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A perda da minha visão me fez descobrir meu superpoder - Maria Stockler Carvalhosa

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    Sabe quando você pergunta
    a uma criança sobre o futuro dela
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    e ela responde que quer ter
    superpoderes ou ser grande?
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    Se você me perguntasse como seria
    minha vida aos 16 anos,
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    eu provavelmente responderia:
    "Ser mais alta que meu pai,
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    ter muitos amigos,
    andar sozinha pela cidade,
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    ser completamente independente
    e ter cabelo bem comprido".
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    Eu sempre tive muita imaginação
    e sempre amei ler.
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    Traduzir letras em imagens e som,
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    apesar de tudo ser
    religiosamente silencioso,
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    era uma maneira para uma criança,
    humana e "trouxa", tornar-se especial.
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    As histórias me fizeram acreditar
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    que não existe apenas
    a vida material normal
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    e que a magia também existe.
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    Depois de uma certa idade,
    comecei a enxergar preto,
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    minha visão começava a ficar
    escurecida na área periférica,
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    até que tudo ser tornava preto
    e eu ficava um pouco tonta,
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    mas minha imaginação era tão fértil
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    que eu pensava que algo mágico
    estava acontecendo comigo
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    ou que eu estava recebendo
    uma informação secreta do universo.
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    Eu sempre quis ser especial,
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    mas enquanto eu crescia
    tive que lidar com o fato
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    de que o mundo mágico estava ficando
    cada vez mais distante de mim.
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    Eu entrava no guarda-roupa de casa
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    pensando que se eu me esquecesse
    da tábua na parte de trás,
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    ela se desintegraria
    e eu poderia ir a Nárnia.
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    Mas eu não descobri
    um guarda-roupa mágico aos 8 anos,
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    não recebi minha carta
    de Hogwarts aos 11 anos,
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    e nenhum sátiro me contou
    que eu era uma semideusa aos 12 anos.
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    Então, minha última esperança era ir
    com o Gandalf numa aventura aos 50 anos.
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    (Risos)
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    Mas, entretanto, aos 13 anos,
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    eu me tornei alguém especial,
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    apesar de não ter sido
    do jeito que eu esperava.
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    O universo não estava me passando
    nenhuma informação secreta,
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    ele estava me arrastando
    para um buraco negro.
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    No dia 23 de setembro de 2015,
    às 7h35 da manhã,
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    eu me atrasei para a escola,
    como de costume,
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    porque o ônibus demorava muito
    para chegar à minha casa, como sempre.
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    Eu entrei na sala e caí.
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    No meio da sala, na frente de todo mundo.
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    Eu não vi a mochila que estava no chão.
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    Eu sentei na minha cadeira e percebi
    que não enxergava as letras na lousa.
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    Eu não conseguia ler.
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    Então, liguei para minha mãe
    e naquele dia fui ao hospital,
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    pensando como seria legal usar óculos.
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    Mas eu não ganhei nenhum óculos,
    eu nem saí do hospital naquele dia.
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    Eu fui diagnosticada com hidrocefalia,
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    uma palavra não muito criativa para dizer
    que tenho muito líquido no cérebro,
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    e vou dar um "spoiler",
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    no meu caso, era porque um glioma
    tinha se formado na passagem
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    entre o primeiro e o terceiro ventrículo,
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    na base da minha cabeça.
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    O líquido do meu cérebro não podia fluir,
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    ele entrava, mas não saía,
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    fazendo minha pressão
    intracraniana aumentar
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    e isso estava danificando
    meus nervos ópticos.
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    Mas os médicos não tinham percebido isso.
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    Eu passei por uma cirurgia,
    depois outra, e outra e mais outra.
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    Eu estava num espiral com meus pais,
    um ciclo no qual toda vez que levantávamos
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    a vida revidava nos jogando no chão,
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    por várias vezes.
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    Meu mundo virou do avesso
    e ficamos paralisados pela situação.
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    Meus pensamentos mágicos foram
    substituídos por santos e entidades,
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    que eram tão imateriais como o Gandalf.
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    O problema era que o médico tinha certeza
    do que estava acontecendo comigo.
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    Mas como o meu problema era causado
    por algo completamente diferente,
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    eles drenaram líquido demais,
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    então, o problema se transformou
    de alta pressão intracraniana
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    para pressão extremamente baixa.
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    Em oito meses, passei por quatro
    cirurgias com esse procedimento
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    e outras três tentaram consertar
    a bagunça que o médico tinha feito.
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    Mas o dano já tinha sido feito.
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    Finalmente, eu poderia
    voltar para a escola,
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    mas eu não era mais a mesma.
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    A vida seguiu para as demais pessoas
    e perdi momentos clássicos
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    e a crise da adolescência
    que, honestamente, não sinto falta.
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    (Risos)
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    Afinal, passei um ano dormindo,
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    porque já que a literatura
    tinha sido tirada de mim,
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    esse era o único jeito de me afundar
    em outra realidade quando eu precisava.
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    Mas pelo menos estou aqui hoje.
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    Tem uma frase que diz: "Eu caí
    num buraco, porém saí mais forte".
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    É assim que me sinto,
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    porque toda vez que algo difícil
    acontece com você, existe uma força,
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    podendo até ser imperceptível,
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    que vai te levantar de novo,
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    e, dessa vez, você será muito mais sábio.
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    Eu posso me concentrar
    e focar muito mais hoje.
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    Comer é uma experiência
    totalmente diferente.
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    Toda vez que como bolinho de chuva,
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    eu sou transportada para um lugar
    feliz e seguro onde há nuvens de açúcar
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    e canela.
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    E quando escuto música
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    eu posso escapar das dificuldades
    que passei na minha vida.
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    Agora eu consigo memorizar
    as músicas do Bob Dylan,
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    o que é bem maluco.
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    Minha imaginação está
    mais ativa do que nunca
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    porque agora posso usar
    um dos sentidos mais importantes.
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    É o que me permite construir
    um mundo completamente diferente
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    a partir do que eu já vi
    e de outros canais sensoriais.
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    Eu preciso usar a minha imaginação
    como um instrumento criativo e lógico
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    para sobreviver nessa realidade
    que depende muito de estimulação visual.
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    E posso fazer isso porque há
    uma diferença entre ver e enxergar
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    assim como há entre ouvir e escutar.
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    Ver e escutar não tem a ver
    com a precisão dos seus sentidos,
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    mas com a sensibilidade,
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    de entender as coisas e ter empatia,
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    acho que vejo as coisas
    bem melhor do que antes.
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    Por exemplo, eu sei
    que vocês estão prestando atenção.
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    (Risos)
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    Na mitologia grega, o profeta
    mais famoso, Tirésias, era cego,
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    porque ele não era enganado
    pelas armadilhas da aparência.
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    Sabe,
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    eu não sou a pessoa de 16 anos
    que imaginava ser
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    e não tenho a vida que imaginava ter,
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    mas se você me perguntar
    se eu quero voltar no tempo
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    e impedir que tudo isso aconteça,
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    depois de aprender tanto,
    minha resposta é não.
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    Obrigada.
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    (Aplausos)
Títol:
A perda da minha visão me fez descobrir meu superpoder - Maria Stockler Carvalhosa
Descripció:

Portais mágicos, cartas de Hogwarts, aventuras com o Gandalf, essas são algumas das fantasias literárias que Maria Stockler gostaria de viver. Contudo, aos 13 anos, depois de uma série de eventos assombrosos que a fizeram perder sua visão, Maria deixou de ver o mundo dos seus sonhos do mesmo jeito. Nesta palestra inspiradora, Maria compartilha como a perda de um dos seus sentidos a ajudou a aperfeiçoar um que se tornaria seu superpoder. "Existe uma diferença entre ver e enxergar... Acho que vejo as coisas bem melhor do que antes."

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English
Team:
closed TED
Projecte:
TED-Ed
Duration:
06:47

Portuguese, Brazilian subtitles

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