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Showing Revision 2 created 02/12/2021 by Margarida Ferreira.

  1. Shaun Leonardo: Provenho de um meio
  2. onde nunca vi nenhum membro
    masculino da minha família a chorar.
  3. Essa incapacidade de exprimir
    qualquer nível de emoções
  4. foi uma coisa que comecei a questionar.
  5. Não permitia fraqueza nem vulnerabilidade.
  6. A arte tornou-se um caminho para mim,
  7. um caminho em que eu podia
    experimentar essas vulnerabilidades,
  8. usá-las e partilhá-las
    com um público diretamente.
  9. [Shaun Leonardo:
    A Liberdade de Movimentos]
  10. Comentador: O quarterback faz uma finta
  11. — faz um passe que quase é intercetado
    por Shaun Leonardo.
  12. SL: Joguei futebol durante
    10 anos da minha vida.
  13. Comentador: Leonardo,
    a jogar como "linebacker
  14. SL: Todo o meu trabalho
    baseia-se nessa experiência,
  15. duma identidade dupla
    de artista e atleta.
  16. Recordo-o como se fosse ontem,
  17. um treinador que adoro
    e de quem tenho ótimas recordações,
  18. disse-me, só para me enfurecer:
  19. "Quero que jogues como se tivesses
    acabado de sair da prisão".
  20. Quando somos jovens
    — na altura eu tinha 21 anos —
  21. não temos os meios nem as ferramentas
  22. para absorver isso duma maneira saudável.
  23. E depois, o que acontece?
  24. Funciona.
  25. Eu consigo manifestar a raiva
    que ele queria provocar.
  26. Comentador: Leonardo consegue
    encurralá-lo e detê-lo.
  27. Grande jogada de Shaun Leonardo,
    que salva o jogo.
  28. SL: Agora tenho 40 anos
  29. e ainda penso nesse momento.
  30. Quando somos marcados pela nossa diferença
  31. pela nossa cor, pelas nossa identidade,
  32. tornamo-nos num alvo hipervisível.
  33. É nesta hipervisibiidade
    que nos tornamos invisíveis,
  34. porque as pessoas veem através de nós.
  35. - Estão preparados?
    - Estamos!
  36. Depois da faculdade,
  37. depois da minha carreira no futebol,
  38. apareci com uma máscara mexicana
    de luta livre
  39. e lutei contra um adversário invisível.
  40. (Aplausos do público)
  41. Em cada partida, era importante
  42. que o público se encontrasse
    com Shaun Leonardo,
  43. que a figura desaparecesse
  44. e que só ficasse a pessoa
  45. que sentia a necessidade
    de afrontar aquela luta
  46. a fim de se ver a si mesmo.
  47. Podem imaginar?
    Não há ninguém à minha frente.
  48. Assim, mesmo uma coisa
    tão leve como um soco
  49. pode ser registada deste modo.
  50. Mas, se estivermos no público,
    o que é que vai ser legível?
  51. Tenho de conseguir...
  52. Tenho de conseguir dramatizá-lo
  53. de tal modo que vocês possam prevê-lo
  54. e assim vocês conseguem ir até ao fim.
  55. Eu oferecia o espetáculo da violência
  56. e dessa identidade
    de hipermasculinidade e agressão
  57. que frequentemente se associa
    a um corpo negro.
  58. E esta noção de que,
    enquanto corpos negros e mulatos,
  59. nos movimentamos pelo mundo
  60. e servimos de espelho
    para a projeção dos brancos.
  61. (Aplausos)
  62. Um... dois... três
  63. (Aplausos)
  64. ["Auto-retrato", 2010]
  65. Depois, descobrir e aprender
    e encontrar meios de distorcer essa imagem
  66. para retratar e sentir
    uma versão mais profunda de si mesmo
  67. que não esteja contida nessa projeção
    ou nesses estereótipos.
  68. Tem sido essa a minha missão.
  69. Tem sido essa a coisa
    que quero oferecer ao mundo.
  70. Alguém pode descrever
    o que acontece no seu corpo?
  71. Para mim é muito desconfortável.
  72. Sinto que o meu corpo aquece.
  73. Eu queria motivar cada vez mais pessoas
    para essa exploração
  74. para não ficar encerrado
    apenas na minha narrativa.
  75. Foi por intermédio dessa estratégia
    de corporização física
  76. que consegui envolver as pessoas.
  77. Eu queria que as pessoas sentissem isso
  78. e permitissem que os seus corpos
    dissessem o que era preciso.
  79. ["Jogos Primitivos", 2018]
  80. (Aplausos)
  81. Participantes!
  82. Preparados?
  83. Começar!
  84. Esquerda, sim; direita, não.
  85. Sentem-se americanos?
  86. Queria mesmo ver
    se, tomando consciência
  87. das nossas experiências
    de confrontação de conflito,
  88. podíamos sentir qualquer espécie
    de verdade no corpo de outra pessoa
  89. e assim questionar as nossas perceções
  90. de como inicialmente lemos outra pessoa.
  91. (Marcha fúnebre)
  92. ["O Elogio Fúnebre", 2017]
  93. O que é que esperam que eu diga?
  94. Chamava-se Trayvon Martin
  95. e estava desarmado.
  96. Quando vi a imagem
    de Trayvon Martin nas notícias
  97. muito da minha experiência de medo,
  98. e das formas como o mundo me via,
  99. tudo voltou rapidamente à superfície
  100. coisas que eu tinha enterrado.
  101. Enquanto miúdo negro
    em Queens, no Bronx,
  102. também comecei a pensar em todos
    os irmãos mais novos que abandonara.
  103. E perguntei: "Bom, porquê eu?"
  104. Porque é que era eu
    que conseguira sair de lá?
  105. Frequentar uma boa escola,
  106. completar um mestrado,
  107. viver segundo a minha paixão.
  108. Levei muito tempo a compreender
  109. que só queria que houvesse
    mais pessoas no mundo parecidas comigo
  110. para poderem movimentar-se
    pelo mundo
  111. com esse tipo de liberdade.
  112. OK, vamos apenas andar.
  113. Andar naturalmente.
  114. Ocupar tanto espaço quanto possível.
  115. Percorrer o nosso caminho.
  116. [Em 2017, Shaun cofundou "Assembly",
    um programa de diversão
  117. [Jovens acusados de pequenos delitos
    e de posse criminosa de uma arma
  118. [participam como sentença alternativa]
  119. Movimentamo-nos através daquilo
    que comecei a descrever
  120. como um programa de narração visual
  121. Esculpimos a cena dessa história
    ou dessa memória.
  122. Assim, quem conta a história
  123. pode observar a sua história
    através de diferentes pares de olhos.
  124. Começam a encontrar mais significado
    em como essa narrativa é a de um indivíduo
  125. e não é uma noção preconcebida
    de criminalidade.
  126. Se ele corre, todos temos de correr.
  127. Tive de lidar com a crise filosófica
  128. do que significa pôr em prática
    um programa artístico no espaço
  129. que acredito tem a liberdade
    como valor e objetivo centrais.
  130. Mas que continua a funcionar,
  131. como uma coisa que é
    um espaço para a justiça penal.
  132. A única coisa a que cheguei
  133. que me mantém a trabalhar,
  134. é a mudança pessoal
    que posso ver nestes indivíduos
  135. nestes jovens que são
    os jovens com quem cresci.
  136. Volto sempre ao mesmo,
  137. a arte é a coisa
    que tem poder neste espaço
  138. porque não é estática.
  139. Não pode ser definida.
  140. Conseguir que ela exista no nosso corpo
  141. e compreender que não precisamos
    de ser definidos por uma experiência
  142. — neste caso, detenção e prisão —
  143. permite-nos seguir em frente
    com um pouco mais de alegria
  144. aquilo que Ta-Neshi Coates descreve
    como "a maravilhosa luta".
  145. É por nos sentirmos nós próprios
  146. e tentarmos viver
  147. que isso nunca nos pode ser titado.
  148. Conseguir que alguém comece a imaginar
    novas possibilidades para si mesmo
  149. é o que todos devíamos procurar fazer.
  150. Tradução de Margarida Ferreira