasiado líquido
  69. e transformaram a pressão intracraniana
    demasiado alta
  70. numa pressão demasiado baixa.
  71. Em oito meses, sofri quatro operações
    com este procedimento.
  72. e outras três para tentar remediar
    as asneiras que aquele médico fez.
  73. Mas os estragos estavam feitos.
  74. Por fim, pude voltar para a escola

  75. mas eu já não era a mesma.
  76. A vida continuava para as pessoas normais
  77. mas eu tinha perdido
    muitos dos acontecimentos clássicos
  78. e a crise da adolescência,
    coisa que, honestamente, não me faz falta.
  79. Praticamente, passei um ano a dormir
  80. porque, como me tinham
    tirado a literatura,
  81. era a única forma de mergulhar
    noutra realidade,
  82. numa altura em que mais precisava.
  83. Mas, atenção, estou hoje aqui.
  84. Há um ditado que diz:

  85. "Caí num buraco,
    saí de lá como um gigante".
  86. É assim que eu me sinto
  87. porque sempre que uma coisa difícil
    nos acontece, há uma força,
  88. mesmo que seja quase invisível,
  89. que nos obriga a levantar-nos
  90. e, dessa vez, seremos muito mais sábios.
  91. Eu agora consigo concentrar-me
    e prestar muito mais atenção.

  92. E comer é uma experiência
    totalmente diferente.
  93. Sempre que como "bolinhos de chuva",
  94. tipo bolas de Berlim,
  95. sou transportada imediatamente
    a um sítio bom e seguro
  96. onde há nuvens de açúcar e canela.
  97. Também quando oiço ou toco música,
  98. é uma forma de fugir às dificuldades
    que passo na minha vida.
  99. E agora lembro-me
    de todas as letras de Bob Dylan
  100. o que é uma loucura.
  101. A minha imaginação
    é mais intensa do que nunca,

  102. porque agora uso-a
    como um dos sentidos mais importantes.
  103. É o sentido que me permite
    criar um mundo totalmente novo,
  104. com base naquilo que vi
    e noutros canais sensoriais.
  105. Tenho de usar a imaginação
    como um instrumento criativo e lógico
  106. para sobreviver nesta realidade
    que repousa demasiado na simulação visual.
  107. Consigo fazer isso porque há uma diferença
    entre olhar e ver
  108. como a que existe entre ouvir e escutar.
  109. Ver e escutar não são apenas
    capacidades apuradas dos nossos sentidos

  110. mas significam sensibilidade
  111. para compreender as coisas
    e sentir empatia pelos outros,
  112. por isso penso que agora
    vejo melhor do que antes.
  113. Por exemplo, vejo que vocês
    estão a prestar atenção.
  114. Na mitologia grega, o adivinho
    mais famoso, Tirésias, era cego
  115. porque não se deixava enganar
  116. pela armadilha do aspeto
    e do mundo visual.
  117. Claro que não sou a pessoa de 16 anos
    que pensava vir a ser

  118. e não tenho a vida que julgava vir a ter
  119. mas, se me perguntarem
    se eu gostaria de voltar atrás
  120. e impedir o que me aconteceu,
  121. eu aprendi tanta coisa que não quero
    esquecer que a resposta é não.
  122. Obrigada.
  123. (Aplausos)