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Portuguese, Brazilian subtítols

← A arte que explora o tempo e a memória

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21 llengües

Showing Revision 18 created 10/18/2019 by Maricene Crus.

  1. Quero começar com uma pergunta:
  2. onde começa uma obra de arte?
  3. Às vezes, essa pergunta é absurda.
  4. Pode parecer ilusoriamente simples,
  5. como foi quando fiz a pergunta
    sobre a obra "Portable Planetarium",
  6. que fiz em 2010.
  7. Fiz a seguinte pergunta:
  8. "Como seria construir
    o próprio planetário?"
  9. Sei que perguntam isso todas as manhãs,
  10. mas fiz essa pergunta a mim mesma.
  11. E, como uma artista,
    estava pensando em nosso esforço,
  12. em nosso desejo e em nosso anseio
    que temos tido ao longo dos anos
  13. para dar sentido ao mundo a nossa volta
  14. utilizando materiais.
  15. Para mim, tentar encontrar
    o tipo de maravilha,
  16. bem como um tipo de futilidade
    que reside em cada busca frágil,
  17. é parte da minha obra.
  18. Assim, reúno os materiais
    que encontro ao meu redor

  19. e os agrego para tentar
    criar experiências envolventes
  20. que ocupam salas, paredes,
    paisagens e edifícios.
  21. Mas, por fim, quero
    que eles ocupem a memória.
  22. Depois que realizo um trabalho,
  23. penso que sempre há uma memória
    dele que fica gravada na minha mente.
  24. E essa é a memória para mim...
  25. foi uma experiência repentina
    e um tanto surpreendente
  26. de inserir-me nessa obra de arte.
  27. Ela ficou comigo e reapareceu
    em meu trabalho
  28. cerca de dez anos mais tarde.
  29. Mas quero falar do meu estúdio
    na época da pós-graduação.

  30. Acho interessante que, às vezes,
    ao começar um trabalho,
  31. é preciso apenas limpar
    bem a superfície e retirar tudo.
  32. Talvez isso não se pareça com "limpar"
    a superfície, mas era para mim.
  33. Eu tinha estudado pintura
    por cerca de dez anos
  34. e, quando comecei a pós-graduação,
  35. percebi que tinha desenvolvido
    o talento, mas não tinha um tema.
  36. Era como uma habilidade atlética,
    porque podia pintar a figura rapidamente,
  37. mas não sabia o porquê;
  38. conseguia pintá-la bem,
    mas ela não tinha conteúdo.
  39. Então, decidi pôr todas as pinturas
    de lado por um tempo
  40. e me fiz esta pergunta:
  41. "Por que e como os objetos
    adquirem valor para nós?"
  42. Por que uma camisa como esta aqui,
    que milhares de pessoas usam,
  43. de certa forma, me faz sentir dona dela?
  44. Comecei a fazer uma experiência:

  45. decidi reunir materiais
    que tinham uma certa qualidade,
  46. eram produzidos em massa
    e de fácil aquisição,
  47. totalmente projetados para o propósito
    de uso, não pela estética.
  48. Eram coisas como palitos de dente,
    tachinhas e pedaços de papel higiênico,
  49. para descobrir se a maneira de empregar
    minha energia, minha mão, meu tempo
  50. e o comportamento poderiam realmente
  51. gerar um tipo de valor
    para o trabalho em si.
  52. Uma das outras ideias era
    que o trabalho tivesse vida.
  53. Então, queria tirá-lo do pedestal,
    sem uma moldura em volta dele,
  54. para que não fosse a experiência
    de você ter encontrado algo
  55. que te disseram que era importante,
  56. mas que você descobriu
    que era em seu próprio tempo.
  57. É como um antigo conceito em escultura,

  58. que vem a ser: como dar vida
    a materiais inanimados?
  59. Então, eu ia a um espaço como este,
    no qual havia uma parede
  60. e usava a própria pintura,
  61. removia a pintura da parede no espaço
    para criar uma escultura.
  62. Também estava interessada na ideia
  63. de que os termos "escultura",
    "pintura" e "instalação"
  64. não influenciavam a maneira
    como realmente vemos o mundo.
  65. Queria eliminar essas fronteiras entre
    os meios dos quais os artistas falam,
  66. bem como desfocar a experiência
    de estar na vida e estar na arte,
  67. de modo que, quando
    vocês vivem o cotidiano
  68. ou estão diante de uma de minhas obras,
  69. veem e reconhecem o dia a dia,
  70. podem levar essa experiência
    para as suas vivências
  71. e, talvez, ver a arte na vida diária.
  72. Eu fazia pós-graduação nos anos 90

  73. e meu estúdio foi se enchendo
    cada vez mais de imagens,
  74. assim como minha vida.
  75. E essa confusão entre imagens e objetos
  76. era de fato parte da minha tentativa
    dar sentido aos materiais.
  77. Além disso, estava interessada
    em como isso poderia mudar
  78. a maneira como vivenciamos o tempo.
  79. Se vivenciamos o tempo
    por meio dos materiais,
  80. o que acontece quando a imagens
    e os objetos se confundem no espaço?
  81. Então, comecei a fazer alguns
    desses experimentos com imagens.
  82. Se voltarmos no tempo, os anos 1880,
  83. foi quando as primeiras fotografias
    começaram a se transformar em filmes.
  84. Foram o resultado de estudos
    do movimento dos animais,
  85. como os cavalos nos EUA
    e os pássaros na França.
  86. Esses estudos de movimento, aos poucos,
    como os zootrópios, tornaram-se filmes.
  87. Decidi que usaria um animal
    e brincaria com essa ideia

  88. de como a imagem não é estática,
    de que se movimenta no espaço.
  89. Escolhi o guepardo como meu personagem,
  90. pois é o animal terrestre mais rápido.
  91. Ele detém esse recorde e queria usá-lo
  92. na verdade como tipo de bastão
    para medir o tempo.
  93. E foi assim que ele ficou na escultura,
    enquanto se movimentava pelo espaço.
  94. O enquadramento da imagem
    está fragmentado no espaço,
  95. porque coloquei um bloco de papel
    e fiz com que projetasse sobre ele.
  96. Fiz esse experimento
    onde há um tipo de corrida
  97. e essas novas ferramentas e o vídeo
    com os quais eu podia brincar.
  98. O falcão se move adiante no alto,
    o guepardo vem em segundo lugar
  99. e o rinoceronte vem depois,
    tentando alcançá-los.
  100. Em outro experimento que fiz,
    estava pensando como seria

  101. se tentássemos nos lembrar
    de algo que nos aconteceu
  102. quando tínhamos uns dez anos de idade.
  103. É muito difícil lembrar até mesmo
    do que aconteceu naquela época;
  104. recordo-me de talvez uma ou duas coisas.
  105. E aquele momento único se expandiu
    na minha mente e assim ficou o ano todo.
  106. Não vivenciamos o tempo
    em minutos ou em segundos.
  107. Este é um momento do vídeo que fiz,
  108. impresso em um pedaço de papel rasgado,
    com a projeção sobre ele.
  109. Eu queria brincar com a ideia
  110. de como, nesse tipo de imersão total
    de imagens que nos envolvem,
  111. uma imagem pode de fato crescer
  112. e nos perseguir.
  113. Esses são 3 experimentos de uns 100
    que tentei fazer com imagens

  114. durante mais de uma década,
    mas que não haviam sido expostos,
  115. e pensei em como levá-los para fora
    do estúdio, para um espaço público,
  116. mas conservar a energia
  117. típica de um laboratório ou estúdio.
  118. Uma exposição se aproximava e eu disse:
  119. "Vou colocar minha escrivaninha
    bem no meio da sala".
  120. Eu a levei para a sala
  121. e foi algo que me surpreendeu.
  122. As imagens eram meio trêmulas
    por causa das telas de vídeo ao longe.
  123. Todos os projetores estavam sobre ela,
    criando um espaço ao redor,
  124. e algo como uma chama
    que tremulava me atraía.
  125. A peça me envolvia em uma escala
    com a qual todos nos familiarizamos:
  126. a de estarmos imersos face
    a uma escrivaninha, pia ou mesa,
  127. e então retornar a essa escala
  128. individualizada do corpo
    em relação à imagem.
  129. Mas, nessa superfície,
  130. havia projeções no papel
    que era soprado pelo vento,
  131. de modo que formava uma confusão
    sobre o que era uma imagem
  132. e o que era um objeto.
  133. Foi assim que o trabalho ficou
    quando o levei para uma sala maior

  134. e, somente quando fiz essa peça,
  135. dei-me conta de que tinha feito
    de fato o interior de um planetário,
  136. sem mesmo perceber antes.
  137. Quando era criança,
    eu amava ir ao planetário.
  138. Naquele tempo, além das imagens
    fantásticas no teto,
  139. era também possível ouvir o próprio
    projetor, rangendo e estalando,
  140. e havia uma câmera fantástica
    no meio da sala.
  141. Naquele tempo, ao ver o público
    ao redor, olhando para cima,
  142. os espectadores que ficavam no círculo,
  143. sentia como se fizesse parte deles.
  144. Essa é uma imagem da Internet que baixei,
  145. são de pessoas que tiram fotos
    de si mesmas na obra.
  146. Gosto dela, pois é possível ver
    como as figuras se misturam à obra.
  147. Pode-se ver a sombra
    de um visitante contra a projeção,
  148. e também as projeções
    através da camisa de uma pessoa.
  149. Havia uns autorretratos feitos
    na obra em si e que foram postados depois.
  150. Pareciam um tipo de processo
    cíclico de criação de imagens,
  151. algo que tinha uma finalidade.
  152. Mas me remeteu ao planetário,
    ao seu interior,

  153. e retomei a pintura,
  154. pensando no que ela realmente
    representava para mim,
  155. nas imagens interiores
    que todos nós temos.
  156. Há muitas imagens interiores,
  157. mas prestamos atenção
    ao que está no exterior.
  158. Como armazenamos memória em nossa mente,
  159. como certas imagens surgem do nada
    ou se desfazem com o tempo?
  160. Comecei a chamar
    esta série de "Afterimage",
  161. que é uma referência à ideia
    de que se fecharmos os olhos bem agora,
  162. poderemos ver essa luz
    tremulante que perdura.
  163. Quando abrimos os olhos,
    a luz permanece.
  164. Isso acontece o tempo todo.
  165. A imagem residual é algo
    que uma fotografia
  166. nunca conseguirá substituir,
  167. nunca será sentida em uma fotografia.
  168. Isso realmente nos lembra
    dos limites da lente da câmera.
  169. Foi essa ideia de fazer imagens
    que estavam fora de mim,
  170. este é o meu estúdio,
  171. e então tentar imaginar como seriam
    representadas dentro de mim.
  172. Bem rapidamente,

  173. vou explicar como um processo poderia
    se desenvolver para a próxima peça.
  174. Ele pode começar com um esboço
  175. ou uma imagem do século 18
    que tenho na memória:
  176. o "Coliseu", de Piranesi.
  177. Ou um modelo do tamanho
    de uma bola de basquete:
  178. construí essa estrutura ao redor,
  179. e a escala está demonstrada
    pelo copo vermelho atrás dele.
  180. Aquele modelo pode ser colocado
    em uma peça maior como uma semente,
  181. que pode se transformar em uma peça maior
  182. e ocupar um espaço bem grande.
  183. Mas pode caber em um vídeo
    que acabou de ser feito com meu "iPhone",
  184. de uma poça do lado de fora
    do meu estúdio, em um noite chuvosa.
  185. Essa é uma imagem residual
    da pintura feita na minha mente,
  186. que pode desbotar, assim com a memória.
  187. Essa é a escala de um imagem bem pequena
    do meu caderno de desenhos.

  188. Vejam como ela se expande
  189. em uma estação de metrô
    que ocupa três quarteirões.
  190. Percebam que ir a uma estação de metrô
  191. é como uma jornada pelas páginas
    de um caderno de desenhos,
  192. como um tipo de diário de trabalho
    escrito através de um espaço público,
  193. e é como folhear as páginas
    de 20 anos de trabalho,
  194. enquanto percorrem a estação.
  195. Mas até mesmo esse esboço
    tem de fato uma origem diferente,
  196. em uma escultura da altura
    um edifício de seis andares
  197. e que foi a escala de um gato em 2002.
  198. Lembro-me disso, porque eu tinha
    dois gatos negros naquela época.
  199. Essa é uma imagem de uma obra do Japão,
  200. cuja imagem residual
    pode ser vista no metrô.
  201. Essa é em Veneza,
  202. na qual podem ver a imagem
    gravada na parede.
  203. Fiz essa escultura em 2001, no Museu
    de Arte Moderna de São Francisco,
  204. que criou esse tipo de linha dinâmica,
  205. e me apropriei dela para criar
    a linha dinâmica
  206. enquanto se desce para a estação de metrô.
  207. Essa fusão de meios
    é muito interessante para mim.

  208. Como é possível tomar uma linha
    tensa, como uma escultura,
  209. e colocá-la em uma impressão?
  210. Ou utilizar uma linha
    com um desenho em uma escultura
  211. para criar uma perspectiva dramática?
  212. Como uma pintura pode imitar
    o processo de gravura?
  213. Como uma instalação pode usar
    as lentes da câmera
  214. para conceber uma paisagem?
  215. Como uma pintura em corda
    pode tornar-se um momento na Dinamarca,
  216. em meio a uma caminhada?
  217. Como é possível criar uma obra
    no parque "High Line",
  218. que se camufla na própria natureza
  219. e se torna um habitat
    para os que estão ao redor dela?
  220. Vou terminar com duas obras
    que estou fazendo agora.

  221. Essa obra se chama "Fallen Sky"
  222. e será uma comissão permanente
    no Vale do Rio Hudson.
  223. É como se o planetário finalmente descesse
  224. e se estabelecesse na terra.
  225. Esse é um trabalho de 2013
    que será reinstalado,
  226. que terá uma nova vida com a reabertura
    do Museu de Arte Moderna.
  227. Essa é uma obra cuja ferramenta
    em si é uma escultura.
  228. À medida que o pêndulo balança,
  229. é usado como uma ferramenta
    para criar a obra.
  230. Cada pilha de objetos
  231. vai a um centímetro
    até a ponta do pêndulo.
  232. Assim, temos a combinação
    da calma daquele lindo balanço,
  233. mas também a tensão constante
    que poderia destruir a própria obra.
  234. Não importa realmente onde
    algumas dessas obras sejam instaladas,

  235. porque o ponto verdadeiro para mim
  236. é que elas permaneçam
    em nossa memória ao longo do tempo,
  237. e que produzam ideias além de si mesmas.
  238. Obrigada.

  239. (Aplausos)