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← O que o nosso hálito pode revelar sobre a nossa saúde

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27 llengües

Showing Revision 5 created 02/09/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Tenho a tendência para pensar no pior

  2. e, de vez em quando,
    este hábito prega-me partidas.
  3. Por exemplo, se sinto
    uma dor inesperada,
  4. que nunca tenha sentido antes
    e que não sei explicar,
  5. de repente, transformo logo
    uma dor nas costas numa doença cardíaca
  6. ou atribuo uma dor muscular
    a uma terrível trombose nas veias.
  7. Mas, até agora, nunca me diagnosticaram
    qualquer doença mortal ou incurável.
  8. Por vezes, as coisas doem
    sem qualquer razão aparente.
  9. Mas nem toda a gente
    tem tanta sorte como eu.

  10. Todos os anos, morrem mais
    de 50 milhões de pessoas no mundo.
  11. Em economias de altos rendimentos
    como a nossa, especialmente,
  12. uma grande porção de mortes
    é causada por doenças de lenta progressão;
  13. doenças cardíacas,
    doenças pulmonares crónicas,
  14. cancro, doença de Alzheimer, diabetes,
  15. só para falar de algumas.
  16. A humanidade tem feito enormes progressos

  17. no diagnóstico e tratamento
    de muitas delas.
  18. Mas estamos numa fase
    em que mais progressos na saúde
  19. só podem ser alcançados
    se desenvolvermos novos tratamentos.
  20. Isto torna-se evidente
    se olharmos para um aspeto
  21. que muitas destas doenças
    têm em comum:
  22. a probabilidade de um tratamento eficaz
  23. depende fortemente
    da altura do início do tratamento.
  24. Mas uma doença normalmente só é detetada
    quando ocorrem os seus sintomas.
  25. O problema é que muitas dessas doenças
    podem manter-se sem sintomas
  26. e, portanto, não são detetadas
    durante muito tempo.
  27. Por isso, há uma necessidade
    premente de novas formas
  28. de detetar essas doenças
    numa fase inicial,
  29. muito antes de aparecerem
    quaisquer sintomas.
  30. Nos cuidados de saúde,
    isto chama-se rastreio.
  31. Conforme definido
    pela Organização Mundial de Saúde,

  32. o rastreio é "a identificação suspeita
    de uma doença não reconhecida
  33. "numa pessoa aparentemente saudável,
  34. "através de exames... que podem
    ser realizados rápida e facilmente..."
  35. É uma longa definição,
    por isso, vou repetir:
  36. "a identificação suspeita
    de uma doença não reconhecida
  37. "numa pessoa aparentemente saudável,
  38. "através de exames... que podem
    ser realizados rápida e facilmente..."
  39. Quero sublinhar, em especial,
    as palavras "rápida e facilmente"
  40. porque muitos dos métodos
    de rastreio existentes
  41. são exatamente o oposto.
  42. Quem já fez uma colonoscopia
  43. num programa de rastreio para deteção
    de um cancro do colon ou retal,
  44. sabem o que eu quero dizer.
  45. Obviamente, há uma série
    de instrumentos médicos disponíveis

  46. para realizar exames de rastreio.
  47. Vão desde técnicas de imagiologia,
    como uma radiografia
  48. ou uma ressonância magnética,
  49. até à análise do sangue ou de tecidos.
  50. Temos todos esses exames.
  51. Mas há um meio que deixou
    de ser considerado, há muito tempo,
  52. um meio que é facilmente acessível,
  53. nunca se esgota
  54. e detém uma promessa enorme
    de análise médica.
  55. É o nosso hálito.
  56. O hálito humano é basicamente
    composto por cinco componentes:

  57. azoto, oxigénio, dióxido de carbono,
    água e árgon.
  58. Para além destes cinco,
    há centenas de outros componentes
  59. que estão presentes
    em quantidades muito baixas.
  60. Chamam-se os compostos orgânicos voláteis,
  61. libertamos centenas ou milhares deles
  62. sempre que expiramos.
  63. A análise destes compostos
    orgânicos voláteis no nosso hálito
  64. chama-se análise da respiração.
  65. Penso que muitos de vocês
    já fizeram análise da respiração.
  66. Imaginem: estão a conduzir
    de volta a casa, ao fim da noite
  67. quando, de súbito, há um simpático
    agente da polícia
  68. que vos pede, amável mas firmemente,
  69. que saiam do carro e soprem
    para um aparelho como este.
  70. É um analisador do álcool
    na respiração
  71. que se usa para medir a concentração
    do etanol na nossa respiração
  72. e determinar se conduzir
    no nosso estado é uma ideia inteligente.
  73. Devo dizer que a minha condução
    estava perfeita
  74. mas vou verificar.
  75. (Bip)

  76. 0,0 — portanto, nada que preocupe,
    está tudo bem.

  77. (Risos)

  78. Agora imaginem um aparelho como este

  79. que não meça apenas os níveis
    do álcool na nossa respiração,
  80. mas também detete doenças
    como as que já mostrei
  81. e possivelmente, muitas mais.
  82. O conceito de correlação
    o cheiro do hálito duma pessoa
  83. com determinadas situações médicas,
  84. é muito antigo, remonta à Grécia Antiga.
  85. Mas só recentemente, os esforços
    da investigação na análise da respiração
  86. aumentaram exponencialmente.
  87. O que outrora era um sonho
    está a tornar-se realidade.
  88. Vou mostrar de novo esta lista
    que já vos mostrei há bocado.
  89. Para a maior parte
    das doenças aqui listadas,
  90. há provas científicas substanciais
  91. que sugerem que a doença
    pode ser detetada
  92. através da análise da respiração.
  93. Como é que isso funciona, exatamente?

  94. A parte essencial é um sensor
  95. que deteta os compostos orgânicos
    voláteis na nossa respiração.
  96. Ou seja, quando exposto
    a uma amostra do hálito,
  97. o sensor produz uma assinatura complexa
  98. que resulta da mistura dos compostos
    orgânicos voláteis que exalamos.
  99. Esta assinatura representa
  100. uma impressão digital
    do nosso metabolismo,
  101. o nosso microbioma
  102. e os procedimentos bioquímicos
    que ocorrem no nosso corpo.
  103. Se temos uma doença,
  104. o nosso organismo altera-se
  105. e o mesmo acontece
    à composição da nossa expiração.
  106. Depois, só há que correlacionar
    uma determinada assinatura
  107. com a presença ou a ausência
    de determinadas situações médicas.
  108. A tecnologia promete
    certos benefícios inegáveis.

  109. Primeiro, o sensor pode ser miniaturizado
  110. e integrado em pequenos
    aparelhos portáteis,
  111. como o teste do álcool na respiração.
  112. Isso permite que o teste seja usado
    em muitos ambientes diferentes,
  113. até mesmo em casa.
  114. Assim, não será necessário
    ir ao consultório dum médico
  115. sempre que seja preciso
    realizar um exame.
  116. Segundo, a análise da respiração
    não é invasiva

  117. e pode ser tão simples como soprar
    para um aparelho de teste do álcool.
  118. Essa simplicidade e facilidade de uso
    reduzirão a carga do doente
  119. e proporcionarão um incentivo
    para uma ampla adoção da tecnologia.
  120. Terceiro, a tecnologia é tão flexível

  121. que o mesmo aparelho
    pode ser usado
  122. para detetar uma ampla gama
    de situações médicas.
  123. A análise da respiração pode ser usada
    para rastreio de muitas doenças,
  124. ao mesmo tempo.
  125. Atualmente, cada doença exige
    um instrumento médico diferente
  126. para realização dum teste de rastreio.
  127. Mas isso significa que só encontraremos
    aquilo que procuramos.
  128. Com todas estas características,

  129. a análise da respiração está predestinada
    a proporcionar aquilo que falta
  130. a muitos testes de rastreio tradicionais.
  131. Mais importante ainda,
  132. todas estas características
    acabam por nos fornecer
  133. uma plataforma para análise médica
  134. que pode funcionar numa
    base muito barata por exame.
  135. Pelo contrário, os instrumentos
    médicos existentes
  136. levam frequentemente
    a um alto custo por exame.
  137. Por isso, a fim de reduzir os custos,
  138. é preciso reduzir o número de exames.
  139. Isso significa, por um lado,
    que os exames só podem ser realizados
  140. numa pequena parte da população,
    por exemplo, na população de alto risco;
  141. e, por outro lado, que o número de exames
    por pessoa tem de ser reduzido ao mínimo.
  142. Mas não seria benéfico
  143. se o exame fosse realizado
    num grupo maior de pessoas,
  144. mais frequentemente e durante
    um período mais longo de tempo
  145. para cada pessoa?
  146. Especialmente, esta última parte
    dar-nos-ia acesso a uma coisa valiosa
  147. que se chama dados longitudinais.
  148. Os dados longitudinais são
    um conjunto de dados

  149. que acompanham uma pessoa
    durante muitos meses ou anos.
  150. Atualmente, as decisões médicas
    baseiam-se com frequência
  151. num conjunto limitado de dados,
  152. em que só está disponível um vislumbre
    da história médica duma pessoa
  153. para a tomada de decisões.
  154. Nesses casos,
  155. uma anomalia é detetada,
    habitualmente.
  156. comparando o perfil da saúde da pessoa
  157. com o perfil médio da saúde
    duma população de referência.
  158. Os dados longitudinais
    abrem uma nova dimensão
  159. e permitem detetar uma anomalia
  160. com base na história médica
    da própria pessoa.
  161. Isso abre o caminho
    para um tratamento personalizado.
  162. Parece uma coisa boa, não é?

  163. Certamente, vocês devem estar
    a perguntar:
  164. "Se essa tecnologia é tão boa como ele diz
    porque é que não a estamos a usar?"
  165. A única resposta que vos posso dar é:
  166. nem tudo é tão fácil como prece.
  167. Há problemas técnicos, por exemplo.
  168. São necessários sensores
    extremamente fiáveis
  169. que consigam detetar misturas
    de compostos orgânicos voláteis
  170. com uma reprodução suficiente.
  171. Outro problema técnico é este:
  172. Como obter uma amostra do hálito
    duma pessoa, de um modo definido,
  173. de modo a que o próprio processo
    de amostragem
  174. não altere o resultado da análise?
  175. Há a necessidade de dados.
  176. A análise da respiração precisa
    de ser validada em testes clínicos,
  177. e é preciso recolher dados suficientes
  178. para poder medir as situações individuais
    em relação a linhas de referência.
  179. A análise da respiração só pode ter êxito
  180. se podermos gerar um enorme
    conjunto de dados
  181. e torná-los disponíveis
    para uma ampla utilização.
  182. Se a análise da respiração
    cumprir as suas promessas,

  183. é uma tecnologia que nos poderá ajudar
  184. a transformar o nosso sistema de saúde,
  185. a transformá-lo de um sistema reativo
  186. — em que o tratamento se segue
    aos sintomas da doença —
  187. para um sistema proativo
  188. — em que a deteção da doença,
    o diagnóstico e o tratamento
  189. podem ocorrer numa fase precoce,
  190. muito antes de aparecerem
    quaisquer sintomas.
  191. Isto leva-me ao último ponto
    que é um ponto fundamental.

  192. O que é exatamente uma doença?
  193. Imaginem que a análise da respiração
    pode ser comercializada como a descrevi,
  194. e a deteção precoce se torna uma rotina.
  195. Mantém-se um problema,
  196. que é um problema que qualquer
    atividade de rastreio tem de enfrentar
  197. porque, para muitas doenças,
  198. é impossível prever
    com uma certeza absoluta
  199. se essa doença alguma vez
    causaria quaisquer sintomas
  200. ou poria em risco a vida duma pessoa.
  201. Chama-se a isto "sobrediagnóstico"
  202. e conduz-nos a um dilema.
  203. Se identificarmos uma doença
  204. podemos decidir não a tratar
  205. porque há uma certa probabilidade
    de nunca virmos a sofrer dela.
  206. Mas até que ponto sofreríamos
  207. só por saber que temos
    uma doença possivelmente mortal?
  208. Não lamentaríamos
    ter detetado essa doença?
  209. A nossa segunda opção
    é fazer um tratamento precoce

  210. na esperança de a curar.
  211. Mas, muitas vezes, esse tratamento
    tem efeitos colaterais.
  212. Para explicar melhor:

  213. o maior problema não é
    o sobrediagnóstico,
  214. é o sobretratamento,
  215. porque nem todas as doenças
    têm de ser tratadas imediatamente
  216. só porque há um tratamento disponível.
  217. A adoção crescente
    dos rastreios de rotina
  218. colocam a questão:
  219. A que é que chamamos uma doença
    que pode racionalizar um tratamento
  220. e o que é uma anomalia
    que não justifica uma preocupação?
  221. A minha esperança
    é que os rastreios de rotina
  222. que usarem a análise da respiração
  223. nos forneçam dados suficientes
    e uma visão suficiente
  224. para que, a determinada altura,
    possamos ultrapassar este dilema
  225. e prever com uma certeza suficiente
  226. se e quando fazer um tratamento
    numa fase precoce.
  227. A nossa respiração e a mistura
    dos compostos orgânicos voláteis

  228. que exalamos
  229. contêm enormes quantidades de informações
  230. sobre o nosso estado fisiológico.
  231. Com o que sabemos atualmente,
    só arranhámos a superfície.
  232. À medida que reunirmos mais dados
    e perfis de respiração da população,
  233. incluindo todas as variedades de sexos,
    de idade, de origens e de estilos de vida,
  234. o poder da análise da respiração
    aumentará.
  235. Por fim, a análise da respiração
    fornecer-nos-á um instrumento poderoso
  236. não só para detetar proativamente
    doenças específicas,
  237. mas para as prever e, em última análise,
    para as evitar.
  238. Isto devia ser uma motivação suficiente
  239. para aproveitar
    as oportunidades e os desafios
  240. que a análise da respiração
    pode proporcionar
  241. mesmo para as pessoas que não sejam
    hipocondríacas em "part-time", como eu.
  242. Obrigado.

  243. (Aplausos)