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← As histórias por detrás das icónicas capas da revista The New Yorker

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29 llengües

Showing Revision 7 created 08/28/2017 by Isabel Vaz Belchior.

  1. Há 24 anos,

  2. fui levada para a The New Yorker
  3. como editora artística
  4. para rejuvenescer uma instituição
  5. que, na altura, se tinha tornado
    algo convencional,
  6. trazer novos artistas
  7. e tentar arrancar a revista
    da sua torre de marfim
  8. para um maior envolvimento
    com o seu tempo.
  9. E, para mim,
    foi a coisa certa a fazer
  10. porque sempre me senti cativada
    pelo modo como uma imagem
  11. — um simples desenho —
  12. se pode impor na torrente de imagens
    que vemos num único dia.
  13. O modo como ela pode captar um momento,
  14. como cristaliza uma tendência social
    ou um acontecimento complexo
  15. de uma forma que muitas palavras
    não seriam capazes de fazer
  16. — e reduzir isso à sua essência
    transformando-a num cartune.
  17. Fui a uma biblioteca

  18. e olhei para a primeira capa
    desenhada por Rea Irvin em 1925
  19. — um "dandy" a olhar para uma borboleta
    através do seu monóculo,
  20. a quem chamamos Eustace Tilley.
  21. Apercebi-me de que, à medida
    que a revista se foi tornando conhecida
  22. pelas suas pesquisas bem feitas
    e pelas longas reportagens,
  23. algum do humor se perdeu pelo caminho,
  24. porque agora, Eustace Tilley
    era visto como um "dandy" altivo
  25. mas, na verdade, em 1925,
  26. quando Rea Irving o desenhou,
  27. ele fê-lo como parte
    de uma revista de humor
  28. para divertir a juventude da época,
  29. que eram as miúdas rebeldes
    dos loucos anos 20.
  30. Na biblioteca,
  31. encontrei as imagens
    que realmente captavam a "zeitgeist"
  32. da Grande Depressão.
  33. Mostram-nos não só
    como as pessoas se vestiam
  34. ou como eram os seus carros,
  35. mas também o que as fazia rir,
  36. quais eram os seus preconceitos.
  37. Temos mesmo a noção
  38. do que era estar vivo nos anos 30.
  39. Então, chamei artistas contemporâneos,

  40. como este, o Adrian Tomine.
  41. Eu chamo muitas vezes artistas narrativos
  42. — cartunistas,
    autores de livros infantis —
  43. e dou-lhes temas como:
  44. o que é estar no Metro,
  45. ou o Dia de São Valentim,
  46. e eles enviam-me esboços.
  47. Uma vez aprovados os esboços
    pelo editor,
  48. David Remnick,
  49. são feitas.

  50. Adoro a maneira
  51. como estas imagens
  52. não nos dizem o que pensar,
  53. mas fazem-nos mesmo pensar,
  54. porque o artista
  55. é, na verdade, quase um "puzzle";
  56. o artista desenha os pontos
  57. e vocês, os leitores,
    têm de completar a imagem.
  58. Para compreender
    a imagem à esquerda de Anita Kunz,
  59. ou a da direita de Tomer Hanuka,
  60. temos de fazer o jogo das diferenças.
  61. E é algo que...
  62. é mesmo empolgante ver
  63. como o envolvimento com o leitor...
  64. como estas imagens captam mesmo...
  65. brincam com os estereótipos.
  66. Mas quando percebemos,
  67. os estereótipos são rearranjados
    na nossa cabeça.
  68. Mas as imagens não têm de mostrar
    apenas pessoas,
  69. por vezes, pode ser um sentimento.
  70. Imediatamente após o 11 de setembro,

  71. eu estava num estado
  72. — tal como toda a gente —
  73. em que não sabia como lidar
    com o que estávamos a passar
  74. e senti que nenhuma imagem
    conseguiria captar aquele momento.
  75. Só queria fazer uma capa negra,
  76. uma não capa.
  77. Falei com o meu marido,
    o cartunista Art Spiegelman.
  78. referi-lhe que iria propor isso,
  79. e ele disse-me: "Oh, se vais fazer
    uma capa negra,
  80. "então porque não fazes a silhueta
    das Torres Gémeas
  81. "preto sobre preto?"
  82. E eu sentei-me para desenhar isto.
  83. Assim que o vi,
  84. tive um arrepio pela coluna abaixo,
  85. e apercebi-me de que,
    nesta recusa de fazer uma imagem,
  86. tínhamos encontrado uma forma
    de captar a perda
  87. e o luto,
  88. e a ausência.
  89. Foi algo profundo
    o que aprendi neste processo
  90. — às vezes, algumas das imagens
    que mais dizem
  91. são as que o fazem com menos meios.
  92. E uma imagem simples
    pode dizer muito.
  93. Esta é a imagem de Bob Staake
    que publicámos
  94. mesmo a seguir à eleição de Barack Obama,
  95. e que captou um momento histórico.
  96. Mas não conseguimos planear isto,

  97. porque, para o fazer,
  98. temos de deixar o artista sentir
    as emoções que todos sentimos,
  99. quando está a acontecer.
  100. Por isso, em novembro de 2016,
  101. durante as eleições do ano passado,
  102. a única imagem
    que conseguimos publicar foi esta,
  103. que estava nas bancas
    na semana em que toda a gente votou.
  104. (Risos)
  105. Porque sabíamos
    que alguém se sentiria assim...
  106. (Risos)
  107. quando o resultado das eleições
    fosse anunciado.

  108. E quando soubemos o resultado,

  109. sentimo-nos realmente perplexos.

  110. Esta é a imagem enviada de novo
    por Bob Staake,

  111. e que acertou em cheio.
  112. E, mais uma vez,
  113. nós não sabemos o que vem a seguir,
  114. mas aqui parecia que não sabíamos
    como andar para a frente,
  115. mas andámos para a frente.
  116. Esta é a imagem que publicámos
  117. depois da eleição de Donald Trump
  118. na altura da Marcha das Mulheres
  119. em todos os estados dos EUA.
  120. Ao longo destes 24 anos,
  121. tenho visto mais de 1000 imagens
    ganharem vida, semana após semana,
  122. e perguntam-me muitas vezes
    qual delas é a minha preferida,
  123. mas não consigo escolher uma

  124. porque me sinto muito orgulhosa
    de quão diferentes são as imagens
  125. umas das outras.
  126. E isso deve-se ao talento e diversidade
  127. de todos os artistas que contribuem.
  128. E agora, bem,
  129. agora, pertencemos à Rússia,
    por isso...
  130. (Risos)

  131. Numa representação feita por Barry Blitt,
  132. Eustace tornou-se
    Eustace Vladimirovich Tilley.
  133. E a borboleta não é senão
    um Donald Trump aturdido,

  134. a bater as asas,

  135. a tentar perceber
    como controlar o efeito borboleta
  136. e o famoso logótipo do título
    desenhado por Rae Irvin em 1925
  137. está agora em cirílico.
  138. O que realmente me entusiasma
    neste momento
  139. é a forma como...
  140. A liberdade de imprensa
    é essencial para a nossa democracia.
  141. Conseguimos ver
    desde o sublime ao ridículo

  142. que os artistas conseguem captar
    o que se está a passar
  143. de uma forma que um artista
  144. armado apenas de tinta da China
    e aguarelas
  145. consegue captar e entrar
    no diálogo cultural.
  146. Isto coloca esses artistas
    no centro dessa cultura,
  147. e é exatamente aí
    que eu penso que devem estar.
  148. Porque o que mais precisamos
    agora é de um bom cartune.
  149. Obrigada.
  150. (Aplausos)