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Portuguese, Brazilian subtítols

← Minha identidade é um superpoder, não um obstáculo

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29 llengües

Showing Revision 27 created 05/28/2019 by Maricene Crus.

  1. No piso vermelho da sala de minha família,
  2. eu dançava e cantava durante o filme
    feito para TV "A Trajetória do Sucesso",
  3. estrelado por Bette Midler.
  4. ♪ Tive um sonho ♪

  5. ♪ Um sonho maravilhoso, papai ♪
  6. Eu cantava com a urgência e o desejo
    ardente de uma criança de nove anos

  7. que, de fato, tinha um sonho.
  8. Meu sonho era ser atriz.
  9. É verdade que nunca vi ninguém
    que se parecesse comigo
  10. na televisão ou nos filmes
  11. e, com certeza, minha família, meus amigos
    e professores sempre me avisavam
  12. que pessoas como eu não
    faziam sucesso em Hollywood.
  13. Mas eu era norte-americana.
  14. Me ensinaram a acreditar que qualquer um
    poderia conseguir qualquer coisa,
  15. independentemente da cor da pele,
  16. o fato de meus pais
    terem imigrado de Honduras,
  17. o fato de eu não ter dinheiro.
  18. Eu não precisava
    que meu sonho fosse fácil,
  19. só precisava que fosse possível.
  20. Quando eu tinha 15 anos,

  21. fiz meu primeiro teste profissional.
  22. Era um comercial
    para assinaturas TV a cabo
  23. ou fianças, não me lembro direito.
  24. (Risos)

  25. Eu me lembro que o diretor
    de elenco me pediu:

  26. "Você poderia fazer isso de novo,
    mas, desta vez, soando mais latina".
  27. "Tudo bem.

  28. Você quer que eu faça
    em espanhol?", perguntei.
  29. "Não, faça em inglês,
    mas soando como latina."

  30. "Eu sou latina.

  31. Não é assim que uma latina soa?"
  32. Houve um silêncio longo e constrangedor.

  33. Então, finalmente:
  34. "Tudo bem, querida; não importa;
    obrigado por ter vindo; tchau!"
  35. No caminho de volta pra casa,
    percebi que "soar mais latina"

  36. era falar inglês de modo imperfeito.
  37. Não consegui entender por que o fato
  38. de eu ser uma latina autêntica,
    verdadeira e da vida real
  39. parecia realmente não importar.
  40. Bem, não consegui o emprego,

  41. nem muitos dos trabalhos
    em que as pessoas queriam me ver:
  42. a namorada do membro de uma gangue de rua,
  43. a ladra de loja insolente,
  44. menina grávida número dois.
  45. (Risos)

  46. Esses eram os tipos de papéis
    que existiam para alguém como eu,

  47. alguém que eles viam
    como morena demais, gorda demais,
  48. pobre demais, pouco sofisticada demais.
  49. Esses papéis eram estereótipos
  50. e não poderiam estar mais distante
    de minha própria realidade
  51. ou dos papéis que eu sonhava interpretar.
  52. Eu queria representar pessoas
    complexas e multidimensionais,
  53. pessoas que existiam no centro
    da própria vida delas
  54. e não recortes em papelão de alguém
    no cenário de fundo de outra pessoa.
  55. Mas, quando ousei dizer isso
    a meu empresário,

  56. a quem pago para me ajudar
    a encontrar oportunidades,
  57. a resposta dele foi:
  58. "Alguém tem que dizer a essa garota
    que ela tem expectativas irreais".
  59. Ele não estava errado.
  60. Quero dizer, eu o demiti,
    mas ele não estava errado.
  61. (Risos)

  62. (Aplausos)

  63. Porque sempre que eu tentava
    conseguir um papel

  64. que não fosse um estereótipo mal escrito,
  65. eu ouvia:
  66. "Não estamos buscando diversidade
    na distribuição desse papel".
  67. Ou: "Nós a amamos, mas ela é
    particularmente étnica demais".
  68. Ou: "Infelizmente, já temos
    um latino neste filme".
  69. Continuei recebendo a mesma
    mensagem muitas e muitas vezes:
  70. que minha identidade era um obstáculo
    que eu precisava superar.
  71. Então, pensei:
  72. "Venha cá, obstáculo.
  73. Sou norte-americana.
  74. Meu nome é America.
  75. Treinei minha vida inteira para isso,
    vou seguir o manual,
  76. vou trabalhar mais duro".
  77. E foi assim, trabalhei o meu melhor
  78. para superar tudo o que as pessoas
    diziam que estava errado comigo.
  79. Eu não tomava sol
    para não ficar morena demais,
  80. alisava meus cachos em submissão.
  81. Eu sempre tentava perder peso,
  82. comprava roupas mais chiques e caras.
  83. Tudo para que, quando olhassem pra mim,
  84. as pessoas não vissem uma latina
    gorda demais, morena demais, pobre demais.
  85. Elas veriam do que eu era capaz.
  86. E talvez me dessem uma chance.
  87. E, em uma reviravolta irônica do destino,

  88. quando finalmente consegui um papel
  89. que tornaria todos
    os meus sonhos realidade,
  90. era um papel que exigia que eu fosse
    exatamente quem eu era.
  91. Ana, de "Mulheres de Verdade Têm Curvas",
  92. era uma latina morena, pobre e gorda.
  93. Eu nunca tinha visto alguém
    como ela, alguém como eu,
  94. existindo no centro
    da própria história de vida dela.
  95. Viajei por todos os EUA
  96. e para vários países com esse filme,
  97. no qual as pessoas, independentemente
    de idade, etnia, tipo corporal,
  98. viram a si mesmas em Ana,
  99. uma menina mexicano-americana
    gorducha de 17 anos de idade
  100. lutando contra as normas culturais
    para realizar seu sonho improvável.
  101. Apesar do que me disseram
    toda a minha vida,

  102. vi em primeira mão
    que as pessoas, de fato,
  103. queriam ver histórias
    sobre pessoas como eu,
  104. e que minhas expectativas irreais
  105. de ver a mim mesma representada
    de modo autêntico na cultura
  106. também eram as expectativas
    de outras pessoas.
  107. "Mulheres de Verdade Têm Curvas"
  108. foi sucesso de crítica,
    cultura e bilheteria.
  109. "Ótimo", pensei.
  110. "Conseguimos!
  111. Provamos que nossas histórias têm valor.
  112. As coisas vão mudar agora".
  113. Mas vi que pouca coisa aconteceu.

  114. Não houve um divisor de águas.
  115. Ninguém na indústria cinematográfica
    estava correndo para contar mais histórias
  116. sobre o público ansioso
    e disposto a pagar para vê-las.
  117. Quatro anos depois, quando
    comecei a interpretar Ugly Betty,

  118. vi o mesmo fenômeno acontecer.
  119. "Ugly Betty" estreou nos EUA
    para 16 milhões de espectadores
  120. e foi indicado para 11 prêmios Emmy
    em seu primeiro ano.
  121. (Aplausos)

  122. Mas, apesar do sucesso de "Ugly Betty",

  123. não haveria outro programa de televisão
  124. protagonizado por uma atriz latina
  125. na televisão norte-americana
    por oito anos.
  126. Já faz 12 anos
  127. desde que me tornei
    a primeira e única latina
  128. a ganhar um Emmy
    em uma categoria principal.
  129. Esse não é momento de orgulho.
  130. É um momento de profunda frustração.
  131. Não porque os prêmios provam nosso valor,
  132. mas porque quem vemos
    prosperando no mundo
  133. nos ensina como ver a nós mesmos,
  134. como pensar em nosso próprio valor,
  135. como sonhar com nosso futuro.
  136. Sempre que começo a duvidar disso,

  137. lembro-me de que havia uma menininha
    morando no vale do Suat, no Paquistão.
  138. De alguma forma, ela adquiriu alguns DVDs
  139. de um programa de televisão
    norte-americano
  140. em que ela viu refletido o próprio
    sonho dela de se tornar escritora.
  141. Em sua autobiografia, Malala escreveu:
  142. "Eu me interessei por jornalismo
  143. depois de ver como minhas próprias
    palavras poderiam fazer a diferença
  144. e também ao assistir
    aos DVDs de 'Ugly Betty'
  145. sobre a vida em uma revista
    norte-americana".
  146. (Aplausos)

  147. Durante 17 anos de carreira,

  148. testemunhei o poder de nossa voz
  149. quando consegue acessar
    a presença na cultura.
  150. Vi isso.
  151. Vivi isso, todos nós vimos.
  152. No entretenimento, na política,
  153. nos negócios, na mudança social.
  154. Não podemos negar isto:
    a presença cria possibilidade.
  155. Mas, nos últimos 17 anos,
  156. também ouvi as mesmas desculpas
  157. para por que alguns de nós conseguimos
    acessar a presença na cultura
  158. e outros não.
  159. Nossas histórias não têm público,
  160. nossas experiências
    não ecoam na tendência atual,
  161. nossa voz é um risco
    financeiro grande demais.
  162. Apenas alguns anos atrás,
    meu agente me ligou

  163. para explicar por que eu não conseguia
    um papel em um filme.
  164. Ele disse: "Eles adoraram você
  165. e querem mesmo buscar diversidade
    na distribuição dos papéis,
  166. mas o filme não terá financiamento
  167. até que os papéis dos brancos
    sejam distribuídos primeiro".
  168. Ele deu a mensagem com o coração partido
  169. e com um tom que comunicava:
    "Entendo como isso é errado".
  170. Mas, no entanto,
  171. como das outras centenas de vezes,
  172. senti as lágrimas em meu rosto.
  173. A sensação de rejeição se eleva em mim
  174. e, então, a voz da vergonha me repreende:
  175. "Você é uma mulher adulta.
  176. Pare de chorar por causa de um emprego".
  177. Passei por esse processo por anos
    aceitando o fracasso como sendo meu
  178. e depois sentindo uma profunda vergonha
    por não conseguir superar os obstáculos.
  179. Mas, dessa vez, ouvi uma nova voz.

  180. Uma voz que dizia: "Estou cansada.
  181. Já basta".
  182. Uma voz que compreendia
  183. que minhas lágrimas e minha dor não
    tinham a ver com a perda de um trabalho,
  184. mas, na verdade,
    com o que diziam a meu respeito,
  185. o que tinha sido dito
    sobre mim a minha vida toda
  186. por executivos, produtores,
  187. diretores, roteiristas,
    agentes, empresários,
  188. professores, amigos e familiares:
  189. que eu era uma pessoa de menos valor.
  190. Eu achava que protetor solar
    e pranchas de alisamento

  191. trariam mudança nesse sistema de valores
    profundamente enraizado.
  192. Mas percebi naquele momento
  193. que eu, na verdade, nunca pedi
    que o sistema mudasse.
  194. Eu estava pedindo a ele que me deixasse
    entrar, e isso não é a mesma coisa.
  195. Eu não podia mudar
    o que o sistema achava de mim,
  196. enquanto eu acreditava
    no que ele achava de mim.
  197. E eu acreditava.
  198. Eu, como todos ao meu redor,
    acreditava que não era possível
  199. que eu existisse em meu sonho
    do jeito que eu era.
  200. Comecei a tentar me tornar invisível.
  201. Isso me revelou que é possível
  202. ser a pessoa que realmente
    quer ver a mudança
  203. e, ao mesmo tempo, ser a pessoa
    cujas ações mantêm as coisas como estão.
  204. Isso me levou a acreditar
    que a mudança não virá
  205. rotulando os mocinhos e os bandidos.
  206. Essa conversa livra todo mundo,
  207. porque a maioria de nós
    não é nenhum deles.
  208. A mudança virá

  209. quando cada um de nós tiver a coragem
  210. de questionar seus próprios
    valores e crenças fundamentais
  211. e depois se certificar de que suas ações
    conduzam às suas melhores intenções.
  212. Sou apenas uma das milhões de pessoas
  213. a quem disseram que,
    para realizar meus sonhos,
  214. para contribuir com meus
    talentos para o mundo,
  215. tenho que resistir à verdade de quem sou.
  216. Eu mesma estou pronta
    para parar de resistir
  217. e começar a "existir" como meu eu
    completo e autêntico.
  218. Se eu pudesse voltar
    e dizer qualquer coisa

  219. àquela criança de nove anos, que dançava
    na sala e tinha os sonhos dela,
  220. eu diria:
  221. "Minha identidade não é meu obstáculo.
  222. Minha identidade é meu superpoder.
  223. Porque a verdade é
  224. que sou como o mundo se parece.
  225. Você é como o mundo se parece.
  226. Somos juntos como o mundo,
    na verdade, se parece.
  227. Para que nossos sistemas reflitam isso,
  228. eles não precisam criar
    uma nova realidade.
  229. Só precisam parar de resistir
    àquela em que já vivemos.
  230. Obrigada.

  231. (Aplausos) (Vivas)