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← A minha identidade é um superpoder — não é um obstáculo

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29 llengües

Showing Revision 11 created 08/05/2019 by Isabel Vaz Belchior.

  1. Nos ladrilhos vermelhos
    da sala da minha família
  2. eu dançava e cantava
    para o filme televisivo "Gipsy",
  3. protagonizado por Bette Midler.
  4. ♪ Eu tive um sonho,

  5. ♪ um sonho lindo, papá.
  6. Eu cantava com a urgência
    e o desejo ardente duma miúda de 9 anos

  7. que, de facto, tinha um sonho.
  8. O meu sonho era ser atriz.
  9. É verdade que eu nunca tinha visto
    ninguém parecida comigo
  10. na televisão ou nos filmes,
  11. e, claro, a minha família, amigos
    e professores constantemente me avisavam
  12. que pessoas como eu
    não tinham sucesso em Hollywood.
  13. Mas eu era norte-americana.
  14. Fui ensinada a acreditar
    que qualquer pessoa consegue tudo
  15. independentemente da cor da pele,
  16. do facto de os meus pais
    terem imigrado das Honduras,
  17. do facto de eu não ter dinheiro.
  18. Eu não precisava
    que o meu sonho fosse fácil,
  19. só precisava que fosse possível.
  20. Quando eu tinha 15 anos,

  21. consegui a minha primeira
    audição profissional.
  22. Era um anúncio publicitário
    para a adesão à TV Cabo
  23. ou pagamento de fianças, não me lembro.
  24. (Risos)

  25. Do que me lembro
    é que a diretora de "casting" me pediu:

  26. "Pode fazer isso outra vez?
    Mas desta vez, fale mais como uma latina."
  27. "Hum... Ok."

  28. "Então quer que fale
    em espanhol?", perguntei.
  29. "Não, não, fale em inglês,
    mas fale como uma latina."

  30. "Bem, eu sou latina.
    Então, não é assim que uma latina fala?"

  31. Houve um longo e constrangido silêncio,

  32. e depois, finalmente:
  33. "Ok, queridinha, esquece.
    Obrigada por teres vindo. Adeus!"
  34. Levei a maior parte da viagem até casa
    para perceber que, quando ela disse

  35. "fale como uma latina"
  36. estava a pedir-me
    para falar em inglês incorreto.
  37. E não consegui perceber
  38. porque é que o facto de ser
    uma autêntica, verdadeira latina
  39. não parecia ser importante.
  40. Enfim, não consegui o trabalho.

  41. Não consegui muitos dos trabalhos
    em que as pessoas me queriam ver:
  42. a namorada do membro de um gangue,
  43. a ladra de lojas atrevida,
  44. a mestiça grávida n.º 2 do gangue.
  45. (Risos)

  46. Eram esses o tipo de papéis
    que havia para alguém como eu.

  47. Alguém para quem olhavam e viam
    que era demasiado morena, demasiado gorda,
  48. demasiado pobre,
    demasiado simples.
  49. Esses papéis eram estereótipos
  50. e não podiam estar mais distantes
    da minha realidade
  51. ou dos papéis que eu sonhava interpretar.
  52. Eu queria interpretar pessoas
    complexas e multidimensionais,
  53. pessoas que existiam no centro
    das suas próprias vidas
  54. e não silhuetas de cartão, em pé
    contra o fundo de outra pessoa.
  55. Mas quando eu me atrevi
    a dizer isso ao meu agente

  56. — que é a pessoa a quem pago
    para me ajudar a encontrar oportunidades —
  57. a resposta dele foi:
  58. "Alguém tem de dizer àquela rapariga
    que ela não tem expectativas realistas."
  59. E ele não estava errado.
  60. Quero dizer, eu despedi-o,
    mas ele não estava errado.
  61. (Risos)

  62. (Aplausos)

  63. Porque sempre que tentava obter um papel
    que não fosse um estereótipo mal escrito,

  64. eu ouvia:
  65. "Não estamos a fazer um 'casting'
    para um papel aberto à diversidade."
  66. Ou: "Gostamos muito dela,
    mas é demasiado especificamente étnica."
  67. Ou: "Infelizmente, já temos
    um latino neste filme."
  68. Eu continuei a receber
    a mesma mensagem vez após vez.
  69. Que a minha identidade era um obstáculo
    que tinha de ultrapassar.
  70. Então, eu pensei:
  71. "Vem ter comigo, obstáculo.
  72. "Sou americana.
    O meu nome é America.
  73. "Treinei a vida inteira para isto,
    vou simplesmente seguir as regras,
  74. "vou trabalhar mais."
  75. E assim fiz: trabalhei o máximo
  76. para ultrapassar tudo
    o que diziam estar errado em mim.
  77. Mantive-me afastada do sol
    para não ficar demasiado bronzeada,
  78. endireitei os meus caracóis.
  79. Tentei perder peso constantemente,
  80. comprei roupas mais elegantes e caras.
  81. Tudo isso para que,
    quando as pessoas olhassem para mim,
  82. não vissem uma latina demasiado gorda,
    demasiado morena, demasiado pobre.
  83. Elas veriam o que eu era capaz de fazer.
  84. E talvez me dessem uma hipótese.
  85. Numa reviravolta irónica do destino,

  86. quando finalmente consegui um papel
    que realizaria todos os meus sonhos,
  87. era um papel que me exigia
    ser exatamente quem eu era.
  88. A Ana, em "Mulheres de Verdade Têm Curvas"
  89. era uma latina morena, pobre e gorda.
  90. Nunca tinha visto ninguém como ela,
    ninguém como eu,
  91. que existisse no centro
    da sua história de vida.
  92. Viajei através dos EUA
  93. e fui a muitos países com este filme,
  94. onde as pessoas, independentemente
    da idade, da etnia, do tipo de corpo,
  95. se viam a si mesmas na Ana.
  96. Uma rapariga mexicano-americana
    gorducha, de 17 anos,
  97. a lutar contra as normas culturais
    para realizar o seu sonho improvável.
  98. Apesar do que me tinham dito
    toda a minha vida,

  99. verifiquei em primeira mão
  100. que as pessoas queriam ver histórias
    sobre pessoas como eu.
  101. E que as minhas expectativas irrealistas
  102. de me ver a mim mesma representada
    na cultura, de forma autêntica,
  103. também eram as expectativas
    de outras pessoas.
  104. "Mulheres de Verdade Têm Curvas"
  105. foi um sucesso financeiro,
    cultural e da crítica.
  106. "Excelente", pensei eu. "Conseguimos!
  107. "Provámos que
    as nossas histórias têm valor.
  108. "As coisas agora vão mudar."
  109. Mas vi que muito pouco aconteceu.

  110. Não houve linha divisória.
  111. Ninguém na indústria
    estava a correr para contar mais histórias
  112. de que a audiência tinha fome
    e vontade de pagar para as ver.
  113. Quatro anos mais tarde,
    quando interpretei "Betty Feia",

  114. assisti ao mesmo fenómeno.
  115. "Betty Feia" estreou nos EUA
    para 16 milhões de espectadores
  116. e foi nomeada para 11 Emmys
    no primeiro ano.
  117. (Aplausos)

  118. Mas, apesar do sucesso de "Betty Feia",

  119. não haveria outra série televisiva
  120. com uma latina como atriz principal
  121. na televisão norte-americana
    durante oito anos.
  122. Já passaram 12 anos
  123. desde que fui a primeira e única latina
  124. a ganhar um Emmy numa categoria principal.
  125. Isso não é motivo de orgulho.
  126. Isso é motivo de profunda frustração.
  127. Não porque os prémios
    provem o nosso valor,
  128. mas porque quem vemos
    prosperar no mundo
  129. ensina-nos como nos vermos a nós próprios,
  130. como pensarmos
    no nosso próprio valor,
  131. como sonharmos o nosso futuro.
  132. Sempre que começo a duvidar disso,

  133. lembro-me de que havia uma menina
    que vivia no Vale Swat do Paquistão.
  134. E, de alguma maneira,
    ela conseguiu uns DVD
  135. de uma série norte-americana
  136. na qual ela viu refletido o seu sonho
    de se tornar uma escritora.
  137. Na sua autobiografia, Malala escreveu:
  138. "Interessei-me pelo jornalismo
  139. "depois de ver como as minhas palavras
    podiam fazer a diferença
  140. "e também depois de ver
    os DVD de 'Betty Feia'
  141. "sobre a vida, numa revista
    norte-americana."
  142. (Aplausos e vivas)

  143. Durante 17 anos da minha carreira,

  144. testemunhei o poder
    que as nossas vozes têm
  145. quando temos acesso
    à presença na cultura.
  146. Eu vi isso.
  147. Eu vivi-o, todos nós o vimos.
  148. No entretenimento, na política,
  149. nos negócios, na mudança social.
  150. Não o podemos negar
    — a presença cria possibilidade.
  151. Mas nos últimos 17 anos,
  152. eu também ouvi as mesmas desculpas
  153. para a razão de alguns de nós
    poderem aceder à presença na cultura
  154. e alguns de nós não poderem.
  155. As nossas histórias não têm audiência,
  156. as nossas experiências não vão ao encontro
    da tendência dominante,
  157. as nossas vozes são um risco financeiro
    demasiado grande.
  158. Há uns anos, o meu agente telefonou-me

  159. para me explicar porque é que eu
    não estava a conseguir um papel num filme.
  160. Ele disse: "Eles adoraram-te
  161. "e querem muito, muito
    fazer um 'casting' de diversidade
  162. "mas o filme não é financiável enquanto
    não escolherem primeiro o papel branco."
  163. Ele entregou a mensagem
    com o coração partido
  164. e num tom que revelava:
    "Percebo o disparate que isto é."
  165. Mas apesar disso, tal como
    centenas de vezes antes,
  166. senti as lágrimas caírem-me pelo rosto,
  167. a angústia da rejeição subir em mim
  168. e depois a voz da vergonha
    a repreender-me:
  169. "És uma mulher adulta,
    para de chorar por causa de um trabalho."
  170. Passei por este processo durante anos
    aceitando o fracasso como meu
  171. e depois sentindo profunda vergonha por
    não conseguir ultrapassar os obstáculos.
  172. Mas, desta vez, eu ouvi uma nova voz.

  173. Uma voz que disse: "Estou cansada.
  174. "Estou farta."
  175. Uma voz que compreendeu
  176. que as minhas lágrimas e a minha dor
    não eram por perder um trabalho.
  177. Eram por causa
    do que estava a ser dito sobre mim.
  178. O que tinha sido dito sobre mim
    a minha vida inteira
  179. por executivos e produtores,
  180. por realizadores e argumentistas,
    por agentes e gestores
  181. por professores,
    por amigos, pela família.
  182. Que eu era uma pessoa de menos valor.
  183. Pensava que o protetor solar
    e os ferros de alisar o cabelo

  184. trariam a mudança neste sistema de valores
    profundamente entrincheirado.
  185. Mas do que me apercebi naquele momento
  186. foi que eu nunca pedi realmente
    ao sistema para que mudasse.
  187. Eu estava a pedir para me deixarem entrar,
    e isso não é a mesma coisa.
  188. Eu não podia mudar
    o que o sistema pensava de mim,
  189. enquanto acreditasse naquilo
    que o sistema acreditava sobre mim.
  190. E eu acreditava.
  191. Eu, como toda a gente à minha volta,
  192. acreditava que não era possível
    eu existir nos meus sonhos, tal como era.
  193. E tentei tornar-me invisível.
  194. O que isto me revelou foi
    que é possível ser a pessoa
  195. que genuinamente
    quer ver uma mudança
  196. enquanto também
    continua a ser a pessoa
  197. cujas ações mantêm as coisas como são.
  198. E isso fez-me acreditar
    que a mudança não virá
  199. por identificarmos os bons e os maus.
  200. Essa conversa
    deixa-nos todos livres de culpa.
  201. Porque a maioria de nós
    não são nem uma coisa nem outra.
  202. A mudança virá

  203. quando cada um de nós tiver a coragem
  204. de questionar os nossos valores
    e crenças fundamentais,
  205. e de verificar depois
    que as nossas ações nos conduzem
  206. às nossas melhores intenções.
  207. Sou apenas uma entre milhões de pessoas
  208. a quem tem sido dito
    que, para realizar os meus sonhos,
  209. de modo a contribuir
    com os meus talentos para o mundo,
  210. tenho de resistir à verdade de quem sou.
  211. Eu estou pronta a deixar de resistir
  212. e começar a existir inteira
    e autenticamente como eu própria.
  213. Se eu pudesse voltar atrás
    e dizer alguma coisa

  214. àquela menina de nove anos,
    a dançar na sala, nos seus sonhos,
  215. eu diria:
  216. "A minha identidade não é o meu obstáculo.
  217. "A minha identidade é o meu superpoder."
  218. Porque, na verdade,
  219. eu sou o que o mundo parece.
  220. Vocês são o que o mundo parece.
  221. Coletivamente, nós somos
    o que o mundo efetivamente parece.
  222. E para que os nossos sistemas
    reflitam isso,
  223. eles não têm de criar uma nova realidade.
  224. Eles têm apenas de deixar de resistir
    à realidade em que já vivemos.
  225. Obrigada.

  226. (Aplausos e vivas)