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← O que nosso hálito pode revelar sobre nossa saúde

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27 llengües

Showing Revision 32 created 02/19/2019 by Maricene Crus.

  1. Tenho uma tendência de presumir o pior
  2. e, de vez em quando,
    esse hábito me prega uma peça.
  3. Por exemplo, se sinto uma dor inesperada
  4. que nunca senti antes e não sei explicar,
  5. de repente, transformo uma dor nas costas
    em uma doença cardíaca
  6. ou uma dor muscular
    em uma trombose venosa profunda.
  7. Mas, até agora, nunca me diagnosticaram
    qualquer doença mortal ou incurável.
  8. Às vezes, a dor não tem
    qualquer razão aparente.
  9. Mas nem todos têm tanta sorte quanto eu.

  10. Todos os anos, morrem mais
    de 50 milhões de pessoas no mundo.
  11. Especialmente em economias
    de altos rendimentos como a nossa,
  12. a maioria das mortes é causada
    por doenças de progressão lenta:
  13. doenças cardíacas,
    doenças pulmonares crônicas,
  14. câncer, Alzheimer, diabetes,
  15. só para mencionar algumas.
  16. A humanidade tem feito enormes progressos

  17. no diagnóstico e tratamento
    de muitas delas.
  18. Mas estamos numa fase
    em que novos avanços na saúde
  19. não podem ser alcançados
    apenas com novos tratamentos.
  20. Isso se torna evidente
  21. quando analisamos um aspecto
    que muitas dessas doenças têm em comum:
  22. a probabilidade de um tratamento eficaz
  23. depende muito de quando
    o tratamento é iniciado.
  24. Mas uma doença geralmente só é detectada
    quando aparecem os sintomas.
  25. O problema é que muitas doenças
    podem permanecer assintomáticas
  26. e, portanto, não detectadas
    por muito tempo.
  27. Por isso, há uma necessidade
    permanente de novas maneiras
  28. de detectar uma doença na fase inicial,
  29. muito antes do aparecimento
    de quaisquer sintomas.
  30. Na assistência médica,
    isso é chamado de check-up.
  31. Conforme definido
    pela Organização Mundial da Saúde,

  32. o check-up é "a identificação presumível
    de uma doença não reconhecida
  33. em uma pessoa aparentemente saudável,
  34. por meio de exames, que podem ser
    realizados de modo rápido e fácil".
  35. É uma definição longa,
    por isso, vou repetir:
  36. "identificação presumível
    de uma doença não reconhecida
  37. em uma pessoa aparentemente saudável,
  38. por meio de exames, que podem ser
    realizados de modo rápido e fácil".
  39. Quero dar ênfase especial
    às palavras "rápido" e "fácil"
  40. porque muitos dos métodos
    de check-up existentes
  41. são exatamente o oposto.
  42. Quem já fez uma colonoscopia no check-up
  43. para detectar câncer colorretal,
  44. sabe o que quero dizer.
  45. Obviamente, há uma série
    de instrumentos médicos disponíveis

  46. para a realização de check-ups:
  47. desde diagnósticos por imagem,
  48. como radiografia ou ressonância magnética,
  49. até exame de sangue ou tecidos.
  50. Todos nós já fizemos esses exames.
  51. Mas há um meio,
    há muito tempo negligenciado,
  52. facilmente acessível,
  53. inesgotável
  54. e que reserva uma promessa
    enorme para as análises médicas:
  55. nosso hálito.
  56. O hálito humano é basicamente
    composto por cinco componentes:

  57. nitrogênio,
  58. oxigênio,
  59. dióxido de carbono, água e árgon.
  60. Mas, além deles, há centenas
    de outros componentes
  61. presentes em quantidades muito baixas.
  62. São chamados de compostos
    orgânicos voláteis,
  63. e liberamos centenas,
    ou até milhares deles,
  64. toda vez que expiramos.
  65. A análise desses compostos em nosso hálito
  66. chama-se análise do hálito.
  67. Acredito que muitos de vocês
    já fizeram essa análise.
  68. Imagine que você está dirigindo
    para casa, tarde da noite,
  69. quando, de repente, um policial simpático
  70. pede a você, de maneira gentil, mas firme,
  71. que pare o carro e sopre
    em um aparelho como este.
  72. É um bafômetro,
  73. usado para medir a concentração
    de álcool em nosso hálito
  74. e determinar se dirigir
    em nossa condição é uma boa ideia.
  75. Eu diria que estava dirigindo
    muito bem, mas vou verificar.
  76. (Bipe)

  77. Deu 0,0; então, nada com que
    me preocupar; está tudo bem.

  78. (Risos)

  79. Agora imaginem um aparelho como este,

  80. que não só mede os níveis de álcool
    em nosso hálito,
  81. mas também detecta doenças
    como as que vimos
  82. e, possivelmente, muitas mais.
  83. O conceito de correlacionar
    o cheiro do hálito de uma pessoa
  84. a determinadas condições médicas,
  85. de fato, tem origem na Grécia Antiga.
  86. Mas só recentemente os esforços
    de pesquisa na análise do hálito
  87. aumentaram vertiginosamente.
  88. O que antes era um sonho
    está se tornando realidade.
  89. Vou apresentar de novo
    esta lista que mostrei anteriormente.
  90. Para a maioria das doenças aqui listadas,
  91. há provas científicas substanciais
  92. que sugerem que a doença
    pode ser detectada
  93. por meio da análise do hálito.
  94. Mas como funciona exatamente?

  95. A parte essencial é um sensor
  96. que detecta os compostos orgânicos
    voláteis em nosso hálito.
  97. Ou seja, quando exposto
    a uma amostra do hálito,
  98. o sensor produz uma assinatura complexa
  99. que resulta da mistura
    desses compostos que exalamos.
  100. Essa assinatura
  101. representa uma impressão digital
    de nosso metabolismo,
  102. nosso microbioma
  103. e os processos bioquímicos
    que ocorrem em nosso corpo.
  104. Se você tem uma doença,
  105. seu organismo se altera,
  106. e o mesmo acontece
    com a composição de sua expiração.
  107. Depois só nos resta correlacionar
    uma determinada assinatura
  108. à presença ou ausência
    de determinadas condições médicas.
  109. A tecnologia promete
    vários benefícios inegáveis.

  110. Primeiro, o sensor pode ser miniaturizado
  111. e integrado em pequenos
    aparelhos portáteis,
  112. como este bafômetro.
  113. Isso permite que o teste seja usado
    em muitos contextos diferentes,
  114. até mesmo em casa.
  115. Assim não será necessário
    ir ao consultório médico
  116. sempre que for preciso realizar um exame.
  117. Segundo, a análise do hálito
    não é invasiva

  118. e pode ser tão simples
    quanto soprar em um bafômetro.
  119. Essa simplicidade e facilidade de uso
    pode reduzir o ônus do paciente
  120. e fornecer um incentivo
    para ampla adoção da tecnologia.
  121. Terceiro, a tecnologia é tão flexível

  122. que o mesmo aparelho pode ser usado
  123. para detectar uma ampla série
    de condições médicas.
  124. A análise do hálito pode ser usada
    para monitorar muitas doenças
  125. ao mesmo tempo.
  126. Atualmente, cada doença exige
    um instrumento médico diferente
  127. para realizar um check-up.
  128. Mas isso significa que só encontraremos
    aquilo que procuramos.
  129. Com todas essas características,

  130. a análise do hálito está predestinada
  131. a proporcionar o que falta
    em muitos check-ups tradicionais.
  132. O mais importante
  133. é que todas essas características
    acabam nos fornecendo
  134. uma plataforma para análises médicas
  135. que pode funcionar a um baixo
    custo atrativo por exame.
  136. Pelo contrário, os instrumentos
    médicos existentes
  137. levam muitas vezes
    a um alto custo por exame.
  138. Por isso, a fim de reduzir os custos,
  139. é preciso restringir
    a quantidade de exames.
  140. Isso significa, por um lado,
    que os exames só podem ser realizados
  141. em uma pequena parte da população,
    por exemplo, a de alto risco;
  142. e, por outro, que a quantidade de exames
    por pessoa tem que ser mantida ao mínimo.
  143. Mas será que não seria benéfico
    se o exame fosse realizado
  144. em um grupo maior de pessoas,
    com mais frequência,
  145. e por um período de tempo maior
    para cada pessoa?
  146. Isso daria acesso a algo valioso
  147. chamado dados longitudinais.
  148. Dados longitudinais
    são um conjunto de dados

  149. que faz o acompanhamento do paciente
    durante muitos meses ou anos.
  150. Atualmente, as decisões médicas
    baseiam-se com frequência
  151. em um conjunto limitado de dados,
  152. que disponibiliza apenas uma visão rápida
    do histórico médico de um paciente
  153. para a tomada de decisões.
  154. Nesses casos,
  155. anomalias geralmente são detectadas
  156. comparando-se o perfil
    da saúde do paciente
  157. com o perfil médio da saúde
    de uma população de referência.
  158. Os dados longitudinais
    apresentam uma nova dimensão
  159. e permitem detectar anomalias
  160. com base no próprio
    histórico médico do paciente.
  161. Isso abre caminho
    para um tratamento personalizado.
  162. Parece ótimo, não é mesmo?

  163. Com certeza, vocês devem
    estar se perguntando:
  164. "Se a tecnologia é tão ótima como ele diz,
    por que não a estamos usando?"
  165. A única resposta que posso lhes dar
  166. é que nem tudo é tão fácil como parece.
  167. Há desafios técnicos, por exemplo:
  168. são necessários sensores
    extremamente confiáveis
  169. capazes de detectar misturas
    de compostos orgânicos voláteis
  170. com reprodutibilidade suficiente.
  171. Outro desafio técnico é:
  172. como obter uma amostra
    do hálito de uma pessoa,
  173. de modo muito definido,
  174. para que o processo de amostragem em si
    não altere o resultado da análise?
  175. Há a necessidade de dados.
  176. A análise do hálito precisa
    ser validada em testes clínicos,
  177. e é preciso coletar dados suficientes
    para que condições individuais
  178. possam ser medidas
    em relação a linhas de referência.
  179. A análise do hálito só poderá ter êxito
  180. se um conjunto de dados
    extenso o bastante puder ser gerado
  181. e disponibilizado para ampla utilização.
  182. Se a análise do hálito
    mantiver a promessa,

  183. será uma tecnologia capaz de nos ajudar
    a transformar nosso sistema de saúde
  184. de um sistema reativo,
  185. em que o tratamento tem início
    pelos sintomas da doença,
  186. para um sistema proativo,
  187. em que a detecção, o diagnóstico
    e o tratamento da doença
  188. podem ocorrer na fase inicial,
  189. muito antes do aparecimento
    de quaisquer sintomas.
  190. Isso me traz à minha última
    questão fundamental:

  191. "O que é exatamente uma doença?"
  192. Imaginem que a análise do hálito
    possa ser comercializada como a descrevi,
  193. e que a detecção precoce
    torne-se uma rotina.
  194. Permanece um problema que qualquer
    check-up tem que enfrentar,
  195. porque, para muitas doenças,
  196. é muitas vezes impossível prever,
    com bastante certeza,
  197. se essa doença irá causar
    quaisquer sintomas
  198. ou colocar em risco
    a vida de uma pessoa.
  199. Isso se chama sobrediagnóstico,
  200. e nos leva a um dilema.
  201. Se uma doença for identificada,
  202. você pode decidir não tratá-la,
  203. porque há uma certa probabilidade
    de que nunca sofrerá dela.
  204. Mas até que ponto você sofreria
  205. só de saber que tem uma doença
    possivelmente mortal?
  206. E não se lamentaria se essa doença
    não tivesse sido detectada antes?
  207. Nossa segunda opção
    é fazer um tratamento precoce

  208. na esperança de curá-la.
  209. Mas muitas vezes esse tratamento
    tem efeitos colaterais.
  210. Para ser preciso:

  211. o maior problema não é o sobrediagnóstico;
  212. é o sobretratamento,
  213. porque nem toda doença
    tem que ser tratada imediatamente
  214. só porque há um tratamento disponível.
  215. A adoção crescente dos check-ups de rotina
  216. levanta a questão:
  217. "O que chamamos de doença,
    que pode justificar o tratamento,
  218. e o que é apenas uma anomalia,
    que não deveria ser uma preocupação?"
  219. Minha esperança
    é que os check-ups de rotina
  220. que usarem a análise do hálito
  221. possam fornecer discernimento
    e dados suficientes
  222. para que, em algum momento,
    possamos acabar com esse dilema
  223. e prever com bastante certeza
  224. se e quando faremos
    um tratamento na fase inicial.
  225. Nosso hálito

  226. e a mistura dos compostos orgânicos
    voláteis que exalamos
  227. contêm enormes quantidades de informações
  228. sobre nosso estado fisiológico.
  229. Com o que sabemos atualmente,
    nós apenas arranhamos a superfície.
  230. À medida que reunirmos mais dados
    e perfis de hálito da população,
  231. incluindo todas as variedades de sexo,
    idade, origem e estilos de vida,
  232. o poder da análise do hálito
    deve aumentar.
  233. Por fim, a análise do hálito deve
    nos fornecer um instrumento poderoso
  234. não só para detectar proativamente
    doenças específicas,
  235. mas para prevê-las e, enfim, evitá-las.
  236. Isso deve ser uma motivação suficiente
  237. para aproveitar
    as oportunidades e os desafios
  238. que a análise do hálito pode proporcionar,
  239. mesmo para quem não seja
    hipocondríaco de meio período, como eu.
  240. Obrigado.

  241. (Aplausos)