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← Precisamos de acompanhar a evolução dos recursos hídricos no mundo, tal como fazemos com o clima

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Showing Revision 7 created 05/23/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Precisamos de criar um serviço
    meteorológico hídrico.
  2. Entretanto, enquanto não exigirmos,
    coletivamente, responsabilização
  3. não deverão existir
    incentivos financeiros.
  4. A primeira vez que fiz uma palestra,
    foi aqui no TED, há oito anos.

  5. Recém-formado, eu não sabia nessa altura
  6. que, naqueles poucos minutos no palco,
  7. estava a estruturar as perguntas
    que me viriam a ser feitas

  8. nos 10 anos seguintes.
  9. Como muitos jovens na faixa dos 20 anos,
  10. eu esperava resolver
    os problemas do mundo
  11. — mais especificamente,
    os problemas mundiais da água —

  12. com a minha tecnologia.

  13. Eu tinha muito que aprender.

  14. Era tentador acreditar,

  15. que os nossos maiores problemas
    com a qualidade da água

  16. persistem porque são
    muito difíceis de identificar.
  17. Eu julgava

  18. que só precisávamos de sensores
    mais rápidos, mais simples e acessíveis.
  19. Eu estava enganado.

  20. Embora seja verdade que
    a gestão futura do problema da água
  21. dependerá de mais tecnologia
    e de melhores dados,

  22. atualmente nós mal utilizamos
    os poucos dados hídricos que temos.
  23. Os nossos maiores problemas hídricos
    mantêm-se em função do que não fazemos

  24. e dos problemas
    que falhamos em reconhecer.

  25. Na verdade, há pouco a discutir

  26. sobre o que os dados hídricos
    nos indicam a fazer como espécie:
  27. precisamos de preservar mais,
  28. e precisamos de poluir menos.

  29. Mas os dados disponíveis hoje
    não ajudarão a prever riscos emergentes

  30. frente a mercados e a negócios.
  31. Estão rapidamente a tornar-se
    inúteis nesse aspeto.

  32. Os dados costumavam adicionar mais valor,

  33. mas nunca nos disseram
    com uma precisão real

  34. quanta água temos

  35. ou o que ela contém.

  36. Vamos considerar as estatísticas
    do uso da água na década passada

  37. de cada uma das nações do G20.

  38. Agora, o que esses números não mostram
  39. é que nenhum desses países mede
    diretamente quanta água consome.
  40. São tudo números estimados,
  41. e baseados em modelos antigos

  42. que não consideram a crise climática,

  43. nem consideram o seu impacto sobre a água.

  44. Em 2015, Chennai,
    a sexta maior cidade da Índia,

  45. foi atingida pelas piores cheias
    dos últimos cem anos.

  46. Atualmente, os seus reservatórios de água
    estão praticamente vazios.
  47. Levaram três anos para chegar aqui.
  48. Três anos de chuvas abaixo da média.

  49. Isso é menos tempo
    do que muitas nações demoram

  50. a lançar numa tabela
    os seus dados hídricos,
  51. incluindo os EUA.
  52. E embora existissem prognósticos
  53. prevendo grave escassez
    de água em Chennai
  54. nenhuma dessas previsões dizia
    exatamente quando ou onde
  55. essa escassez aconteceria.

  56. Este é um novo tipo do problema da água,
  57. porque o ritmo de mudança
    de cada aspeto do nosso ciclo da água
  58. está a acelerar.

  59. Um aviso das Nações Unidas, neste mês,
  60. revelou que, atualmente,

  61. enfrentamos todas as semanas
    uma nova emergência climática.
  62. Preveem-se maiores incertezas
    a respeito da qualidade da água.
  63. Em muitos países, as massas de água
    raramente são testadas

  64. para mais do que meia dúzia
    de agentes contaminantes num ano.
  65. Ao invés de testar, usamos
    o que chamamos de "modelo de diluição"

  66. para controlar a poluição.
  67. Imaginem que eu agarrava
    numa piscina olímpica
  68. enchia-a com água doce, e depois
    adicionava-lhe uma gota de mercúrio.
  69. Isso diluiria o mercúrio numa taxa
    de um por mil milhões,

  70. o que, de acordo com a
    Organização Mundial da Saúde,
  71. é considerado seguro.

  72. Mas se houver uma redução imprevista
    na quantidade de água disponível

  73. — menos lençóis freáticos, menos caudal,
    menos água na piscina —

  74. a diluição passaria a ser menor

  75. e as coisas passariam a ser mais tóxicas.

  76. É desta maneira que a maioria dos países
    controlam a poluição.

  77. Utilizam este modelo que lhes dá
    uma quantidade segura de poluição.

  78. O modelo claramente tem fragilidades,

  79. mas funcionou bastante bem
    enquanto tínhamos água em abundância

  80. e padrões de clima consistentes.

  81. Agora que já não temos isso,
    vamos precisar de investir e desenvolver

  82. novas estratégias de recolha de dados.

  83. Mas antes disso, temos de começar
    a agir com os dados que já temos.

  84. Isto é um incêndio
    com combustível de aviação.

  85. Como muitos de vocês sabem,

  86. os combustíveis de aviação
    têm grande impacto na mudança climática.

  87. O que talvez não saibam
    é que o Departamento de Defesa dos EUA

  88. é o maior consumidor mundial
    de combustível de aviação.
  89. E, quando usam esses combustíveis,
  90. impõem o uso da espuma
    de combate a incêndios ilustrada na foto
  91. que contém uma classe de produtos
    químicos chamados PFAS.

  92. Ninguém usa tanta espuma desta
    como o Departamento de Defesa dos EUA.

  93. Sempre que são usados, os PFAS
    acabam nos nossos sistemas hídricos.

  94. Globalmente, os militares têm utilizado
    esta espuma desde os anos 70.

  95. Sabemos que os PFAS causam o cancro
    e defeitos congénitos,

  96. e estão agora tão introduzidos
    no meio ambiente

  97. que os encontramos em praticamente
    todo os os seres vivos que testamos,
  98. incluindo nós mesmos.

  99. Até agora, o Departamento de Defesa
    dos EUA não foi considerado responsável

  100. por contaminação por PFAS,
  101. nem foi acusado legalmente.

  102. Embora exista uma tentativa para eliminar
    estas espumas de combate a incêndios,

  103. eles não estão a aderir a alternativas
    mais seguras e eficazes.

  104. Na realidade, estão a usar
    outras moléculas de PFAS

  105. que, até onde sabemos, podem
    causar ainda piores danos à saúde.

  106. Hoje, a responsabilidade do governo
    está tão desgastada que quase desapareceu,
  107. e o risco da responsabilidade sobre
    a poluição das águas está a desaparecer.

  108. Que tipo de incentivos isso cria para
    investimentos no nosso futuro hídrico?
  109. Na década passada, a média
    de investimentos de fase inicial
  110. em companhias de tecnologias da água

  111. totalizou menos de
    30 milhões de dólares por ano.
  112. Isso equivale a 0,12% do capital de risco
    global para novas empresas.
  113. E as despesas públicas não têm aumentado
    com a rapidez necessária.

  114. Uma análise mais profunda revela
    que a água não é uma prioridade.

  115. Em 2014, o governo norte-americano
    gastava 11 dólares por cidadão

  116. em infraestruturas hídricas,
  117. em comparação com 251 dólares
    em infraestruturas informáticas.
  118. Quando não usamos os dados que temos,
  119. não encorajamos o investimento
    em novas tecnologias,

  120. não encorajamos mais colheita de dados,

  121. e certamente não encorajamos investimentos
    para assegurar um futuro para a água.
  122. Então estamos condenados?
  123. Parte do que ainda estou a aprender

  124. é como contrabalançar
    o inevitável e a urgência
  125. com as coisas que podemos fazer,
  126. porque a Greta Thunberg
    e a Rebelião contra a Extinção

  127. não querem a nossa esperança,
    querem as nossas ações.
  128. Então o que podemos fazer?
  129. É difícil imaginar a vida
    sem um serviço meteorológico,
  130. mas antes do moderno serviço de previsão

  131. não tínhamos viagens aéreas comerciais,
  132. eram vulgar os navios perderem-se no mar,
  133. e uma simples tempestade
    podia causar escassez de comida.

  134. Mas assim que tivemos redes
    de rádio e de telégrafo,

  135. tudo o que era necessário
    para resolver esses problemas,
  136. foi acompanhar
    o movimento das tempestades.
  137. Isso estabeleceu a base para criar
    um trabalho de colheita de dados global,

  138. de que dependem atualmente
    todos os lares e todos os negócios.

  139. Tudo isso resultou da colheita de dados
    contínua e coordenada,

  140. e também da instituição
    duma cultura que valorizava

  141. o acesso e a partilha aberta
    de tudo o que fosse descoberto
  142. sobre os riscos que enfrentamos.

  143. Um serviço meteorológico hídrico global
    ajudar-nos-ia a prever a escassez da água.
  144. Poderia ajudar a implementar racionamentos
    antes de os reservatórios secarem,
  145. ajudar-nos a detetar uma contaminação
    antes de ela se espalhar.
  146. Poderia proteger as cadeias de produção

  147. assegurar o nosso suprimento alimentar,
  148. e, talvez o mais importante,

  149. permitiria uma estimativa precisa

  150. do risco necessário para podermos
    tomar medidas contra isso.

  151. Sabemos que podemos fazer isso
    porque já o fizemos com o tempo.
  152. Mas serão necessários recursos.

  153. Precisamos encorajar
    maiores investimentos na água.

  154. Investidores, investidores
    em capital de risco;

  155. uma porção dos nossos fundos e capitais
    deveria ser dedicado à água.

  156. Nada é mais valioso,

  157. e afinal, as empresas precisarão
    de entender os riscos hídricos

  158. para permanecerem competitivas
    no mundo em que estamos a inserir-nos.

  159. Além do capital de risco,

  160. há também muitos programas
    governamentais promissores

  161. que encorajam desenvolvimento econômico
    através de incentivos fiscais.

  162. Uma nova opção nos EUA
    que a minha empresa está a usar
  163. chama-se "zonas de oportunidade".

  164. Oferecem tratamento fiscal favorável
    para investimento em ganhos de capital

  165. em áreas designadas por serem
    desfavorecidas e de baixas receitas.

  166. São áreas que enfrentam
    um enorme risco hídrico,
  167. o que cria incentivos vitais
    para trabalhar diretamente

  168. com comunidades que mais precisam.

  169. E se vocês não estão a pensar
    fazer esse tipo de investimento
  170. mas possuem terras nos EUA,
  171. sabem que podem aproveitar
    as vossas terras
  172. para preservar permanentemente
    a qualidade da água

  173. em troca de uma servidão ecológica?

  174. Podem atribuir o direito perpétuo
    a um fundo local

  175. para conservar a vossa terra

  176. e criar metas de qualidade da água.

  177. E se cumprirem essas metas,

  178. podem ser recompensados anualmente
    com um desconto fiscal substancial.

  179. Quantas áreas a nossa comunidade
    global poderia proteger
  180. através destes e de outros programas?

  181. Têm muita força porque oferecem
    acesso à propriedade real

  182. necessária para estabelecer a fundação
  183. de um serviço meteorológico
    global para a água.
  184. Mas isso só funcionará
    se usarmos esses programas
  185. para aquilo que foram criados
  186. e não como meros veículos
    de evasão fiscal.

  187. Quanto foram criados
    os incentivos à conservação,

  188. ninguém podia prever até que ponto

  189. as empresas poluentes se envolveriam
    nos movimentos ambientais.

  190. Acostumámo-nos a ouvir as empresas
    a falar sobre a crise climática
  191. sem fazerem nada a esse respeito.

  192. Isso tem minado o legado
    e o impacto desses programas,

  193. mas também os preparou para reclamarem.

  194. Porque não utilizar
    as servidões ecológicas como previsto

  195. para estabelecer e alcançar
    metas ambiciosas de conservação?

  196. Porque não criar oportunidades
    em zonas de oportunidades?

  197. Porque fundamentalmente, a segurança
    da água requer responsabilização.
  198. Responsabilização não significa
    que as empresas poluentes

  199. patrocinem grupos ambientais e museus.

  200. Isso são conflitos de interesse.

  201. (Aplausos)
  202. Responsabilização é:
  203. tornar caro demais
    o risco da sua responsabilidade

  204. por continuarem a poluir
    e a desperdiçar a nossa água.
  205. Não podemos contentar-nos com palavras.

  206. É tempo de agir.
  207. E como começar melhor
    do que com os nossos maiores poluidores,

  208. particularmente, o Departamento de Defesa
    norte-americano,
  209. financiado pelos contribuintes.
  210. Quem e o quê estamos a proteger
    quando os soldados americanos,
  211. as suas famílias e as pessoas
    que vivem no estrangeiro

  212. perto das bases militares
    americanas internacionais
  213. estão todos a beber água tóxica?

  214. A segurança global não pode
    continuar a depender do acaso

  215. para proteger o nosso planeta
    ou a nossa saúde coletiva.

  216. A nossa sobrevivência depende disso.

  217. Analogamente,
  218. em muitos países, a agricultura depende

  219. de subsídios financiados
    pelos contribuintes
  220. pagos aos produtores para assegurar
    e estabilizar o fornecimento de comida.

  221. Esses incentivos são um ponto
    crucial de influência para nós,
  222. porque a agricultura é responsável

  223. pelo consumo de 70% de toda a água
    que usamos anualmente.

  224. O escoamento de fertilizantes e pesticidas

  225. são as duas maiores fontes
    de poluição da água.

  226. Temos de restruturar esses subsídios
    para exigir melhor eficiência hídrica

  227. e menos poluição.

  228. (Aplausos)
  229. E finalmente:
  230. não podemos esperar progresso

  231. sem estarmos dispostos a confrontar
    os conflitos de interesse
  232. que suprimem a ciência,

  233. que boicotam a inovação

  234. e desencorajam a transparência.

  235. É do interesse público

  236. medir e partilhar tudo
    que possamos aprender e descobrir

  237. sobre os riscos que enfrentamos
    quanto à água.

  238. A realidade só existe
    quando for medida

  239. e não precisa só da tecnologia
    para ser medida.
  240. Precisa do nosso empenho coletivo.

  241. Obrigado.
  242. (Aplausos)